Capítulo 17

Flávia Ribeiro

Se existia alguém com dois pés esquerdos para dançar, esse alguém era, sem dúvida, eu. Não me faltava dedicação, mas o meu corpo não fazia o que a minha cabeça mandava. E para completar a minha frustração, Renata estava ao meu lado na coreografia de casamento que Elisa e Sophie tinham inventado. A advogada, podia se equiparar a qualquer dançarina profissional, ela executava os movimentos com muita naturalidade e leveza. Como era possível que seu corpo fosse tão flexível? Quando percebi que lhe encarava por muito tempo, desviei o olhar e tentei me concentrar em aprender ao menos o primeiro passo da coreografia.

— Nessa parte, vocês irão se virar para a pessoas ao seu lado e vão fazer quatro movimentos juntos e depois voltar para a posição anterior. — O professor explicou, mas para mim era difícil entender.

Quando me dei conta, Renata já estava virada para mim. Sua proximidade me deixou nervosa. Até aquele momento, não tinha notado o quão grande era a nossa diferença de altura. Perto dela, eu me sentia muito pequena.

— Peguem na cintura do seu parceiro ou parceira e contem os passos no tempo de 1, 2 e 3. Depois de executarem essa parte, quem está na direita irá girar a outra pessoa da esquerda e terminará nesta posição. — O professor demostrou, para que entendessemos melhor. O que não foi de grande ajuda para mim.

— Posso? — Renata perguntou e eu, apenas, confirmei com a cabeça.

Sua mão se encaixou na minha cintura. Seu toque era suave e ao mesmo tempo seguro. Coloquei a minha mão em seu ombro e uni a outra mão na sua. A proximidade dos nossos corpos, me fez lembrar do quase beijo que trocamos à duas noites atrás.

— Ai! — A mais alta reclamou, quando, sem querer, pisei no seu pé.

— Desculpa. — Lhe encarei envergonhada.

— Tudo bem.

Tentamos executar mais de uma vez a coreografia, mas me desequilibrava e esbarrava nela ou então pisava no seu pé.

— Sintam a música. — O professor incentivou.

Estava frustrada, nunca conseguiria fazer aquela coreografia. Para os outros casais, era tão fácil. Lara, que tinha voltado de são Paulo, flutuava ao redor de Henrique. Matheus e a outra professora, seguiam o ritmo perfeitamente. E as noivas? Elas se destacavam com muita sensualidade e elegância.

— Ei...— Renata falou. — Não olhe para os outros, você está indo bem.

— Não precisa mentir, eu sei que sou péssima.

— Só precisamos praticar mais um pouco. Logo você pega o jeito. — A quem ela estava querendo enganar, seus passos eram perfeitos e os meus, estavam longe de serem bons. — Vou girar você agora, Tá bom?

Sei que ela me avisou, mas no momento em que Renata me girou, perdi o equilíbrio e esbarrei com força nela. A advogada não conseguiu sustentar o peso de nós duas e caímos. Só consegui fechar os olhos, antes de sentir o impacto da queda. Até que não doeu tanto, pensei. Quando abri os olhos, Renata estava embaixo de mim, nossos corpos se encaixaram de uma forma vergonhosa. E como se não bastasse o constrangimento que causei, meu corpo começou a reagir às curvas do seu.

— Minha nossa meninas, vocês estão bem? — Elisa veio correndo, seguida por Soph.

— Se machucaram? — Foi Henrique quem falou, dessa vez. Ele me ajudou a levantar. Só queria sair dali e enterrar a minha cara em qualquer lugar.

— Você consegue levantar, Rê. Quer ajuda? — Matheus estendeu o braço para a amiga.

— Consigo, está tudo bem. — Renata levantou e veio até onde eu estava. — Você está bem?

— Sim, seu corpo amorteceu a minha queda. — Quando me dei conta do que tinha falado já era tarde demais. Rick sorriu e balançou a cabeça negativamente. Um sinal de que aquilo iria render muita piada, mas tarde. Mas não me importei, o desespero de Lara, chamou a minha atenção.

— Meu Deus, Renata! O seu pulso está inchando. Consegue mexer a mão? — A irmã de Soph tocou no braço da advogada.

— Acho que sim. — Renata disse, mas fez uma cara de dor quando tentou mexer a mão. Me senti péssima por ter lhe machucado.

— Vamos para o Hospital, é melhor fazer um exame de imagem. — Lara disse.

— Estou bem, não foi nada demais.

— Nada disso, a Lara é médica. Ela não diria para ir até o hospital se não fosse preciso. — Soph interviu.

— É verdade, vou pegar o carro e levamos você, Rê. — Quando Elisa falou, não consegui deixar de me preocupar.

— Não, gente, eu fui a culpada. Então, eu vou levar a Renata no Hospital. Vocês podem continuar ensaiando.

— Não foi sua culpa, Flávia. Foi um acidente. — Renata Falou, ela não estava nem conseguindo mover o braço. Então ignorei as suas palavras.

— Onde está a chave do seu carro?

— Na minha bolsa, mas é sério, não precisa se incomodar.

— Não seja teimosa. Vou te levar para o hospital e ponto final. — Mesma machucada, aquela mulher conseguia me tirar do sério em poucos minutos.

Olhei ao redor e nossos amigos nos encaravam curiosos. Muitos ali, nunca tinham visto esse meu lado. Mas não me importei. Segurei na cintura de Renata, antes que ela protestasse, e lhe ajudei a caminhar. A mais alta me olhou incrédula. O que era aquilo? Eu sabia ser cuidadosa e simpática quando precisava.

— Me mandem notícias. — Foi a única coisa que Elisa disse.

— Pode deixar. — Falei, antes de seguir para o estacionamento.

Abri a porta do carro para a Renata e lhe ajudei a colocar o cinto de segurança. Depois coloquei as nossas coisas no banco de trás e me acomodei no assento do motorista. Seguimos para o hospital mais próximo. Estava me sentindo horrível, esperava que o braço dela não tivesse fraturado.

— Me desculpa. — Foi o que consegui dizer

— Foi um acidente, ninguém teve culpa. — Renata tentava disfarçar a dor, mas dava para notar que ela não estava bem.

— Já vamos chegar, o médico vai fazer a sua dor passar. — Toquei em sua perna para lhe tranquilizar.

...ΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩ...

Depois de 1h de atendimento, saímos do hospital. Renata estava com o pulso mobilizado com uma tala e atadura, ela usava uma tipóia. O médico disse que não fraturou, mas torceu. Indicou compressa com gelo e receitou alguns remédios.

— Dói muito? — Perguntei. Estava levando Renata para casa, mas antes iríamos passar na farmácia.

— Um pouco, mas os remédios que tomei no hospital, já estão fazendo efeito. Logo a dor vai passar, não se preocupe.

— Me sinto tão mal por ter machucado você. — Confessei.

— Apenas caí de mal jeito. Já me machuquei dançando, antes.

— Mesmo assim, eu poderia ter sido mais cuidadosa.

— Flávia, de verdade. Pare de se culpar. — Por mais que Renata insistisse em minimizar o que aconteceu, eu me sentia muito culpada.

— Como você vai dirigir? O médico disse que seu pulso tem que ficar imobilizado por duas semanas.

— Posso chamar um motorista de aplicativo, moro perto do trabalho.

— Como você vai fazer suas coisas do dia-a- dia. Cozinhar, arrumar a casa, cuidar do seu cachorro, tomar banho.

— Tenho uma pessoa que me ajuda em casa e no escritório, posso pedir ajuda para a minha assistente... Mas se você se sente tão mal, pode me ajudar a tomar banho hoje. — Ela sorriu.

— E a pessoa que te ajuda em casa, faltou?

— Pensei que você estivesse preocupada comigo. — A advogada me encarava.

— Apenas estava perguntando, nunca disse que faria algo por você.

— Ai! — Ela colocou a mão no peito de forma dramática.

— O que houve? — Me aproximei e toquei em seu braço.

— Assim você machuca o meu coração. — Fazia um bom tempo que eu não via aquela sua versão.

— Pare de brincar e me dê a receita médica. — Renata pegou o papel em sua bolsa e me entregou. — Não precisa sair do carro, volto logo.

— Sim senhora. — Ela sorriu e eu revirei os olhos. Fechei a porta do carro e segui para a entrada da farmácia.

Estava aliviada de sair daquele espaço apertado. Aquela mulher só podia estar louca se achava que eu iria lhe dar banho. Imagens de Renata tirando a roupa e ligando o chuveiro invadiram a minha mente. O sabonete deslizando pelo seu corpo e deixando um rastro de espuma. Sua pele se arrepiando com o meu toque e um gemido escapando da sua boca , enquanto eu lhe to...

— Moça? — A atendente me encarava. — Como posso lhe ajudar?— Fiquei vermelha de vergonha ao constatar que divaguei, me esquecendo do lugar onde estava.

— Desculpe, gostaria de levar esses remédios. — Entreguei a receita para a mulher.

Não demorou muito e ela colocou as medicações em uma sacola.

— Qual a forma de pagamento?

— Débito, por favor.

— Já tem cadastro?

...ΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩ...

Após sair da farmácia, respirei fundo, antes de entrar no carro. Segui a localização que Renata me passou e permaneci calada até chegar no seu prédio. Precisava me manter distante, já não bastava ter quase lhe beijado na outra noite, agora estava tendo pensamentos muito estranhos com ela tomando banho.

Era simples, só precisava deixar ela em casa sã e salva e depois ir embora. Nada daria errado, não tinha nada demais em conhecer o apartamento da advogada. Só tinha que manter o foco e tudo iria ficar bem.

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Comments

Sah_Freitas

Sah_Freitas

autoraaaa volta aqui mulher...como vc nos deixa assim....imaginando mil coisas do que vai acontecer nesse estacionamento....por favorzinho /Pray//Pray//Pray//Pray/

2024-11-22

3

Letyciia Dayana

Letyciia Dayana

eita q tá ficando bom, a curiosidade não m deixa para de ler!! top ☺️ ☺️

2025-03-22

1

Maria Andrade

Maria Andrade

eita Flávia tá difícil controlar as emoções não esconde vai em frente vive esse amor ❤️😻

2024-11-22

4

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