Flávia Ribeiro
Como Renata tinha a cara de pau para me oferecer carona? Ou ela perdeu a memória, ou se fazia de sonsa. Não tinha nada para falar com ela.
Quando cheguei em casa, fui direto trocar de roupa. Coloquei uma calça surrada e uma camiseta com mangas compridas. Talvez, cuidar do jardim me ajudasse a esquecer o quanto falar com Renata me irritava.
Peguei os equipamentos de jardinagem no depósito e comecei a podar as plantas que estavam perto da casa. Algumas estavam tão grandes que seus galhos se enrroscavam nas ripas da varanda.
Quem ela pensava que era? Como podia ser tão intrometida?
Cortei cada galho com mais forças do que o necessário.
Primeiro ela se mete na minha vida, agora acha que só porque passou um ano, eu vou querer falar com ela.
Coloquei os galhos em um saco de lixo. Depois varri as inúmeras folhas que estavam por todo o quintal. Tínhamos muitas árvores aqui, Nana adorava árvores frutíferas. Chegou um tempo em que ela tinha mais plantas do que poderia contar, por isso comecei a ajudá-la. Agora, faço porque me relaxa.
No final da tarde, sentei na escada da varanda e observei o sol se pôr, enquanto tomava um copo com água gelada. Foi inevitável não pensar na briga em que tive com Renata antes de viajar.
Flashback On
Quatorze meses antes...
Após o noivado de Soph e Elisa, fui direto para casa. Já era de madrugada quando recebi uma mensagem de Renata, ela disse que tinha um assunto sério para falar comigo.
Desde que Soph ficou internada, nós não conversamos. Porque Renata costumava ser bem direta com as palavras e eu não estava pronta para qualquer coisa que ela quisesse de mim. Até permiti a sua proximidade, quando achei que seríamos apenas amigas. Mas quando percebi o seu interesse, me afastei.
Não demorou muito e Renata chegou. Confesso que estava curiosa para saber o que tanto ela queria me dizer. Se fosse o que eu estava imaginando, não sei se teria forças para recusá-la. A advogada é muito atraente e ela sabe como usar isso a seu favor. Renata sentou no sofá, ela me encarava intensamente. Notei que seu rosto estava mais pálido do que o normal e me preocupei.
— Renata, você está bem? Seu rosto está um pouco pálido. — Sentei ao seu lado e me controlei para não tocá-la. Não sabia porque estava preocupada com ela.
— Estou bem. Preciso que seja sincera comigo.
— Tudo bem, mas me diga qual é o assunto sério que você tem para me contar? — Perguntei. A ansiedade começou a tomar conta de mim.
— Primeiro preciso saber, porque você está me evitando?
— Já disse, não estou te evitando. — Respondi muito rápido.
— Então me explica, porque de uma hora para outra você parou de falar comigo? Estávamos tão próximas, mas depois da nossa primeira reunião sobre a investigação, você simplesmente se afastou de mim e não deixou eu me aproximar novamente. Pensei que éramos amigas.
Me senti mal, porque dava para ver o quanto ela ficou magoada com a minha distância. Pensei em ser sincera e dizer que estava com medo. Tinha medo de deixar alguém entrar na minha vida. Também tinha medo de ser rejeitada pela minha mãe biológica. Vivi sozinha por tanto tempo, não sabia se estava pronta para deixar novas pessoas entrarem na minha vida. Com Soph e Henrique, as coisas foram mais orgânicas e naturais, eles se tornaram meus amigos por conta do trabalho e da convivência. Mas quando se tratava de alguém novo e que não deseja só a minha amizade, minha primeira reação é me fechar. Apesar de querer, não consegui falar o real motivo. Era pessoal demais, exposto demais.
— Renata, porque você está tão preocupada com isso? Ainda somos amigas. Eu só estou mais focada na minha carreira agora. Tive que adiar minha viagem e agora estou resolvendo uns problemas.
— Viagem, que viagem? — Esqueci que apenas Soph e Henrique sabiam da minha viagem para a África do Sul.
— Vou para a África a trabalho. — Esclareci.
— Pra África? Por quanto tempo? — Talvez fosse impressão minha, mas a advogada parecia nervosa.
— Um ano ou mais, não sei ainda. Já era pra mim estar lá, mas com tudo o que aconteceu com a Soph, eu adiei um pouco a viagem.
— Você não pode ir. — Ela disse aflita. Ok, talvez agora ela falaria sobre os seus sentimentos por mim.
— Porquê? — Eu não me entendia. Se estava me afastando dela, porque queria tanto que ela confessasse o que sentia por mim? Talvez eu só quisesse que alguém se importasse a ponto de querer ficar.
— Porquê eu descobri onde está a sua mãe. — A sua confissão me pegou totalmente desprevenida.
— Você fez o quê? — Estava incrédula.
— Eu continuei com a investigação e descobri que a sua mãe não queria te abandonar. Ela foi enganada pelo seu avô, que é um homem muito mal e orgulhoso. — Aquilo com certeza, era muita informação para processar. Comecei a sentir muita raiva.
— Você continuou a investigação sem a minha permissão? — Como ela pôde continuar com aquilo por tantos meses? Descobrir cada detalhe do meu passado, que nem eu mesma sabia.
— Flávia, você não está me ouvindo. Sua mãe não te abandonou.
Não consegui processar mais nada do que Renata falava. Só queria gritar com ela, queria que ela entendesse o quanto invadiu um lugar que era sensível para mim.
— Não acredito que se meteu na minha vida dessa forma. Quem te deu o direito de vasculhar o meu passado? — Me levantei e caminhei de um lado para o outro sem conseguir me controlar.
— Você, sua amiga. Vocês me procuraram.
— Isso foi antes, eu pedi para você parar. E mesmo assim, ignorou a minha decisão. — Sentia como se a minha vida tivesse sido invadida. Achei que esse processo de investigação seria mais lento. Que teria mais tempo para processar tudo, mas estava cada vez mais assustada.
— E você ignorou a minha existência. Eu não fiz nada de errado e você me afastou. — Então era isso, ela ficou chateada porque me afastei e resolveu se enfiar na minha vida de qualquer jeito.
— Eu mal conheço você e mesmo que eu tenha te contado um pouco da minha vida, não significa que você pode vasculhar o meu passado como se a minha história fosse um filme. — Queria que ela percebesse o quanto estava me afetando.
— Tudo bem, você não me conhece e eu não devia ter continuado a investigação. Não se preocupa que nunca mais vou te incomodar. Vai pra sua viagem e faz o que você quiser da sua vida. — Renata jogou o envelope em cima do sofá e saiu batendo a porta. Sua reação só me inflamou mais ainda. Fui atrás dela, a conversa não tinha terminado.
— Você não vai bater a porta na minha cara. — Caminhei rapidamente e segurei o seu braço. — Ainda não terminei de falar.
— Mas eu já terminei, me solta. Não tenho mais nada pra falar com você. Deixei os papéis da investigação no seu sofá. Só me deixa ir embora. — Meus Deus! Aquela mulher me dava nos nervos.
— Você é muito prepotente se pensa que pode chegar na minha casa e despejar tudo em cima de mim e depois sair batendo a porta. — Puxei ela para mais perto.
— E você é uma teimosa que não quer ouvir ninguém. — O seu olhar era tão intenso que era como se me atravessasse. Me odiei por sentir atração por ela em meio àquele caos.
— Você nem me conhece. Não tem o direito de falar do que não sabe. Sempre teve tudo na vida, é uma minada arrogante. — Ao mesmo tempo em que queria machucá-la, também queria tomar a sua boca na minha e descobrir se ela seria tão petulante na minha cama como estava sendo agora.
— Se sou tão ruim quanto você está dizendo, então porquê continua me segurando? — Me dei conta do quanto estávamos próximas. Se eu não me afastasse naquele momento, estaria em apuros.
— É melhor você ir embora mesmo. — Me afastei o mais rápido que consegui. Logo iria embora e não teria que me preocupar com nada do que acabou de acontecer. A realidade me atingiu, sentia atração por Renata. Parei por um estante, estava tentada a ceder aos meus impulsos.
Não! Ela agiu pelas minhas costas, quebrou a minha confiança. O que devo sentir por ela é raiva. Continuei o meu caminho até que estivesse segura, dentro da minha casa. Respirei fundo até que meu coração acalmou. Nunca tinha discutido com ninguém daquela forma. Olhei para o envelope em cima do sofá, peguei, mas não tive coragem de ler. Estava com medo. Fui até o meu quarto e coloquei os papéis em uma gaveta. Depois lidaria com aquilo.
Flashback OFF
Dias atuais...
Sempre que pensava naquela noite, o meu coração acelerava. Sempre fui boa em ignorar o meu passado, mas há alguns meses o pensamento sobre a minha mãe biológica, estavam mais frequentes. Agora, com a falta do que fazer, esses pensamentos estavam me consumindo. E sobre Renata, odiava que minha mente me traísse o tempo inteiro. Só queria ignorá-la, mas não podia negar que pensava nela também. Principalmente, por ser obrigada a vê-la sempre que tinha um compromisso com Soph e Elisa.
Perdida em minha lembranças, não percebi quando a noite chegou. Entrei em casa e caminhei até o quarto. Não acreditava que estava fazendo aquilo, mas abri a gaveta onde estavam os papéis da investigação e comecei a lê-los.
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Atualizado até capítulo 52
Comments
Cleidiane Oliveira de Freitas
EITA 😮🤐😬🤭
2024-11-04
1
Anne Santos
continua por favor,
2024-11-03
0
Ana Faneco
na hora H Pam... aguardando atualizar ☺️
2024-11-02
2