Quando me dou por mim Samir está me puxando pelo braço com força e fazendo-me subir as escadas com grosseria, eu não o reconheço, ele não é a mesma pessoa que conheci naquela noite. Tento me soltar, mas quanto mais tento mais ele me aperta, grito e então ele coloca a sua mão na minha boca me fazendo calar, me joga para dentro de um quarto e tranca a porta. Eu que cansei de ficar quieta parto para cima dele com tudo.
-Seu infeliz, desgraçado, você me trouxe para o meio de um inferno, você não vale nada, eu não aguento mais isso aqui, eu quero a minha vida de volta, tudo que eu tinha era minha vida, minha família, minha casa, minha faculdade, e você está me tirando isso, com que direito-? Que direito você tem de invadir a minha casa e me chantagear até aqui? Eu falo enquanto estapeio o seu peito enfurecida.
-Virgínia, já chega. Chega, Virgínia, para com isso- Samir diz, mas eu continuo imponente.
Naquele momento eu me sinto revoltada, estou com ódio dele, daquela gente estranha me olhando com julgamento, porque eu aceitei tudo isso? Estou com raiva de mim mesma e só quero descontar nele. Até que ele me segura forte e me olha nos olhos dizendo:
-Virgínia, eu fiz isso porquê eu não queria viver o que você viveu com Noah, eu não queria carregar o peso da culpa pela morte da minha irmã, eu sei sobre Noah, eu sei sobre o acidente, eu sei sobre tudo.
-Não, cala a boca, você não sabe de nada.
-Eu sei, Virgínia, eu sei tudo sobre você, eu sei sobre a morte do...
-Chega! Para agora, você não tem o direito- Eu falo colocando as mãos entre a cabeça e entrando num choro compulsivo, intenso, dolorido.
*lembranças de Virgínia*
Era sábado a noite, estávamos nos arrumando para uma baladinha no interior da cidade, eu e um grupo de amigos estávamos bem animados, estávamos no último ano do ensino médio, era nossa chance de curtir antes que a faculdade chegasse. Naquela época meu pai queria que eu fizesse administração e fosse a presidente das nossas empresas com Noah. Noah era meu melhor amigo, meu companheiro, meu irmão. Quando ele nasceu eu tinha quase 3 anos, Noah foi o meu presente de Natal, nós dormíamos no mesmo quarto e mesmo brigando vez ou outra, tudo sempre terminava bem, ele era o meu garotinho e eu era a sua grande irmã durona, ele tinha muito orgulho e ciúmes de mim. Eu sabia que Noah queria ficar em casa naquela noite, mas sabia que meus pais só me deixariam ir se ele fosse também.
-Vai Noah, por favor, quebra essa pra mim, por favor irmãozinho, eu faço o que você quiser.
-Virgínia, eu não tô afim de ir, queria ficar aqui jogando com os guris.
-Aí, você é egoísta, não faz nada por mim. Aceita essa, Noah, eu faço o que você quiser, vai, diz que sim, por favor, por favorzinho-Falo com carinha de choro agarrando na gola da sua camisa.
-Você lava as minhas cuecas, limpa os meus sapatos e me dá meias novas?
-Sim, eu faço isso, seu aproveitador.
-E me traz aquele lanche que eu adoro sempre que receber a sua mesada?
-Aí, você também abusa, viu.
-Você quer ir pra festa ou não?
-Tá, tá, negócio fechado.
Fomos, curtimos, bebemos muito, Noah sempre por fora, já eram 2 da manhã. Noah vem me chamar:
-Vi, a gente já deveria estar em casa uma hora dessas, papai e mamãe vão matar a gente.
-Com você? papai e mamãe nem falam grosso com você-Falo sorrindo.
-Tá, se eu morrer a culpa é sua, foguetinha- Noah fala rindo e mexendo no meu cabelo enquanto danço.
-Cara, relaxa, bebe um pouco, a gente vai já.
-Você é teimosa hem, Vi, tá, mais 40 minutinhos só. Quem vai dirigir na volta?
-O Fabrício vai, ele está muito de boa.
-Cara, ele não tá bebendo não, Vi?
-Tá não pow, ele tá de boa, relaxa.
-Já que você diz, então tá. Vou pegar mais batatinhas enquanto você gasta essa energia toda aí, foguetinha.
Uma hora depois estávamos entrando no carro, todos alterados, rindo atoa, alguém estava vomitando, eu via tudo embaçado. Noah disse que iria no banco da frente com Fabrício, não ia correr o risco de levar jato de vômito. Eram quase 4 da manhã, a estrada era meio escura, eu estava cochilando, quando dei por mim ouvia gritos.
-Fabrício, olha a caminhote, desvia, cara, desvia, vamos bater, vamos bater.
Essa foi a última vez que ouvi a voz do meu irmão.
Quando dei por mim estávamos capotando, acordei perto de um lago, vi luzes, sirenes de ambulância, e um saco preto sendo levado ao meu lado.
*Lembranças off*
-Foi minha culpa, foi minha culpa, foi minha culpa-Eu falava ainda com a mente confusa e as lembranças surgindo na minha cabeça.
-Virgínia, eu sei que não foi sua culpa, me desculpa ter falado sobre isso- Samir fala tentando me abraçar.
-Me solta, não toca em mim, me deixa sozinha, é minha culpa, é minha culpa.
-Virgínia, escuta, a perícia constatou que o outro motorista estava na contra mão, em alta velocidade, a pista tinha baixa iluminação, não estava bem sinalizada, a culpa não é sua, eu vi o laudo.
-Se eu não tivesse insistindo pra ele ir pra aquela maldita festa...-Falo chorando copiosamente.
-Virgínia, foi um acidente, você sabe que foi, eu não falei isso para que você se sinta culpada, eu só quero que você entenda o porquê eu fiz tudo isso, porquê preciso de você aqui. Sâmia foi pega tendo relações com um rapaz aqui da comunidade, e para nossa religião é pecado passivo de dura punição, e ou ela se casaria ou receberia 100 chicotadas, eu não concordo com isso, mas o meu clã, apesar de estar nessa grande cidade é muito tradicional, e como eu não era casado, sendo mais velho e líder, ela não poderia se casar, e Alaah sabe o que seria dela se eu não chegasse aqui casado, eu só quero que você entenda porque preciso de você aqui, Virgínia, você viveu a dor de perder o Noah, eu não queria perder a minha Sâmia, ela é a minha garotinha.
Samir fala e vejo que seus olhos também estão marejados, eu o abraço e ele me corresponde e no seu ombro encosto minha cabeça.
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Atualizado até capítulo 92
Comments
Akassia Pinheiro
Se ele tivesse explicado no começo, teria sido mais fácil
2024-07-01
1
Andreia Debiagi
ele tem que tratar ela bem , ele é muito ogro
2023-11-29
2
Maria Campos
Nada contra, mas nesses países, a mulher é sempre rechaçada.
2023-11-28
0