Renata Fontes
Até que a prova de sobremesas estava sendo melhor do que eu esperava. Henrique e Lara, sabiam como deixar o ambiente mais leve. Apesar de me sentir um pouco mais relaxada, a vontade de falar com Flávia não saía da minha cabeça. Queria pedir desculpas por tudo o que fiz, eu devia isso a ela. Apesar de parecer tarde, essa era a única oportunidade que tive em muito tempo.
Depois do evento, vi Flavia na parada de ônibus. Essa era a minha chance de ficar um tempo a sós com ela. Mesmo com todas as possibilidades contra mim, parei meu carro ao seu lado e falei.
— Quer uma carona? — Ela me olhou surpresa, mas logo seu olhar se transformou em desprezo. Eu merecia aquilo, mas não desisti.
— Preciso conversar com você. — Apelei.
— Não tenho nada para falar com você, Renata. — Ela falou secamente.
— Sei que me odeia, mas eu preciso mesmo te explicar algumas coisas. Se você ao menos me escutar por alguns minutos, prometo... — Nesse momento, um ônibus chegou.
— Não perca o seu tempo, tudo o que eu precisava ouvir de você já foi dito. — Ela se virou e entrou no ônibus. Não consegui lhe impedir.
Esse era um lado seu que eu já tinha visto antes. Parecia que essa sua versão era sempre reservada para mim.
No caminho para a casa dos meus pais, tentei não me abalar pela frieza de Flávia. Mas era difícil, porque eu sabia que ela tinha todo o direito de me odiar, como eu odiava o fardo de ser a pessoa que provocou o seu ódio.
...ΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩ...
Quando cheguei na casa dos meus pais, todos já estavam me esperando. Era costume que pelo menos uma vez na semana fizéssemos uma refeição aqui. Meus pais adoravam ter a família ao redor da mesa. Desde criança, minha mãe preparava o jantar com muito carinho, pois era a única refeição que o meu pai podia compartilhar conosco. Ele costumava trabalhar bastante. Hoje, os dois já são aposentados, mas as antigas tradições nunca mudaram.
— Rê, que bom que você chegou! — Minha cunhada Rute, veio até mim e me abraçou. Tínhamos idades próximas, então sempre conversávamos sobre assuntos em comum. — Pedro insiste em dizer que ele e o Gustavo ganharam no último jogo de mímica.
— Oi, meu amor. Você demorou. — Meu pai me abraçou também.
— Desculpa o atraso, estava com as minhas amigas. — Beijei a cabeça da minha mãe, Acariciei a barriga de Júlia e recebi abraços apertados dos meus irmãos.
— Você sabe que o jogo empatou, irmão. Rute acertou no último minuto. — Sentei ao lado minha cunhada, enquanto lembrava ao meu irmão que ele era um péssimo perdedor. — Não cante vitória antes do tempo, hoje você vai perder.
— Isso é o que vamos ver! — Pedro rebateu a minha provocação.
— Vocês dois como sempre, competindo. — Gustavo disse. Ele estava servindo o prato da esposa com uma porção de lasanha.
— O Pedro que quer trapacear. — Rute provocou o marido.
— Querida, pensei que você ficaria do meu lado.
— Não quando eu faço parte do time adversário. — Todos rimos.
— Meus filhos, vamos orar ao senhor e pedir que ele abençoe este alimento. — Mamãe chamou a nossa atenção.
Ela fez a prece que sempre fazia antes de cada refeição e depois começamos a comer. Minha mãe não era de ir à igreja. Na verdade, ela acreditava que o que mais importava era a relação que tínhamos com Deus. Ironicamente, o meu pai era agnóstico. Ele era cientista e sempre acreditou na ciência. Mesmo assim, os dois tinham uma das melhores relações que eu presenciei. O único ensinamento imposto na minha casa, era o respeito. Desde que fôssemos sinceros na nossa verdade, na nossa essência, podíamos ser e acreditar no que quiséssemos. É meio difícil de acreditar que pensamentos tão diferentes possa conviver em harmonia, mas para os meus pais, sempre deu certo.
Após o jantar, como prometido brincamos de mímica. Era bom ter a minha família ao meu lado. Ouvir as risadas dos meus irmãos e a cumplicidade que eles compartilhavam com suas esposas. Assim como o meu pai e minha mãe. Com tanto afeto ao meu redor, era normal querer aquele tipo de relacionamento para a minha vida também.
Quando o jogo terminou, Rute e eu ganhamos. Pedro teve que aceitar a derrota e reconhecer que mímica não era o seu forte. Por isso, meu irmão sugeriu um novo jogo, que logo foi aceito por todos. Menos por mim, era a minha vez de lavar as louças e a minha mãe se ofereceu para me ajudar.
— Seus irmãos só cresceram no tamanho, parecem crianças quando estão jogando.
— Eles só estão se exibindo para as suas esposas. — Disse, enquanto começava a ensaboar alguns pratos.
— Fico tão feliz que eles encontraram o amor verdadeiro. — Mamãe acreditava que o amor verdadeiro era a base para o relacionamento durar.
— Também estou feliz por eles. — Talvez, aquele tipo de amor não fosse para mim.
— Logo vai ser a sua vez, minha filha. — Ela pegou algumas louças limpas e começou a secá-las, guardando em seguida.
— Acho que não. Mas está tudo bem, eu não me importo.
— Estou preocupa com você. — Ela tocou na minha mão. — Você mudou, minha filha. — Não devia estar surpresa, dona Estela era muito observadora. — O que aconteceu?
— Magoei uma pessoa e me sinto péssima. Essa nunca foi a minha intenção, eu só queria ajudar. Estou tentando pedir desculpas, mas acho que já é tarde demais. Ela não quer nem olhar na minha cara. — Pela primeira vez, desabafei com a minha mãe sobre Flávia.
— O que você fez, filha?
— Não posso contar os detalhes porque é um assunto só dela. Mas, basicamente, agi pelas costas dela, atrás de informações sobre o seu passado. Ela pediu para eu parar e eu não dei ouvidos. Achei que se descobrisse tudo sobre o seu passado, ela ficaria feliz e confiaria em mim. Mas aconteceu exatamente o aposto. Eu perdi a sua confiança e agora Flávia me odeia.
— É minha filha, você errou. Pelo que você me disse, a situação se complicou muito entre vocês.
— Sim mãe, mas isso não é tudo.
— Você se apaixonou pela Flávia, certo? — Já devia imaginar que ela leria as entrelinhas. Apenas acenei positivamente.
— Sabe, eu não estou falando sobre conquistar a Flávia ou sonhar com uma relação amorosa. Porque eu sei que ela não me enxerga dessa forma. Tudo o que quero é a oportunidade de me explicar e pedir o seu perdão. Depois, vou tentar seguir em frente.
— Eu sinto muito, meu amor. Queria muito tirar essa dor de você, mas sei que cabe a você resolver essa situação. Só posso lhe desejar boa sorte e dizer que estou aqui para lhe apoiar. Se as coisas se complicarem, você pode voltar para casa e saber que seus pais estão aqui para te ajudar.
— Obrigada mamãe. — Ela me abraçou gentilmente e agradeci mais uma vez por ter a sorte de ter uma família que me amava e me apoiava.
Mesmo sem querer, a reação de Flávia no dia em que contei sobre a sua mãe biológica, veio à minha mente. Ela não ficou feliz, me pareceu que ela estava com medo. Como eu queria ter tido mais sensibilidade para saber lidar com aquela situação. Talvez, as coisas teriam sido diferentes.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 52
Comments
Letyciia Dayana
nossa ,Flávia eh osso duro de roer!kkkk
por isso está ficando interessante ☺️ ☺️
qnd de certo, qro só vê /Chuckle//Chuckle/
2025-03-22
1
Maria Fabiana
Renata que barra hein? Por mais difícil que seja tenta pedir desculpas até conseguir.
2024-10-30
2
Sah_Freitas
mais autoraaaa por favor 🙏🙏
2024-10-30
1