Os anos que se seguiram foram de crescimento tanto para Luís quanto para a relação entre ele, Maria e Gabriel. Luís estava agora com dez anos, uma criança cheia de perguntas e uma curiosidade insaciável sobre o mundo ao seu redor. Ele era querido na escola, conhecido tanto pela sua inteligência quanto pela sua gentileza, traços que Maria orgulhosamente via como parte do legado que ela e suas amigas haviam contribuído para moldar.
Gabriel, por sua vez, havia se tornado uma figura mais constante na vida de Luís. Ele não morava com eles, mas seus encontros eram agora uma parte regular da rotina semanal. Gabriel tinha aprendido a balancear seu tempo entre o trabalho e estar presente, trazendo Luís para conhecer seu mundo, ensinando-lhe sobre responsabilidade e a importância do trabalho duro através de pequenos projetos que faziam juntos, como montar móveis ou cuidar do jardim de Maria.
Um dia, enquanto trabalhavam no jardim, Luís perguntou algo que pegou Gabriel de surpresa. "Você também não teve um pai presente?" A pergunta trouxe um momento de silêncio, Gabriel refletindo sobre sua própria história, algo que raramente compartilhava.
"Sim, Luís. Meu pai não esteve muito presente na minha vida. Ele trabalhava muito, e quando estava em casa, parecia que não sabia como ser pai. Acho que eu... eu repeti esse erro com você, mas estou tentando mudar isso."
Luís ouviu, seus olhos cor de âmbar refletindo uma compreensão além da sua idade. "Então, você está tentando ser um pai melhor do que o seu foi?"
Gabriel assentiu, emocionado. "Exatamente. E você está me ensinando isso todos os dias."
A vida de Maria também havia mudado. Com Luís crescendo e se tornando mais independente, ela encontrou tempo para explorar interesses que havia deixado de lado. Começou a frequentar um curso de literatura na faculdade local, algo que sempre sonhou, mas nunca pensou ser possível. Solange, Roberta e Lily continuavam sendo pilares em sua vida, mas agora também se envolviam em novos projetos pessoais, o que dava a Maria um novo senso de liberdade e auto-realização.
No entanto, o crescimento de Luís trouxe desafios inesperados. Ele começou a questionar mais profundamente a ausência de Gabriel nos primeiros anos de sua vida, influenciado por colegas de escola que tinham famílias tradicionais. Essas perguntas levaram a momentos de tensão em casa, onde Luís expressava sua frustração ou tristeza.
Uma noite, durante uma dessas conversas, Luís perguntou diretamente a Maria: "Mamãe, você nunca pensou em procurar outro pai para mim?"
Maria, sentindo o peso da pergunta, sentou-se ao lado dele, abraçando-o. "Eu pensei, Luís. Mas eu também acreditei que era melhor te dar todo o amor que eu podia, e que juntos, nós éramos suficientes. E olha, você tem uma família grande, com tias que te amam como se fossem suas mães também."
Luís refletiu, mas seus sentimentos estavam em conflito. "E o Gabriel? Ele pode ser meu pai, mas não está aqui desde o começo."
"Gabriel está tentando fazer parte da sua vida agora, Luís. Ele cometeu erros, mas está aprendendo, assim como todos nós. O importante é que ele quer estar aqui para você agora."
A conversa não resolveu tudo, mas abriu caminho para que Luís começasse a entender a complexidade das relações humanas. Maria sabia que essas questões não seriam resolvidas em uma única noite, mas ela estava determinada a ser o guia de Luís através dessas águas turbulentas.
Com o tempo, Luís começou a canalizar sua energia e suas emoções em atividades escolares e extracurriculares. Ele se apaixonou por futebol, onde encontrou uma nova forma de expressar suas emoções e um espaço onde sentia que pertencia. Gabriel, reconhecendo a paixão do filho, começou a assistir aos jogos, tornando-se um torcedor entusiasmado, e Maria encontrou nisso uma nova forma de união entre os três.
Mas a vida não é feita apenas de momentos felizes. Um dia, enquanto estavam jogando futebol, Gabriel teve um ataque cardíaco. Foi um choque para todos, especialmente para Luís, que viu seu pai ser levado às pressas para o hospital. Maria, sempre a rocha da família, manteve a calma para o bem de Luís, mas por dentro, estava aterrorizada.
Nos dias seguintes, Gabriel ficou no hospital, e a vida de todos foi suspensa em um estado de incerteza. Luís visitava seu pai todos os dias após a escola, trazendo desenhos, livros e histórias sobre os jogos de futebol. No hospital, Maria e Luís encontraram um novo tipo de intimidade, falando sobre tudo e sobre nada, esperando por notícias de Gabriel.
Foi durante esses dias que Maria refletiu sobre a fragilidade da vida e a importância de cada momento. Ela escreveu novas cartas para Luís, agora não mais apenas sobre o passado, mas sobre o presente, sobre a importância de valorizar o tempo, de perdoar e de amar sem reservas.
Gabriel sobreviveu, mas a experiência mudou a perspectiva de todos. Ele decidiu reduzir suas horas de trabalho para estar mais presente. "Eu quero estar aqui para ver você crescer, Luís", disse ele, sua voz ainda fraca, mas determinada.
Luís, que havia enfrentado um turbilhão de emoções, encontrou uma nova apreciação pelo pai. "Eu também quero que você esteja aqui, pai", respondeu ele, abraçando Gabriel com uma força que surpreendeu a ambos.
A recuperação de Gabriel trouxe mudanças mais profundas na família. Maria começou a pensar em como o futuro poderia ser diferente, talvez até compartilhando mais da vida com Gabriel, não como casal, mas como parceiros na criação de Luís. Eles começaram a planejar atividades familiares, como viagens curtas e projetos caseiros, onde Luís pudesse aprender com ambos.
A vida de Maria também tomou um rumo inesperado quando ela conheceu Carlos, um professor de literatura na faculdade, que compartilhava sua paixão por livros e histórias. O relacionamento começou como uma amizade, mas logo Maria percebeu que havia espaço em sua vida para mais amor, sem que isso significasse esquecer o passado ou diminuir o papel de Gabriel na vida de Luís.
Luís, por sua vez, começou a ver a vida como uma série de capítulos, cada um com suas próprias lições e histórias. Ele começou a escrever, inspirado pela mãe, histórias sobre famílias não tradicionais, sobre perdão e sobre o amor que transcende as expectativas sociais.
O ano terminou com uma celebração, não apenas do aniversário de Luís, mas de um novo começo para todos. Solange, Roberta e Lily estavam lá, como sempre, mas desta vez, havia mais pessoas ao redor da mesa: Gabriel, recuperado, e Carlos, que estava se tornando parte da vida deles.
"À família", brindou Maria, olhando para todos ao redor, "à nossa família, que é exatamente como deve ser, única e cheia de amor".
E assim, enquanto as risadas enchiam a sala e Luís abria seus presentes, Maria sentiu que, apesar de todas as dificuldades, estavam construindo algo belo e duradouro, uma vida cheia de legados e novos começos.
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Atualizado até capítulo 61
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