Capítulo 14

Renata Fontes

— Boa noite, professora Cláudia. — Cumprimentei a mamãe de Elisa que estava na cozinha. Fugi para aquela parte da casa para me distanciar dos outros que estavam completamente bêbados.

— Boa noite, minha querida. Está com fome? Estou fazendo o jantar.

— Obrigada, mas só vim tomar um pouco de água. — Peguei a água na geladeira e um copo no armário. Me servi e sentei na banqueta que ficava de frente para onde a professora Cláudia estava cozinhando.

Só precisava de alguns minutos para respirar e botar a cabeça no lugar. Henrique e Elisa começaram a beber e depois embriagaram Soph e Flávia. Uma coisa levou a outra e agora, estavam na piscina agindo como adolescentes inconsequentes.

Flávia tinha emprestado um biquíni de Sophie, vê-la com tão pouca roupa me deixou bem nervosa. Ao mesmo tempo em que era bom assistir ela brincando sem quaisquer amarras. A jornalista estava completamente desarmada, faziam muito tempo que eu não tinha a oportunidade de ver esse seu lado. O lado pelo qual eu me apaixonei à primeira vista.

— Parece que todos estão se divertindo. — A mãe de Elisa comentou.

— Só estão matando a saudade da amiga. — Falei me referindo a Flávia.

— E você, porquê não está bebendo com eles?

— Tenho uma audiência amanhã bem cedo. — Em parte, era verdade. Mas também tinha medo de não me segurar ao redor daquela mulher, que nesse momento estava rindo bem alto. Quando ouvi a sua risada, meu corpo reagiu de imediato. Como era possível que ela me deixasse em um estado deplorável com apenas isso?

— É, realmente você tem um ponto. Veio direto do trabalho?

— Sim, a semana está bem corrida. Muitas coisas para resolver.

— Me lembro bem que você era sempre a primeira a chegar na minha aula. E pelo visto, continua super responsável. Seus pais devem ter muito orgulho da filha. — Cláudia foi minha professora na faculdade. Só conheci Elisa bem depois, quando trabalhei por um tempo como modelo. Namorei com a estilista durante um ano, e hoje entendo que nossa relação sempre foi mais sobre amizade e apoio. Nós duas estávamos longe de casa e tínhamos a mesma nacionalidade. Foi fácil ficar com Elisa, ela não cobrava nada de mim e eu não cobrava nada dela. Talvez por isso, a nossa amizade tenha permanecido sólida.

— Eles sentem mais orgulho de mim do que eu mereço. Ainda sou boa em aprontar quando quero. — A Professora Cláudia deu uma gargalhada.

— Não duvido. Elisa é do mesmo jeito.

— Fico longe uns minutos e já estão falando de mim. — Minha amiga entrou na cozinha e veio até onde eu estava sentada.

— Já ia chamar você, minha filha. O jantar está pronto. Vocês duas, me ajudem a colocar tudo na mesa, lá fora.

— Sim, senhora. — Eu e Elisa falamos ao mesmo tempo.

Enquanto colocamos as comidas na mesa, Elisa se aproximou de mim e falou baixo.

— Porque você está fugindo?

— Não estou fugindo. Apenas quero respeitar a vontade de Flávia. — Coloquei o arroz e a salada na mesa.

— Vocês conversaram? — Ela escorou o seu braço no meu.

— Não é o que você está pensando. É mais fácil ganhar cinco casos seguidos do que conversar com aquela mulher. — A estilista colocou as suas vasilhas na mesa e voltamos para buscar mais comidas.

— Você tem que ter mais atitude. Quando conheci a Soph, tive que usar todas as minhas armas para conquistá-la. Não foi fácil.

— É diferente, Elisa. Não estou dizendo que foi fácil, mas você não tinha perdido a confiança da Sophie. Nunca a magoou. Já eu, fiz tudo errado desde o início. Se a Flávia não quer falar comigo, eu vou respeitar. É o mínimo que posso fazer.

— Não sei se acredito nisso. Eu tenho observado vocês duas e não acho que você deve desistir. A Flávia não me parece tão resistente esta noite. — Olhei na direção da jornalista e ela estava sentada numa cadeira de praia, enquanto ria com os amigos.

— Ela está bêbada, não conta. E também, a sua versão mal humorada é dedicada somente a mim.

— Vou te dar uma ajudinha, então. — Elisa levantou uma das sobrancelhas.

— Lizzy, é melhor você não fazer nada...

— Shhhhh. — Ela colocou o indicador nos meus lábios. — Fique quieta e só siga o plano.

— Que plano, Lizzy? Você está tão bêbada quanto qualquer um aqui. Vocês mal se sustentam em pé. — Ela me deixou falando sozinha e foi até a sua mulher. Logo, Soph e os outros vinheram para a mesa. Flávia estava de braço dado com Rick. Os dois riam até para o vento.

— Podem comer, crianças. Eu fiz uma sopinha pra quem estiver se sentindo muito tonto.

— Obrigada, sogrinha. Você é maravilhosa.— Sophie beijou o rosto da mais velha. E a professora Cláudia, sorriu.

— Vem gente, vamos comer alguma coisa. Já está bem tarde. — Elisa disse.

Todos sentaram ao redor da mesa. Henrique estava ao meu lado e Elisa estava do outro.

— Ei amiga, posso dormir aqui? — Foi Henrique quem perguntou.

— Claro amigo, o quarto de hóspedes está arrumado. E você Flávia, vai dormir aqui também? — Sophie disse.

— Não posso. — Flávia falou arrastado. Ela estava visivelmente sonolenta. — Amanhã tenho que receber os trabalhadores. Vou pedir um Uber daqui a pouco. — A jornalista deitou a cabeça sobre o seu braço que estava apoiado na mesa. Estava começando a ficar preocupada com ela.

— Nada disso Flá, é muito perigoso ir de Uber a essa hora da noite. Já conversei com a Renata e ela pode levar você. — Olhei surpresa para Elisa. Então esse era o plano dela.

— Não, eu consigo.... — A voz de Flávia se perdeu. Ela estava quase dormindo ali mesmo.

— Renata, é melhor levar a Flávia para casa agora. Ela está muito sonolenta. — Foi Sophie quem falou, dessa vez.

— Claro. — Me levantei na mesma hora.

— Vou fazer uma marmita para vocês levarem meninas. — A professora Cláudia saiu em direção a cozinha.

Sophie e Elisa ajudaram Flávia a caminhar até o meu carro. Abri a porta do mesmo para que elas colocassem a mais nova no banco.

— Gente, eu estou bem. Só preciso de três copos com água e fico sóbria rapidinho. — Ela riu sozinha, o que lhe deu um pequeno soluço.

— Cuida dela, Rê. Aqui estão as coisas de vocês. — Henrique me deu as nossas bolsas e a roupa de Flávia, ela estava apenas de biquíni .

— Aqui Renata, leva essa sopa. É bom ela comer antes de dormir. — Professora Cláudia me entregou um pote.

— Obrigada. — Coloquei tudo no banco traseiro e fui até onde Flávia estava sentada. Tirei meu paletó e coloquei nela. Nossos amigos estavam ao redor do carro.

— Não tente nenhuma gracinha em. — Ela disse em um sussurro, mas estava sorrindo.

— Está com frio? — Perguntei.

— Um pouco. — Flávia encostou sua cabeça no apoio do acento e fechou os olhos. Peguei uma toalha que estava na minha mochila e coloquei sobre as suas pernas. Depois verifiquei se o seu cinto de segurança estava bem preso e fechei a porta do carro. Aproveitei para me despedir de todos.

Quando já estava no carro, Elisa se aproximou da minha janela.

— Dirija com cuidado. Me manda mensagem quando estiver em casa. — Ela falava baixo, somente para que eu pudesse ouvir.

— Então, esse era o seu plano? — Perguntei.

— Não exatamente, mas você vai levá-la para casa. Já é um começo.

— Não tenho muita escolha né, vocês estão mortos de bêbados.

— Pare de ser tão certinha. Cadê a minha amiga descontraída e inconsequente, o que você fez com ela? — Lizzy me provocou. Fiz questão de mostrar o dedo do meio para ela, antes de ligar o carro e seguir para a casa de Flávia. A desgraçada, apenas riu.

...ΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩ...

Depois de alguns minutos dirigindo, me dei conta que já fazia muito tempo desde a última vez em que deixei Flávia em casa. Mesmo que tentasse, não conseguia me livrar das lembranças dolorosas que ficaram em mim desde aquele dia. Não demorou muito para que chegássemos na casa dela. Saí do carro e abri o portão que ficava na entrada do terreno. Depois que passamos pelo portão, seguimos um caminho coberto por árvores. O terreno era um dos poucos da região que tinha plantações, era praticamente um sítio. Ao longe, avistei a pequena casa amarela. As poucas vezes em que estive aqui foram o suficiente para descobrir o quanto aquele lugar era importante para a mulher ao meu lado, ela tinha me dito que sua mãe adotiva deixou a casa para ela e que aquele era o único lar que ela já teve. Isso foi muito antes da nossa discussão. Em um tempo em que ela ainda se abria comigo.

Estacionei o carro. Flávia estava dormindo e seu rosto estava sereno. Nunca tive a oportunidade de poder observá-la tão de perto. Seu cabelo estava molhado e caía sobre o seu rosto. Toquei levemente em seu rosto e coloquei as mechas do cabelo atrás da sua orelha. Ela abriu os olhos e me encarou. Não vi raiva em seu olhar, como era de costume.

— Você é muito intrometida. — Ela sussurrou. — Já está querendo entrar na minha vida, de novo. —Ela falava arrastado. Sabia que estava mais dormindo do que acordada. Por isso ignorei as suas palavras.

Saí do carro e ajudei Flávia a caminhar. Peguei as suas coisas e segurei firme na sua cintura para que ela não caísse. Sei que não deveria pensar demais com Flávia quase dormindo ao meu lado, mas ela estava só de biquíni por baixo do meu paletó e o seu corpo estava colado ao meu. Era difícil manter a sanidade quando aquela mulher era tudo o que eu queria. Respirei fundo e me repreendi por ser tão fraca.

Quando chegamos na porta, olhei em sua bolsa procurando as chaves. Não demorei muito para encontrar. Levei Flávia até a sua cama e lhe ajudei a deitar, ainda me lembrava de onde ficava o seu quarto. Fui até a cozinha e peguei um pouco de água para ela. Ela apenas me olhava com os olhos baixos de sono.

— Vem, toma um pouco de água. Vai te ajudar a melhorar. — Flávia não foi resistente. Apenas sentou e bebeu a água com calma.

Peguei a sopa que tinha deixado na mesa e sentei ao seu lado na cama. Era bom que ela comesse pelo menos um pouco.

— Você precisa se alimentar também. — Pequei um pouco da sopa na colher e levei até a sua boca. Ela me olhou desconfiada, mas logo abriu a boca e solveu o líquido que já estava morno. Continuei a lhe oferecer a comida e para a minha surpresa, ela não recusou. Comeu uma boa parte da sopa.

Flávia voltou a deitar. Fui até a cozinha e peguei uma vasilha com um pouco de água e uma toalha de rosto. Não seria um banho completo, mas pelo menos iria ajudar. Voltei para o quarto e ela já estava com os olhos fechados, novamente. Torci a toalha até que ficasse úmida e passei em seu rosto, depois em seus braços.

— Porque você ainda está aqui? — Ela perguntou e abriu os olhos.

— Não quero que fique doente. — Falei.

— Quero dizer, depois de tudo que eu te disse. Você ainda está aqui. — Ela tocou em meu rosto.

— Desculpa por isso, sei que tenho que ficar longe. Espero que amanhã você não se lembre de nada. — Tentei me afastar, mas Flávia segurou em minha nuca e me puxou para perto do seu rosto.

— E se eu quiser me lembra? — Ela aproximou a sua boca da minha. Aquilo era tudo que eu sempre quis, mas ela estava bêbada. Mesmo assim, estava sendo muito difícil de resistir.

— Não devíamos fazer isso, você está bêbada. — Segurei a sua mão e tirei do meu pescoço. Reuni todas as minhas forças para conseguir me afastar. Só Deus sabia o quanto estava sendo difícil negar aquele beijo. Mas não iria me perdoar se tirasse proveito daquela situação. Esperei que Flávia falasse alguma coisa, mas ela voltou a fechar os olhos e depois de uns minutos, dormiu.

Cobri seu corpo com o edredom e organizei o que tinha tirado do lugar. Quando terminei, dei uma olhada para ver se Flávia estava bem. Ela dormia profundamente.

— Espero que um dia, você consiga me perdoar. — Fechei a porta do quarto e tranquei a casa. Depois coloquei a chave em um lugar que Flávia pudesse encontrar com facilidade.

Enquanto caminhava em direção ao carro, lutava com o desejo de voltar e deitar ao seu lado. Estava preocupada com ela, mas sabia que quando ela acordasse seria melhor que eu estivesse bem longe. Fui tola em achar que podia ficar fora do seu caminho. Era mais forte do que eu, meus sentimentos estavam me controlando. Mesmo que Elisa não tivesse armado aquela situação, eu teria me oferecido para deixar Flávia em casa.

Entrei no carro e saí dali sem olhar para trás. Não sabia se teria forças para continuar fugindo do que sentia. Quanto mais estava com ela, mais a queria. E eu tinha certeza que aquele caminho só me levaria para o sofrimento. Flávia não me queria por perto e ela tinha o direito de se manter longe. Não consegui mais segurar as lágrimas, estava triste por saber que eu não conseguiria deixar de amá-la.

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Comments

Letyciia Dayana

Letyciia Dayana

gostei doq Rê fez, educada e mto forte! se fosse eu, não sei c teria resistido, a recompensa vem dpois Rê!!

2025-03-22

2

lua🌚

lua🌚

só um capítulo isso é injusto/Sob//Sob//Sob//Sob//Sob//Sob//Sob//Sob//Sob//Sob//Sob//Sob/ sério mais por favor por favorzinho /Pray//Pray//Pray//Pray//Pray//Pray//Pray//Pray/

2024-11-15

2

Sah_Freitas

Sah_Freitas

poxa autoraaaa...senti na pele agr oq a ré tá sentido...faz essas duas ficarem juntas logo...posta só mais 1.... feriadão amanhã autora por favor 🙏🙏

2024-11-15

2

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