Capítulo 12

Renata Fontes

Hoje iria fazer trabalho comunitário. Eu e a minha equipe do escritório estávamos no orfanato prestando assessoria para pais que queriam adotar, mas não sabiam por onde começar.

O orfanato Santa Luzia, abria as suas portas uma vez por mês para a realização do meu projeto. Além de prestar consultoria, também levava brinquedos, roupas e sobremesas para as crianças.

No momento das brincadeiras, pegava o meu violão e iniciava uma música de roda, enquanto as crianças me seguiam e cantavam a canção junto comigo. Os funcionários do orfanato se juntavam à minha equipe e todos ajudavam nas brincadeiras.

— Tia, toca aquela da rua. — Helen, que era sempre a mais animada do grupo, pediu.

— Toco sim, meu amor. — Comecei a tocar e cantar " Se essa rua fosse minha".

Algumas crianças estavam mais tímidas e ficavam apenas nos observando. Fazia questão de ir até elas para envolvê-las nas brincadeiras. As mais curiosas, queriam pegar no violão e tocar comigo. Amava aquela energia de acolhimento que recebia todas as vezes em que visitava aquele orfanato.

...ΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩ...

— Dra. Renata, quero agradecer em nome do Orfanato Santa Luzia a você e a sua equipe. A cozinha já recebeu as cestas de alimentos que vocês nos mandaram ontem. As crianças também adoraram os materiais escolares. Nem sei como lhe agradecer, minha querida. Só desejo que Deus lhe abençoe e lhe dê muita saúde.

— Obrigada, irmã Inês. Se precisarem de mais alguma coisa, pode falar comigo. — Estava na sala da diretoria do orfanato.

 — Pode deixar, minha filha. Na semana que vem vamos fazer um almoço para arrecadar fundos para o dia das crianças, você está convidada.

— Estarei aqui, sem falta. — Ela sorriu para mim.

Ao sair da sala da diretora, fiquei surpresa ao encontrar Flávia sentada na recepção. Ela também notou a minha presença, mas não disse nada.

Sentei ao seu lado e puxei assunto.

— Tudo bem? — Ela me olhou incrédula.

— Sim. — Falou secamente, enquanto encarava a porta da diretoria.

— Não pensei que te encontraria aqui. — Falei descontraída, tentando coletar qualquer coisa a seu respeito.

— Posso dizer o mesmo.

— Você sabe que faço trabalho voluntário nesse Orfanato. — Falei, lembrando do dia em que a trouxe aqui.

— Tinha esquecido. — Ela, com certeza, estava mentindo.

— Você também está ajudando o Orfanato? — Perguntei.

— Sim.

— Sabia que vai ter um almoço para arrecadação de fundos na semana que vem? — Repeti as palavras da irmã Inês.

— O que você quer, Renata? Não tem mais nada para fazer além de ficar me irritando? — Ela estava impaciente.

— No momento, não. — Flavia Revirou os olhos. Mesmo que aquele estresse fosse direcionado para mim, ela continuava adorável.

— Você não se cansa de ser intrometida? — Suas palavras me fizeram vacilar por alguns segundos. Mas aquela era a conversa mais longa que tivemos desde que ela voltou.

— E você, não cansa de ficar mal-humorada? — Flávia pareceu não acreditar nas minhas palavras, mas não teve tempo de responder, pois a diretora lhe chamou e ela entrou na sala.

— Dra. Renata, a equipe já está voltando para o escritório. Você vem conosco? — Minha assistente perguntou.

— Podem ir na frente, Ágatha. Tenho alguns assuntos pendentes aqui.

— Tudo bem. Não se esqueça da audiência que temos às 16h.

— Estarei lá, não se preocupe.

Ágatha e o resto da minha equipe foram embora. Sentei em um banco no lado de fora da recepção. Não sabia o que estava fazendo ali, era só ir embora e seguir com a minha vida. Mas a culpa estava me consumindo, tinha que conversar com Flávia.

— Tia, você pode me ajudar? — Um garotinho se aproximou. Ele tinha um ukulele nas mãos. A criança deveria ter uns 6 anos de idade.

— O quê aconteceu? — Perguntei e ele sentou ao meu lado mostrando o acorde de Fá no braço do instrumento. Quando bateu nas cordas, o som saiu arranhado.

— Aqui, você tem que apertar a corda com a ponta dos dedos. — Ajeitei o seu dedo. — E também, tem que ajeitar a posição da sua mão. — Corrigi a sua postura.

— Assim? — Ele dedilhou as cordas e o som saiu mais brilhoso.

— Isso mesmo, você aprende rápido. — Falei orgulhosa.

— Quando crescer, quero tocar igual a senhora. — Ele sorriu para mim.

— Qual o seu nome, pequeno?

— Meu nome é Arthur Pereira do Nascimento. Tenho cinco anos e estou no primeiro ano do fundamental. — Achei graça do quão detalhista ele era

— Minha nossa Arthur, meus parabéns. Você é muito inteligente. Deve ser um aluno estudioso.

— Sou sim, tia. Já até sei ler e também já sei contar até cem. — Ele falou todo orgulhoso.

— Uau, você é realmente um gênio! Quer saber? Tenho um presente para você. — Coloquei a mão no bolso da calça e tirei a minha palheta da sorte. — Essa é minha palheta favorita, se você tocar com ela vai aprender mais rápido.

— Sério, tia? — Seus olhinhos brilharam de emoção.

— Arthur, deixe a Dra em paz. Vamos, está na hora do almoço. — Uma das irmãs chamou o menino.

— Obrigado tia, prometo que vou me esforçar muito para aprender uma música para a senhora. — Ele beijou a minha bochecha e saiu animado. Não pude deixar de sorrir. Olhei para a porta da recepção e Flávia estava em pé me observando.

— Há quanto tempo você está me espionando? — Brinquei.

— Não seja egocêntrica, o mundo não gira ao seu redor. — Ela caminhou em direção a saída e eu apressei o passo para alcançá-la.

— Estou brincando.

— Porque você ainda está aqui, está me seguindo?

— Claro que não. Estava apenas dando dicas de Ukulele para o meu amigo, Arthur. — Falei descontraída e ela deu um meio sorrido. Nem acreditava que tinha feito Flávia sorrir.

— Fale logo, o que você quer? — Aquela era a oportunidade que estava esperando. Saímos do orfanato em direção ao estacionamento.

— Podemos conversar no meu carro? — Sugeri.

— Você só pode está louca se acha que vou entrar no seu carro.

— Por favor, Flávia.

Ela respirou fundo. A sua frustração era palpável.

— Tá, tudo bem, mas não posso demorar.

— Vou ser rápida, prometo. — Abri a porta do carro para ela e dei a volta para sentar no lado do motorista. — Você quer conversar em um restaurante?

— É sério isso? Estou quase desistindo. Fale de uma vez o que você tem a dizer.

— Tudo bem, tudo bem. — Respirei fundo, pensando em como iniciar aquela conversa. Não era desse jeito que imaginei que seria. — Eu sei que o que fiz foi errado. De verdade, a minha intenção era a melhor, mas quando você se afastou de mim, só queria encontrar uma forma de te deixar bem. Achei que se encontra-se a sua mãe, o que estava fazendo você ficar chateada, iria passar.

— Porque você insiste em dizer que eu estava chateada com você?

— Porque você ficou fria, mas tudo bem. Não quero insistir nesse assunto. Apenas quero me desculpar por ter continuado a investigação sem a sua permissão. Me desculpa por ter ignorado a sua decisão. Quero que saiba que eu nunca li os detalhes daqueles documentos. Sabia apenas por cima, com base no que o detetive me falava.

— Olha Renata, eu não confio em você. — Um tiro teria doído bem mesmo do que as suas palavras. — Se você acha que depois dessa conversa tudo vai ficar bem...

— Eu não acho que vamos ficar bem. Sei que estraguei as minhas chances de ser sua amiga. Estou me desculpando porque me arrependo do que fiz. — Falei com muita sinceridade. Mas ela me olhou desconfiada. Porque aquela mulher tinha que ser tão arisca?

— Ok, se você falou tudo o que tinha para falar. Estou indo embora.

— Espera, posso te deixar na sua casa. É no caminho para o meu trabalho.

— Não! Não precisa. Quero ficar sozinha. — Flávia saiu do meu carro sem que eu pudesse evitar, ela não parecia bem. Pensei em ir atrás dela para saber o que a estava preocupando, mas todas as vezes em que ela me rejeitava, era como se um soco atingisse o meu estômago. Então, decidi fazer a sua vontade e deixar ela seguir o seu caminho.

Mesmo que as coisas não tivessem sido da maneira que eu imaginei, pelo menos ela me ouviu. Era hora de seguir em frente, iria respeitar a vontade de Flávia. Esse era o mínimo que poderia fazer por ela. Não iria mais entrar no seu caminho. Mesmo que tivéssemos amigos em comum, passaria despercebida até que o casamento de Soph e Elisa fosse comemorado. Depois iria evitar ficar na vista de Flávia, eu devia isso a ela.

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Comments

Ana Faneco

Ana Faneco

Autora querida vai no seu tempo eu agradeço e aguardo atualizar história maravilhosa 😍❤️

2024-11-12

2

Maria Andrade

Maria Andrade

fala e fácil Ag se vc conseguir ficar longe da Flávia é ❤️‍🩹 complicado

2024-11-08

3

Maria Fabiana

Maria Fabiana

autora tá muito bom. Agora que vê a Flávia o que ela vai fazer vendo a Renata seguindo em frente

2024-11-08

3

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