Luís completou cinco anos em um dia ensolarado de primavera, marcado por uma festa simples, mas repleta de amor, no quintal do apartamento onde Maria agora morava. A ideia de mudar para um lugar com um pequeno jardim foi de Roberta, que, sempre prática, acreditava que Luís merecia um espaço para correr e brincar. A festa contou com a presença das amigas de Maria, alguns vizinhos e colegas da livraria, onde Luís já era conhecido por sua curiosidade e sorrisos contagiantes.
Maria observava Luís brincando com uma alegria que fazia seu coração se expandir. No entanto, a felicidade do momento era tingida por uma sombra de preocupação. Luís começava a fazer perguntas sobre seu pai, perguntas que Maria tinha evitado responder com mais do que vagas generalidades.
"Por que eu não tenho um pai como os outros meninos?" perguntou Luís, seus olhos cor de âmbar fixos em Maria enquanto ela colocava mais suco na sua xícara.
"Todos temos uma história diferente, meu amor. O importante é que você tem um monte de pessoas que te amam muito, inclusive eu", respondeu Maria, tentando manter a voz leve, mas sentindo o peso das palavras não ditas.
A festa continuou, mas a questão de Luís pairava no ar. Solange, sempre atenta às emoções de Maria, puxou-a para uma conversa privada enquanto as crianças brincavam. "Ele está crescendo, Maria. Vai precisar saber a verdade mais cedo ou mais tarde."
Maria suspirou, olhando para Luís que ria ao tentar pegar balões. "Eu sei, Solange. Só não sei como começar. Não quero que ele pense que é menos amado ou que há algo de errado com ele por causa da decisão do Gabriel."
"Ele vai entender com o tempo, mas precisa da verdade de você, não de rumores ou de uma fantasia", disse Solange, apertando a mão de Maria em um gesto de apoio.
A conversa ficou ali, mas Maria sabia que precisava agir. Nos dias seguintes, ela começou a pensar seriamente sobre como abordar o assunto com Luís. Decidiu que usaria as cartas que havia escrito durante a gravidez, uma forma de contar a história de uma maneira que Luís pudesse compreender, mesmo com sua jovem idade.
Uma tarde, após voltarem do parque, Maria sentou-se com Luís na pequena sala do apartamento, cartas em mãos. "Luís, quero te contar uma história, uma história sobre nós." Ele sentou-se ao lado dela, interessado, seus olhos brilhando de curiosidade.
Ela leu as cartas, adaptando a linguagem para ele, explicando que, embora seu pai não estivesse presente, ele era amado desde o momento que Maria soube de sua existência. Falou sobre Gabriel, não com raiva, mas com a verdade de que ele não estava pronto para ser pai, mas isso não diminuía o amor por Luís.
"Então, ele não me ama?" perguntou Luís, sua voz pequena e insegura.
"Amor, ele não te conhece, e isso é muito triste. Mas isso não significa que você não é amado. Você tem uma mãe que faria qualquer coisa por você, e tias que são como uma família. Você é amado por muitas pessoas, Luís."
Luís ficou quieto, processando as informações. "Ele pode me conhecer algum dia?"
Maria engoliu o nó na garganta. "Talvez, um dia. Mas nós somos felizes assim, não somos?"
Luís assentiu, mas Maria viu uma sombra de tristeza em seus olhos. Ela o abraçou forte, prometendo que sempre estaria lá, que juntos construiriam uma vida cheia de amor e aventuras.
Os dias seguintes foram de ajustes. Luís começou a falar mais sobre seu pai, não com raiva, mas com uma curiosidade infantil que Maria tentava nutrir com honestidade e amor. Ele também começou a desenhar mais, retratos de sua família, onde incluía figuras que Maria sabia serem tentativas de imaginar seu pai.
A vida continuava, e com ela veio uma oportunidade inesperada. Dona Lúcia, vendo o talento de Maria com as crianças na livraria, sugeriu que ela começasse a contar histórias para os pequenos visitantes. Maria, sempre apaixonada por livros, aceitou o desafio, e logo, as sessões de contação de histórias se tornaram um evento querido na comunidade.
Luís adorava assistir sua mãe contar histórias, e as vezes, ele mesmo participava, inventando finais ou adicionando personagens. Este novo papel trouxe uma nova dimensão à vida de Maria, ajudando-a a ganhar um pouco mais de dinheiro e a se sentir ainda mais conectada com Luís e com a comunidade.
No entanto, a tranquilidade foi perturbada quando, um dia, enquanto Maria e Luís estavam na livraria, Gabriel apareceu. Ele havia mudado, seus cabelos estavam mais grisalhos, e havia uma expressão de incerteza em seu rosto. Dona Lúcia, que estava no balcão, reconheceu-o imediatamente, chamando Maria discretamente.
"Maria, tem alguém aqui para ver você", disse ela, com um olhar que misturava preocupação e curiosidade.
Maria sentiu seu coração acelerar, mas manteve a calma. "Luís, querido, por que não vai lá para o canto do conto e vê se tem algum livro novo para a gente?" Ela sabia que precisava desse momento para enfrentar Gabriel sozinha.
Gabriel estava nervoso, visivelmente desconfortável. "Maria, eu... eu ouvi sobre você e Luís. Eu não sabia que você ainda estava na cidade."
"Gabriel, o que você quer?" perguntou Maria, direta, mantendo uma distância emocional.
"Eu... eu quero conhecer meu filho. Eu sei que perdi muito, mas quero tentar reparar."
Maria sentiu uma mistura de emoções. Raiva pelo passado, medo pelo futuro de Luís e uma pontada de esperança. "Você não pode simplesmente aparecer e esperar que tudo seja perdoado. Luís tem uma vida boa, ele é feliz. Ele tem perguntas sobre você, mas a resposta não é simples."
"Eu entendo. Mas, por favor, me dê uma chance de conhecê-lo, de ser parte da vida dele, mesmo que seja só um pouco."
Maria refletiu, observando Gabriel. "Vou pensar. Mas saiba que isso será no ritmo de Luís, não no seu."
Gabriel assentiu, deixando seu número e prometendo não forçar nada, apenas esperar pela decisão de Maria.
Aquela noite foi longa para Maria. Ela conversou com Solange, Roberta e Lily, cada uma oferecendo sua perspectiva. Solange falava sobre a importância de Luís conhecer suas raízes, Roberta sobre a proteção e o cuidado, e Lily sobre a necessidade de Luís entender que o amor de um pai pode vir de muitas formas, não apenas biológicas.
Finalmente, Maria decidiu que Luís deveria ter a escolha. Na manhã seguinte, ela explicou a situação ao filho da melhor forma possível, deixando claro que ele não precisava decidir agora, mas que, se quisesse, poderia conhecer Gabriel.
Luís, com a sabedoria que só as crianças têm, disse: "Mamãe, quero conhecer ele. Mas só se você ficar comigo."
E assim, Maria começou a navegar por esse novo capítulo, um onde o passado voltava para se entrelaçar com o presente, trazendo desafios, mas também a possibilidade de cura e entendimento para todos os envolvidos.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 61
Comments