Gosth segurava um capacete na mão e me observava. Seu olhar penetrante , como se estivesse tentando decifrar o que diabos eu estava fazendo ali.
Eu não digo nada.
Eu não sabia o que dizer.
Em vez disso, simplesmente tomo outro gole da garrafa de whisky , deixando que o calor do álcool me envolva e amorteça a dor que rasga meu coração.
Ele se aproxima, sua presença imponente ecoando no silêncio da noite, e se senta ao meu lado
Não havia necessidade de palavras.
Ele sabia que eu estava lutando contra meus próprios demônios, afundando mais fundo em um abismo de autodestruição a cada gole que eu tomava.
" Como me encontrou?"
" Chip rastreou seu telefone" Ele diz e eu apenas assinto com a cabeça
Ficamos ali em silêncio, apenas deixando o barulho da noite preencher o espaço a nossa volta, uma melodia suave e reconfortante que de alguma forma faz com que eu não me sinta sozinha.
" Ele está sendo interrogado nesse momento, e quem está interrogando é o capitão" Ele diz
Todos sabíamos o quanto o capitão era sinistro quando se tratava de interrogar alguém... O capitão era legal com a gente...rigido mas legal...como um paizão....
Mas havia coisas, como as coisas que ele fazia quando se tratava de estar no combate ou até interrogando alguém....o velhote botava medo em todo mundo ....
"A garotinha....está no hospital, e está estável" Sua voz sai em um tom suave que eu não estava acostumada
Eu fecho os olhos com força, segurando as lágrimas em seu lugar e respiro fundo...
Então tomo mais um gole
"Minha irmã", começo, as palavras saindo num sussurro trêmulo
Eu não sei por que, mas é como se eu quisesse expor essa parte de mim pra ele, que ele soubesse, que ele entendesse, e de alguma forma algo dentro de mim me faz contar
Ele olha pra mim mas eu continuo olhando pra frente
"Ela... ela era apenas uma criança, inocente e vulnerável. E nosso pai... ele... ele não era o herói que eu acreditava... Eu não sabia. Por anos, eu vivi na ignorância, cega para o sofrimento que ela suportava. Até uma noite... até aquela noite em que eu vi o que ele estava fazendo. Eu vi ele... roubando a inocência dela..... Eu não pude suportar. Eu não podia permitir que isso continuasse..."
Eu tomo outro gole de Whisky
"Eu peguei uma faca e matei ele naquele momento...." Alguns flashes daquela noite voltam na minha mente "Não pensei duas vezes. Foi um ato de puro instinto, de proteção. Mas... mas minha irmã... ela não aguentou. Ela... ela se foi...."
Mais um gole, o amargo da bebida se misturando com o salgado das lágrimas que caiam
" Quando eu vim pra cá, as coisas não eram tão diferentes.... Eu sai de um inferno pra entrar em outro.... Foi assim que entrei pros Falcões negros... Foi a única maneira que eu via pra escapar da realidade que eu vivia..."
Uma pausa pesada pairou entre nós, carregada com o peso das verdades que eu havia revelado.
"Eles... eles me acolheram, me deram um propósito, uma maneira de canalizar minha dor. Mas anos depois... eu vi o chefe deles fazendo a mesma coisa com uma adolescente drogada. Ela pedia pra ele parar, mas ele não parava.... Eu não consegui ignorar aquilo.... Então eu o matei e fugi"
Silêncio reinou novamente, enquanto eu esperava por qualquer sinal de reação de Gosth. Mas ele permaneceu impassível, sua expressão revelando pouco do que ele estava pensando.
E eu me perguntei se algum dia ele seria capaz de compreender a escuridão que eu carregava dentro de mim.
"É por isso que eu mudei meu nome e me alistei", murmuro, meu tom pesado "E é por isso que eu sou uma ex-criminosa, como você diz."
Uma sensação de cansaço se espalha dentro de mim, uma exaustão que vinha não apenas da bebida, mas da jornada tumultuada que me trouxera até aquele ponto. Eu tomo outro gole do líquido amargo, deixando que queimasse minha garganta enquanto eu tentava afastar as memórias sombrias que ameaçavam me engolir.
"Você é a primeira pessoa que eu conto essa história.... E eu sei que não estou no lugar certo", murmuro mais para mim mesma, minhas palavras quase se perdendo no vento noturno. "Independente de quantas pessoas eu matei depois de entrar pro exército, às vezes eu ainda acho que deveria estar na cadeia, pagando pelo que fiz... mesmo que eles fossem uns monstros."
A autoacusação pesava em meus ombros como uma carga insuportável, cada palavra uma admissão de culpa que eu carregava desde o dia em que tomei aquela decisão fatídica.
"Você fez o que precisava ser feito" Gosth diz , sua voz áspera ecoando no silêncio da noite. "Não há vergonha em lutar pela justiça, mesmo que isso signifique cruzar linhas que outros não ousariam, ou abandonar nossa própria humanidade.... E hoje é exatamente o que você faz, você luta por isso, a diferença é que hoje você tem aval pra fazer isso"
Eu olho para ele, surpresa pelo toque de compreensão em suas palavras.
Talvez, apenas talvez, ele entendesse mais do que eu jamais poderia ter imaginado.
"Eu...eu continuei...em frente.... Como você continua em frente, quando a pior coisa já aconteceu?... O que você precisa mudar por dentro pra sobreviver? O que você tem que se tornar?...." Eu pergunto sentindo o peso do mundo em minhas costas
Gosth permanece em silêncio por um momento, ponderando minhas palavras com seriedade. Seus olhos refletem a luz da lua, revelando uma profundidade de experiência e dor que eu nunca havia percebido antes.
"Continuar em frente... é uma luta constante", ele finalmente responde, sua voz grave carregada de uma mistura de resignação e determinação. "Não é sobre mudar quem você é, Fox. É sobre encontrar uma maneira de viver com quem você se tornou, mesmo que isso signifique carregar o peso de suas escolhas pelo resto da vida."
Suas palavras cortam fundo, uma verdade inegável que não posso ignorar.
"Às vezes, sobreviver significa encontrar uma razão para lutar, mesmo quando tudo parece perdido", ele continua, sua voz e seus olhos sérios e concentrados. "Significa encontrar uma maneira de seguir em frente, mesmo quando o mundo desaba ao seu redor."
Eu ouço suas palavras com atenção, absorvendo cada sílaba
"Você já enfrentou o impossível, Fox", ele continua, seu olhar fixo no meu. " Você enfrentou seus demônios, mesmo quando parecia que eles eram invencíveis. Você é mais forte do que pensa. Agora, você apenas precisa encontrar uma maneira de viver com as consequências."
Eu me permito considerar suas palavras, deixando que elas se infiltrarem nas profundezas da minha mente perturbada.
Eu assinto com a cabeça aceitando suas palavras
Com essas palavras, eu me vejo um pouco mais fortalecida, um pouco mais capaz de enfrentar o futuro incerto que se estende diante de mim.
E talvez, apenas talvez, eu possa encontrar uma maneira de continuar seguindo em frente, apesar de tudo.
"Obrigada", murmuro, minha voz suave carregada com uma gratidão que eu não esperava sentir.
Gosth assente, sua expressão impassível por debaixo da máscara que ele usava como sempre, mas havia algo em seus olhos que parecia diferente agora. Talvez fosse apenas minha imaginação ou efeito da bebida, mas parecia que, por um breve momento, ele também estava procurando por algo que não conseguia encontrar.
Ficamos ali. Ele fica em silêncio apenas deixando eu beber meu whisky enquanto acalmo a tempestade dentro de mim.
Depois de um tempo ele olha no relógio
"Vamos... Tá ficando tarde... " Ele responde se levantando
Eu guardo a garrafa na minha mochila e me levanto, limpando minha calça.
Ele se senta na moto e olha pra mim
" O que você tá fazendo?" Pergunto
" O capitão ordenou que eu te levasse em segurança pra base" Ele responde
Eu arqueio uma sobrancelha, descrença evidente em minha expressão.
"Na minha moto? Nem pensar", eu digo, minha determinação ressurgindo. " Ninguém encosta na minha moto e nem dirige ela"
"Se você dirigir do jeito que tá, não vai sobrar nada da sua moto para alguém encostar nela", ele retruca, sua voz calma e firme.
Eu sabia que ele estava certo, mas não queria admitir
Minha pilotagem imprudente às vezes resultava em danos à minha preciosa moto, e agora então...
" Faz de conta que faz parte do treinamento. Você vai tá confiando em mim pra dirigir sua moto" Ele diz me fazendo estreitar os olhos
Apesar de relutante, eu sabia que era melhor deixá-lo dirigir do que arriscar danificar ainda mais minha única forma de escape.
"Se você arranhar uma única peça dela, você vai se arrepender", eu o advirto, meio séria e meio em tom de brincadeira.
Eu ajeito a mochila, coloco o capacete e me acomodo na garupa.
"Segure em mim", ele ordena, sua voz firme, mas não autoritária.
Com um aceno hesitante, eu passo meus braços ao redor de sua cintura, o segurando com firmeza enquanto ele liga a moto.
A sensação de proximidade era completamente estranha, e eu me peguei lutando contra uma série de emoções conflitantes. A presença de Gosth ali despertava algo dentro de mim, algo que eu não conseguia identificar.
Enquanto a moto começava a se mover, eu me concentrei em controlar a onda de sentimentos tumultuados que ameaçavam me submergir.
E enquanto eu segurava Gosth firmemente, eu sabia que essa jornada de volta à base seria mais do que apenas uma simples viagem de moto.
Seria uma oportunidade para eu aprender a confiar não apenas nele, mas em mim mesma.
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Atualizado até capítulo 75
Comments
Lucimari
Adorei 😍
2024-12-04
1
Dorothy Vieira
AMORRR❤️😂
2024-06-13
3
Dorothy Vieira
agora ficou mais difícil ainda 😂😂😂
2024-06-13
3