Capítulo 08

Flávia Ribeiro

Naquele dia, teria um compromisso rápido na emissora onde trabalhava e, finalmente, ficaria de férias durante um mês.

Saí de casa com alguns minutos de antecedência para não me atrasar. Estava me programando para comprar um carro, mas por enquanto estava usando uma bicicleta antiga que Nana, minha mãe adotiva tinha me dado. O trajeto até o trabalho era curto. Só precisava cortar caminho pelo parque e seguir na principal por cinco minutos.

Senti falta de passear por aquele parque. Apesar de não gostar de praticar atividades físicas, muitas vezes fiz ciclismo por essas trilhas. A vista era maravilhosa, cheia de árvores, campos e lagos.

Estava concentrada em desviar das pessoas ao meu redor, mas ao longe ouvi um latido e uma risada que me pareceu familiar. Fiquei surpresa ao notar que era Renata. Ela corria ao lado de um cachorro, os dois estavam molhados e sujos de grama. O cachorro derrubou ela e começou a lamber o seu rosto e a sua risada se tornou mais alta.

Estava longe o suficiente para que ela não notasse a minha presença. Nunca tinha visto Renata tão descontraída. Claro que ela era uma pessoa brincalhona e sarcástica, mas em relação a roupas, ela sempre usava terninhos ou tecidos de alta costura. Diferente de agora, que ela estava de regata e shorts confortáveis, seus pés estavam descalços, seu cabelo estava amarrado em um coque e seu rosto estava livre de maquiagem. Ela estava linda.

Não, o que eu estava pensando?

Tantas pessoas no mundo e logo ela veio aparecer para estragar a minha tarde.

Renata jogou um bumerangue e o seu cachorro correu animado. Ela levantou e tentou limpar a grama que ficou em sua roupa. Essa era uma versão sua que eu nunca tinha visto. Sabia que devia seguir o meu caminho, mas a possibilidade de observá-la na sua versão mais natural e sem o peso dos olhares dos outros, me fez ficar.

O que eu estava fazendo?

Porque tinha curiosidade ao seu respeito?

O que ela fez comigo, devia ser o suficiente para que eu nunca mais quisesse olhar na cara dela. Mas a verdade, é que Renata sabia muito sobre mim e eu, não sabia nada sobre ela. Aquilo me irritava e me deixava curiosa ao mesmo tempo.

Uma dupla de corredoras passou ao meu lado, o que me fez voltar a pedalar e me distância da advogada que eu odiava e também queria observar.

...ΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩ...

A segunda-feira não demorou a chegar. Estávamos todos reunidos para a prova do bolo. Além de mim, estavam presentes a família de Sophie, a mãe de Elisa, Henrique, Matheus e Renata. Optei por ignorar a presença desta última e conversar com as outras pessoas.

— Mal posso esperar para voltar para os meus estudos. — Lara comentou comigo. Ela parecia desconfortável. Talvez fosse a presença de Matheus, ele era o melhor amigo de Elisa. No ano passado, Matheus e Lara tiveram um rolo e as coisas não terminaram muito bem.

— É por causa do Matheus? — Resolvi ser direta.

— Não, nem percebi a presença dele aqui. — Ela disse, mas era visível as encaradas que os dois trocavam.

Não quis ser evasiva ao ponto de deixá-la mais desconfortável, então mudei de assunto.

— E como você está, tem alguma novidade? — Perguntei.

— Estou muito bem, estou fazendo estágio no Hospital Israelita Albert Einstein. — Lara cursava medicina. — Por isso, vou voltar pra casa ainda essa semana, mas vou ficar indo e voltando, por conta dos compromissos com a minha irmã. — Ela morava com seus pais em São Paulo.

— Fico feliz por você, Lara. — Sorri para a irmã mais nova da minha melhor amiga.

— E você Fla, quais são as novidades?

— Estou de férias e reformando a minha casa. Não tenho grandes planos até o momento, só quero descansar um pouco. — Falei.

— Isso é bom, todo mundo precisa de descanso. Ainda mais você que passou o último ano viajando a trabalho.

— Você tem razão.

Elisa e Sophie avisaram que os bolos e sobremesas começariam a ser servidos. Era o momento que estava esperando, adorava doces.

— Pessoal, deixamos uma caderneta na mesa de cada um de vocês. Por favor, eu e Soph gostaríamos que dessem notas para as sobremesas e bolos. Isso vai nos ajudar a escolher.— Lyzzy disse, ela estava sentada perto de Renata, Matheus, Soph e sua mãe, dona Cláudia. Lembro de ter conhecido a mãe de Elisa no ano anterior durante a inauguração da sua primeira loja.

Experimentei cada sabor de bolo, avelã com nozes, chocolate com licor, morango com chantilly, creme de maracujá, cupuaçu, ganache com pistache. As sobremesas também estavam ótimas, tinha trufas, tortas, cremes, sorvetes, brigadeiros. Tinha uma variedade incrível de doces. Podia se dizer que eu estava no paraíso. Não esperava menos das noivas, elas tinham bom gosto e recursos financeiros para bancar qualquer coisa que desejassem, mas também queriam a opinião das pessoas que amavam. Isso mostrava o tipo de pessoas que minhas amigas eram. Mesmo que eu não tivesse uma família biológica, elas eram muito queridas para mim e eram como se fossem a minha família. Queria dar o meu melhor para que o casamento fosse perfeito. Escolhi todas as minhas opções preferidas com muito cuidado. Provei diversas vezes cada sobremesa.

— Essa é a parte que você mais gosta, não é? — Rick sentou ao meu lado.

— Você me conhece bem. — Sorri para o meu amigo.

— E você, Lara. Já escolheu os seus favoritos? — Rick perguntou.

— Sim, gosto de chocolate, então não é difícil de adivinhar os meus preferidos. — Ela disse e Henrique sorriu.

— Gosto dos que têm frutas. — Rick disse.

Apenas observei a interação dos dois. Eles pareciam confortáveis um com o outro. O que era normal, já que se conheciam a bastante tempo. Só que antes de Henrique se juntar a nós, Lara estava tensa e agora ela falava alegremente. Mas também tinha alguma coisa no ar, não sabia o que era. Talvez fosse a maneira como Henrique estava falando, ele escolhia bem as palavras e estava com um sorriso enorme. Normalmente, meu amigo era um boca de sacola, sem filtro. Mas agora estava cauteloso. Para quem não o conhecia, aquilo poderia ser normal, mas eu notei a sua mudança de comportamento. Precisava lembrar de perguntar para o meu amigo o que era toda aquela gentileza e sorrisos bobos.

— O que vocês estão achando, gente?— Soph, perguntou.

— Posso comer mais uns três pedaços para me decidir? — Henrique brincou.

— Você pode comer o quanto quiser. — Elisa falou sorrindo.

— Amor, não dê confiança para o Henrique, você mima demais os meus amigos. — Soph reclamou.

— Deixa ela irmã, foi por isso que escolhemos a Lizzy para você. — Lara provocou.

— Ah, então quer dizer que vocês escolheram a Elisa para mim? — Soph parecia indignada, mas dava para ver que ela só estava entrando na brincadeira.

— Olha, eu não queria me gabar, mas se não fosse a gente. — Rick apontou para mim e para Lara. — Você não teria nem pedido a Elisa em namoro, imagina em casamento.

Enquanto os dois provocavam o casal, observei que Matheus e Renata estavam calados. O amigo de Elisa se ateve a mexer em seu celular, enquanto Renata ria das brincadeiras, mas não fazia questão de participar. Em outros tempos, ela seria a primeira a bagunçar com Soph, mas parece que as coisas tinham mudado. Ao meu lado, Henrique e Lara não mediam as palavras, parecia até que tinham combinado. Os dois estavam exalando tanta química que era impossível não desconfiar que algo estava rolando. Foi por isso, que sem cerimônia nenhuma, perguntei.

— E vocês dois, não têm nada para nos contar? — Minha pergunta fez efeito na hora, Henrique me olhou nervoso. Todos no local, voltaram a atenção para meus amigos. Até o Matheus tirou a cara do seu telefone e começou a prestar atenção.

— Nós dois o quê? — Foi Lara quem perguntou. Ela parecia menos nervosa.

— Os dois são ótimos casamenteiros, só pensei se estavam namorando com alguém. — Me fiz inocente. Eles relaxaram na mesma hora, mas eu já tinha tudo o que precisava para deduzir que entre eles estava rolando alguma coisa.

— Não seja boba Flávia, você sabe que não namoro há muito tempo. — Rick disse.

— E você, pequena? — Foi Soph quem perguntou. A mais velha tinha fama de ser superprotetora com a irmã .

— Claro que não, irmã. A Flávia só está brincando. — Lara me olhou, mas não falei nada.

— Se estiver namorando alguém, quero conhecer. — Soph disse.

— Já disse que não estou. —A mais nova parecia irritada.

— Deixe sua irmã, Soph. — Seu Luiz, que era pai das duas, disse. — Não seja tão protetora.

Não prestei atenção no desenrolar da conversa, pois notei que Renata me observava. Aquilo me irritou um pouco, ela era a única que não ligava para o que acontecia ao redor, mas ficava me encarando. Na verdade, não me importo, só quero que ela se mantenha bem longe de mim.

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Comments

Adriana Gomes

Adriana Gomes

vou aguardar a Flávia furacão
pq do jeito que essa mulher é intensa com suas emoções quando se soltar vai enlouquecer de vez a cabeça da coitada da Renata

2024-10-29

2

Adriana Gomes

Adriana Gomes

Flávia já passou por tanta coisa desde o seu nascimento que tudo para ela gira como um carrossel de emoções... quando se passa por tantas coisas na vida é extremamente difícil se joga em alvo novo, o novo as vezes até a gente se acostumar é aterrorizante!

2024-10-29

4

A.Maysa

A.Maysa

aiai Flávia para de pirraça e conversa com a Renata

2024-10-25

1

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