O Chapim-azul

Lorna Norvell avistou, pela janela do quarto da irmã, os homens do General MacAllister voltando ao povoado enquanto traziam diversas carroças com mantimentos:

---- É apenas o segundo dia em que estão aqui e já fizeram mais pelo povo do que nosso pai fez em anos! ---- disse ela para Leana.

---- Então deveríamos ficar felizes, Lorna! ---- disse Leana sentada na simples e pequena cama que ocupava quase todo o quarto ---- Se eles querem as terras, talvez nos deixem ir, irmã.

Trancafiada em seu quarto durante quase toda a vida, Leana Norvell sonhava com a liberdade de campos verdes e com o ar puro das Terras Altas.

---- Quem sabe nos aceitem como criadas nas Terras Altas... ---- disse ela esperançosa.

---- Meu doce anjo, não nutra esperanças vãs... ---- Apesar de ser a caçula, Lorna era a mais bruta e realista das duas. Não podia permitir que a irmã sonhasse sonhos que não se realizariam. Leana já havia sofrido demais em uma vida tão curta. ---- ... não acho que desejem nos manter vivas. Eu vi o ódio e a mágoa nos olhos de Tobias McKay e não o julgo por isso. Eu certamente faria o mesmo se fosse você a ter um destino tão cruel como o de Annabel...

---- Annabel era tão boa e gentil... Certamente seu irmão não poderia ser tão diferente. Ela foi como nossa mãe durante os anos em que cuidou de nós...

---- E mesmo assim nosso pai e Peter foram capazes de matá-la!!! ---- Lorna sonhava com o dia em que se banharia no sangue de Peter Douglas, seu marido. Os 3 anos de abusos intensos que sofreu em suas mãos tinham adoecido sua alma e corpo. ---- Espero que eles os achem e os esfolem vivos! Seria gratificante saber disso antes de partir para a outra vida!

Leana também detestava o pai e Peter mas não conseguia ser tão sincera quanto Lorna sobre seus sentimentos.No fundo, sempre esperou que o pai lhe desse um único afago ou uma singela palavra de carinho durante todos os anos em que permaneceu praticamente presa naquela torre.

Aos 21 anos de idade, Leana Norvell jamais tinha visto sequer o rosto da irmã. Havia nascido cega e com a saúde frágil. Foi considerada pelo pai uma anomalia, uma maldição que recaia sobre a cabeça de todos. Seu pai foi tão convincente em espalhar que a menina era uma aberração que até mesmo algumas criadas não lhe dirigiam a palavra.

Foi então confinada a um pequenino quarto na torre do Castelo, para que ninguém pudesse vê-la ou ouvi-lá. Só saia de sua prisão quando o pai e seus homens não estavam nas redondezas. Sua irmã mais nova era sua única amiga e companheira.

---- Senhora Norvell... ---- A jovem criada Muria apareceu na estreita porta que não estava completamente fechada ---- O Senhor MacAllister está lhe chamando para o jantar!

Muria era muito jovem e ainda estava assustada com tudo que estava ocorrendo no Castelo nos últimos dois dias. A invasão foi tão rápida que quando os criados se deram conta, o batalhão das Terras Altas já ocupava cada centímetro do decadente Castelo SilverStone.

---- Como estão os ânimos, Muria? ---- Lorna perguntou franzindo a testa.

---- Os homens trouxeram mantimentos durante todo o dia... o povo está feliz, ouso dizer... há tempos não viam tanta comida! ---- disse ela dando passos suaves e entrando no pequeno cubículo.

---- Creio que sejam boas notícias, não é, Muria? ---- Leana sorriu para ela de maneira ingênua. Muria ainda ficava desconfortável com os olhos extremamente claros de Lady Leana. Eram como duas lagoas congeladas no inverno.

---- A Sra. Smith está dando pulos na cozinha... promete um jantar excelente para esta noite! ---- Muria tentou sorrir de volta antes de se lembrar que a jovem Lady não podia perceber seu sorriso.

---- Leana, Muria está sorrindo para você! ---- disse Lorna ao perceber as intenções da criada.

---- Obrigada pela gentileza, Muria! ---- disse Leana abrindo ainda mais o sorriso.

---- Devo descer, meu anjo. Você ficará bem?

---- Claro que sim, Lorna, ficarei como sempre! Já passa da minha hora de dormir, de qualquer maneira! ---- Lorna temia que em breve o temível Ian MacAllister desse por falta da mais velha das filhas da Casa Norvell. Ela certamente não permitiria que a inocente irmã passasse por qualquer humilhação.

----- Não se preocupe, Lady Leana, eu irei trazer o seu jantar aqui no quarto... dizem que hoje tem torta de cordeiro! ---- disse Muria.

---- Oh, eu nunca comi! ---- Leana ficou empolgada ---- certamente estará deliciosa.

Lorna olhou com carinho para a irmã mais velha. Os abusos e sofrimentos pelos quais passou não ofuscaram o coração terno e o temperamento gentil da menina. Certamente ela era um anjo em um corpo de mulher.

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