Capítulo 18

Flávia Ribeiro

Quando chegamos no prédio de Renata, lhe ajudei levando algumas das suas coisas até o seu apartamento. O lugar era bem sofisticado.

— Você quer beber água ou suco? — Renata perguntou.

— Água, por favor. — Falei.

Era estranho estar no apartamento de Renata. Sentei no sofá e observei ao redor. Tudo era de bom gosto e elegante, o que combinava com ela, mas muitas coisas não faziam sentido com a sua personalidade. A decoração combinava perfeitamente com as cores e os móveis, mas o que não se encaixava,

era a dona do lugar. Na minha frente tinha um expositor de vidro com no mínimo uns cinquenta bonecos de super heróis, tanto do universo Marvel quanto da DC. Em cima do hacker estavam distribuídos cubos mágicos de todos os tamanhos e modelos. Ela tinha um PS5 e uma televisão de 70 polegadas, com puffs ao redor. Em uma mesinha de canto, tinham alguns trófeus. Estava tão curiosa para entender como aquelas coisas tinham haver com a mulher que eu conhecia, que me aproximei dos troféus para identificar do que se tratavam. No primeiro estava escrito: 1º lugar na feira de ciências e tecnologia, 2012. Segurei o segundo troféu que era no formato de um controle de video game: 1º Lugar no campeonato gamer, 2016. Devia ter uns vinte troféus ali, alguns eram de campeonatos, outros de xadrez, também tinham de concursos de dança e competições de cálculos matemáticos. A verdade era que tinha tantas coisas naquela sala, que eu mal conseguia identificar o que eram.

— Acho que Amélia saiu para passear com o Groot. — Renata falou e me assustei com a sua chegada repentina. — Aqui, a sua água.

— Obrigada. Esses troféus são todos seus?

— Sim. — Ela ficou ao meu lado.

— Você joga xadrez ? — Não queria perguntar, não tinha porque ficar curiosa sobre Renata, mas eu estava.

— Um pouco. Porque, você parece surpresa? — Ela sorriu para mim.

— Nada só... — Nem sabia o que dizer.

— Não tenho cara de “nerd”. — Ela confirmou como se advinhasse os meus pensamentos.

— Nem um pouco. — Admiti. Renata era o tipo de mulher que chamava a atenção por onde passava. A sua elegância, a maneira como se vestia e falava. Tudo nela passava um ar de superioridade. Mas o seu apartamento parecia de uma cientista, introvertida que passava o dia fazendo cálculos usando a roupa que dormiu, com o cabelo preso em um coque bagunçado e seus óculos de armação grossa escorregando pelo nariz. Tudo ali era o sonho de qualquer adolescente Geek.

— Você devia se ver agora, parece um pouco confusa. — Ela continuava sorrindo.

— Só é muito estranho associar tudo isso. — Apontei para os objetos ao nosso redor. — À você.

— Não é estranho, você só não conhece esse meu lado.

A verdade era que eu não conhecia quase nada sobre a mulher à minha frente. E para ser justa, eu achei que sabia perfeitamente o tipo de pessoa que Renata era. Uma mulher mimada, arrogante e superficial. Que tinha tudo de mão beijada e

só fazia o que queria. Só que quanto mais a conhecia, mais percebia que estava enganada. Lembrei do dia em lhe observei no parque brincando com o seu cachorro, e também no orfanato, quando ela ajudou o garotinho a tocar o ukulele, sem mencionar o dia em que ela cuidou de mim quando eu estava bêbada. Pessoas superficiais não tinham aquele tipo de atitude. E ainda tinha a sua parte profissional, onde Renata era uma ótima advogada e dona do seu próprio escritório. Talvez eu estivesse ignorando tudo o que gostava nela, porque não queria me sentir atraído por ela.

— Flávia, você está bem? — Renata se aproximou e levantou a mão para tocar em mim, mas no meio do caminho desistiu.

— Acho melhor, eu ir embora. — Lhe entreguei o copo, que estava segurando e nossos dedos se encostaram. Renata estava a poucos centímetros de mim. Percebi que ela tinha tirado a maquiagem e sua aparência era tão jovial, senti vontade de tocar no seu rosto, sentir a macieis da sua pele em meus dedos. Como seria beijar aqueles lábios cheios e brilhantes?

— Você não precisa ir agora, não está curiosa para saber um pouco mais sobre mim? — A advogada envolveu a minha cintura. Ela deixou o seu rosto bem próximo ao meu. Não consegui reagir a mais nada que não fosse o calor dos nossos corpos e o toque da sua mão em minha cintura. Engoli a saliva com dificuldade. — Se você continuar me olhando assim, vai ser muito difícil deixar você sair daqui.

— Como eu estou te olhando ? — Ela tocou em meu rosto e passou os dedos em meus lábios. Me sentia tão impotente ao seu toque. Era como se necessitasse tê-la tão próximo de mim.

— Está me olhando como se quisesse me beijar. — Renata ficou a milímetros do meu rosto. Conseguia sentir o ar quente da sua respiração. Segurei firmemente nos seus braços, eu estava enfeitiçada. — Me diga que estou errada e irei me afastar.

— Apenas faça o que você quer. — Já estava sem forças para lutar contra aquele desejo. Sem avisar, Renata me soltou. Não entendia o porquê dela ter se afastado.

— Não posso, prometi para mim mesma que nunca mais iria fazer algo sem o seu consentimento.

— Não finja que você se importa com a minha vontade. — Na mesma hora me arrependi do que disse. Renata me olhou magoada.

— Se é o que você pensa de mim, tudo bem.

— Você não vai nem tentar me convencer que estou errada?

— Para quê? Você já tem uma opinião formada sobre mim. Eu sei que errei com você. Me arrependo muito disso e já te pedi perdão. Não sei o que você espera de mim, mas claramente não sou eu que estou lutando contra o que sinto. Se não me quer por perto, tudo bem, vou ficar longe do seu caminho. Agora, não vou mais permitir que me trate assim. Não é porque estou apaixonada por você que vou deixar você me castigar a vida toda por um único erro. — Quando ela falou sobre paixão, minha respiração começou

a falhar. — É a verdade, sou apaixonada por você, desde que te vi pela primeira vez. Não falei antes porque sabia que você se afastaria mais ainda de mim. Mas agora, nem sei o porque ainda sinto isso, sendo que você usa qualquer oportunidade para jogar na minha cara que sou uma pessoa ruim. Me ignora e me trata mal sempre que pode.

— Renata! — Tentei me aproximar.

— Não, Flávia! Pare de me confundir. É melhor você ir embora mesmo.— Ela virou de costas para mim, mas vi quando lágrimas molharam o seu rosto. Me senti a pessoa mais cruel do mundo. Caminhei até onde ela estava e me coloquei na sua frente. Toda raiva e rancor, sumiram no momento em que a vi chorando. Era como se a dor dela fosse a minha e não pude evitar de puxá-la para um abraço. Segurei Renata tão próximo a mim , que conseguia sentir as batidas aceleradas do seu coração.

— O que está fazendo? — Ela perguntou.

— Me desculpa. — Sussurrei — Por favor, não chore! — Limpei as suas lágrimas com a palma da minha mão. — Sei que sou complicada e toda errada. Só estou com medo.

— Do que você tem medo?

— Tenho medo de tantas coisas. — Admiti. Renata, segurou o meu rosto com a sua mão que não estava enfaixada.

— Você pode se abrir comigo.

— Podemos não falar sobre isso, agora? — Tudo o que estava sentindo já era demais para lidar naquele momento. Não precisava de mais drama.

— Tudo bem. — Renata encostou a sua testa na minha. Não conseguia parar de olhar para a sua boca. Quando aquela mulher tinha se tornado tão irresistível para mim? O seu cheiro estava me deixando completamente excitada. Não conseguia mais me manter longe. O primeiro toque dos nossos lábios foi terno e delicado, suguei seu lábio inferior e dei uma leve mordida. Foi quando a advogada gemeu, que a minha cautela foi para a puta que pariu. Queria ser delicada, mas estava embriagada com o seu gosto. Invadi a sua boca com a minha língua, provando cada canto. Ansiava por seu sabor, queria descobrir cada parte sensível do seu corpo. Segurei a cintura de Renata contra a minha e a coloquei onde

queria. Seus gemidos se tornaram mais indiscreto e eu só conseguia pensar que queria fazê-la derreter em minha boca ... Mas o beijo não durou muito, ouvi o barulho da porta sendo aberta e me afastei, em um susto. Ainda podia sentir a minha boca formigando.

— Boa Noite. — Uma mulher de meia idade nos cumprimentou. Em seguida, um labrador enorme veio correndo na direção de Renata, devia ser o Groot. Ainda me sentia anestesiada com a sensação do beijo passando pelo meu corpo. Mas o medo começou a tomar conta de mim. O que eu estava fazendo? Precisava sair dali antes que perdesse o resto de sanidade que ainda me restava.

— Boa Noite, Amélia — Renata, acariciou o seu cachorro.

— Dona Renata, você está machucada. O que aconteceu ? —A mais velha se mostrou muito preocupada quando viu o braço, da patroa, enfaixado. O que me lembrou do quanto já tinha machucado a advogada. Primeiro fisicamente e depois com palavras. Me sentia uma confusão. Era hora de ir embora. Renata me encarava como se soubesse o rumo dos meus pensamentos. Era assustador que ela já conseguisse me ler tão bem.

— Não foi nada sério, Amélia. Você poderia levar o Groot para lavar as patas? Preciso falar com a senhorita Flávia.

— Claro, com licença. — Amélia sorriu para mim.

— Não se incomode, eu já estou de saída. — Caminhei a passos rápidos em direção a porta. Minha respiração estava muito descompassada. O que eu tinha na cabeça para ter beijado, Renata?

— Espera, Flávia! — Senti a mão dela no meu braço. — Precisamos conversar sobre o que aconte...

— Não temos nada para conversar. —Não conseguia encarar o seu rosto.

— Não fuja de mim. — Sua voz estava embargada. Por isso, me virei para olhá-la. A empregada e groot não estavam mais na sala. — Vamos conversar. — Renata estava com os olhos marejados. Me senti péssima por ser o motivo do seu sofrimento, mas precisava me proteger. Nada daquilo era para ter acontecido.

— Esqueça o que aconteceu aqui. Eu não estava pensando direito.

— Não, eu não posso esquecer. Como posso esquecer algo que sempre desejei? — Suas palavras me acertaram com muita força. Estava a ponto de chorar na sua frente. Renata não sabia as verdadeiras consequências de suas declarações. Ela não entendia que eu era uma pessoa quebrada. Alguém que viveu o pior lado da vida e não era capaz de se abrir, não era capaz de confiar.

— Não diga isso, você não me conhece. Não sou boa para você. — Insisti. Precisava apelar para o seu lado racional.

— Posso não conhecer tudo sobre você, mas conheço o suficiente para saber que você queria esse beijo tanto quanto eu. — Ela não iria desistir, então teria que afastá-la.

— Só porque te beijei, não significa que seja uma coisa grande. Foi apenas um beijo e nada mais. Você não é mais especial do que qualquer um para mim. — Renata soltou o meu braço. Sabia que a estava machucando de novo, mas não podia levar aquela situação adiante. E aquela era a melhor forma de lhe manter afastada. Mas porque estava doendo tanto?

A advogada me olhava magoada. Me odiava por ser o motivo do seu sofrimento. Ela caminhou de um lado para o outro sem me encarar. Queria voltar atrás no que tinha lhe dito, mas não podia. Renata precisava entender que eu não era adequada para ela. Eu não era adequada para ninguém.

— Tudo bem, vá embora. Não vou mais insistir, nem para que fique e nem para que retribua os meus sentimentos. Posso ser ingênua em muitas coisas, mas eu sei que o amor não deve ser assim e eu não quero ser só mais uma na sua vida. — Ela caminhou até a porta e abriu para mim.

Suas palavras me atingiram como um tapa na cara. Mas não podia ficar. Agora eu entendia. Depois de conhecê-la um pouco melhor, entendia que ela não era igual as

pessoas com quem já fiquei. Renata tinha expectativas, ela era uma boa pessoa, não estava em busca de uma aventura. E era, exatamente, por isso que eu precisava correr para longe dela.

Passei pela porta sem lhe encarar

e segui para o elevador. Estava acostumada a ir embora da vida das pessoas, mas dessa vez, sentia como se estivesse em uma luta interna. O desejo, a curiosidade e a atração que sentia pela advogada, era algo que nunca tinha sentido antes.

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Comments

Adriana Gomes

Adriana Gomes

a lagarta não precisa de um milagre para virar borboleta, ela precisa de um processo, não podemos fugir dos nossos processos por mais que sejam dolorosos ... temos que ter paciência a dor é transformadora.
algumas pessoas vão fugir da nossa tempestade... outras vão dançar conosco.

2024-11-27

2

Letyciia Dayana

Letyciia Dayana

nossa, achei q seria agora!! essas palavras doeu até em mim!! 😞 😞

2025-03-22

1

Maria Fabiana

Maria Fabiana

Autora bota outra pessoa na vida da Renata só pra fazer a Flávia ter muito ciúmes sofrer um pouquinho kkkkkkk e cair na real.

2024-11-27

2

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