Pov Angelique Lacey
Aquele era um inverno muito rigoroso, a neve cobria meus sapatos já molhados enquanto eu andava pelas ruas do centro até a parte suja onde bandidos e prostitutas se acumulavam.
Havia uma galinha viva sob meu braço, se contorcendo e cacarejando em desespero depois ter sido roubada de seu poleiro, aos meus catorze anos, isso era uma vitória.
Subi as escadas estreitas ao lado do bar até a pequena edícula no topo, bati e ouvi passos pesados se aproximando antes da voz grave perguntar.
- Quem está aí?
- Sou eu\, pai. Me deixe entrar\, estou congelando.
A porta se abriu apenas alguns centímetros e vi o olho castanho do meu pai do lado de dentro, ele me avaliou e quando sorri levantando a galinha ele abriu o restante da porta. Joguei o animal nos braços dele e atravessei a cozinha dando um breve aceno aos outros no cômodo, entrei no quarto para tirar os sapatos molhados, vesti chinelos de tecido quentes sobre meias limpas.
Quando voltei a sala, a galinha já estava morta e sendo depenada.
- Então\, o jantar é por minha conta – brinquei e um dos homens\, o mais velho\, sorriu para mim.
Havia um ar pesado presente no cômodo e isso só podia significar uma coisa.
- Eles conseguiram? – ninguém respondeu minha pergunta e olhei para meu pai em busca de resposta.
- O legislativo é dos licantropos\, agora.
- Droga.
Os lobisomens começaram na história do mundo como uma lenda, depois se tornaram monstros, mas aos poucos se modernizaram e cansados de se acumular em alcateias no campo e na floresta, começaram galgar cargos cada vez mais altos na nossa sociedade.
Para ajudar, havia um grupo de homens defendendo o direito dos licantropos e estavam conseguindo mais adeptos rapidamente.
Naquela sala estavam os últimos homens que ainda lutavam contra o avanço dos licantropos no governo.
- Vão nos encontrar? – perguntei\, pensando no que pegaria primeiro caso tivéssemos que nos mudar outra vez.
Minha pergunta é respondida por um baque alto vindo da escada que acabei de subir e uma batida alta na porta que me fez estremecer.
- Pai.
- Rápido\, Angelique. Você tem que ir.
Ele se apressou em me levantar e me empurrando seu casaco, ele me jogou para dentro do quarto e fechou a porta, outra batida na porta da frente fez a casa toda, dessa vez, estremecer.
Ouvi rosnados e gritos, como coisas pesadas caindo no chão e uma briga fervorosa. Me apressei em sair pela janela do quarto e desci pelo telhado, escorregando no final e caindo sobre a soleira do bar.
Não precisava ser muito inteligente para entender o que tinha acontecido. Os licantropos ganharam derrotando os últimos homens que iam contra eles, nós humanos reinamos por milênios, mas agora o mundo era deles e nós seriamos os marginalizados.
Meu peito doía pela morte de meu pai, mas eu não tinha escolha, precisava continuar.
Andei pelas ruas congelantes por dias, com fome e frio, vendo-os comemorar a vitória ao ter tomado o poder no Reino Unido.
Parei em uma banca de jornal, me decidindo de roubava ou pedia, o dono era humano, talvez tivesse pena de mim. O jornal mostrava a foto de um homem velho e carrancudo com os dizeres: Novo Alfa Reina na Europa.
- Hei\, menina – olhei para o lado e vi um homem gordo e velho\, mas muito bem-vestido – está com frio?
Eu cresci nas ruas, pulando de albergue em albergue, sempre sendo protegida pelo meu pai, mas eu sabia das coisas, aquele homem não estava me oferecendo calor de graça, sei um passo atrás e agulhas finas de frio espetaram meus pés gelados, mais um dia na neve podia significar a morte.
Então, seja lá o que eu teria que dar em troca aquele homem por uma noite confortável, eu daria. Uma vida que durou longos doze anos.
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Atualizado até capítulo 138
Comments
Vanusa Crispim Da Silva
começando a ler agora às 22:08h ,08/01/25
2025-01-09
0
lily
começando 00,58 domingo dia 9/02/2025
2025-02-09
0
Regina Maria
começando a ler 10/11/24
2024-11-11
0