A decisão de Luís de conhecer Gabriel trouxe uma nova dinâmica à vida de Maria e seu filho. A primeira reunião foi marcada para ocorrer em um parque público, um espaço neutro onde ambos sentiriam menos pressão. Maria se preparou mentalmente, ensaiando respostas para as perguntas que sabia que viriam, não só de Luís, mas também de seus próprios sentimentos conflitantes.
Chegou o dia, e o sol brilhava forte, como se a natureza quisesse oferecer um cenário ideal para esse encontro tão carregado de emoções. Luís, com seu entusiasmo infantil, estava nervoso, mas também intrigado. Ele segurava a mão de Maria com força enquanto caminhava pelo parque, olhando em volta até que avistou Gabriel sentado num banco, visivelmente ansioso.
"É ele, mamãe?" perguntou Luís, os olhos arregalados.
"Sim, querido. Quer ir falar com ele?"
Luís assentiu, e juntos, mãe e filho se aproximaram. Gabriel levantou-se, um sorriso hesitante no rosto. "Oi, Luís", disse ele, sua voz baixa, como se estivesse testando a palavra na boca pela primeira vez.
"Oi", respondeu Luís, com um misto de curiosidade e timidez.
O encontro inicial foi desajeitado. Conversaram sobre coisas triviais - o que Luís gostava de fazer, seus brinquedos favoritos, a escola. Gabriel tentava mostrar interesse, mas era evidente que estava fora de prática na arte de ser pai. Maria observava, pronta para intervir se necessário, mas também dando espaço para que os dois começassem a construir algo novo.
Com o tempo, esses encontros tornaram-se mais frequentes, mas sempre sob a supervisão de Maria. Gabriel começou a trazer pequenos presentes, livros que Luís adorava, ou brinquedos educativos, tentando compensar os anos perdidos. Luís parecia gostar dos encontros, embora Maria percebesse que ele ainda estava tentando entender o papel desse novo homem em sua vida.
A comunidade ao redor de Maria também observava essa nova dinâmica. Solange, sempre protetora, estava preocupada com o impacto emocional sobre Luís e Maria. "Tem certeza de que isso é bom para ele?" perguntou ela durante uma das suas visitas.
"Estamos indo devagar. Luís precisa dessa oportunidade, e eu preciso vê-lo feliz", respondeu Maria, tentando convencer tanto Solange quanto a si mesma.
Roberta, com sua abordagem prática, ajudou Maria a estabelecer limites claros com Gabriel: encontros em locais públicos, sem mudanças abruptas na rotina de Luís, e tudo sempre com a supervisão de Maria. "Proteção primeiro, Maria. Ele pode ser o pai biológico, mas você é quem cria o ambiente seguro."
Lily, por outro lado, encorajava Maria a abrir-se para a possibilidade de perdão, não por Gabriel, mas pelo bem-estar emocional de Luís. "Crianças sentem quando há mágoa. Se Luís perceber que você está em paz com isso, ele também encontrará sua paz."
Os meses passaram, e a relação entre Luís e Gabriel começou a ganhar contornos mais definidos. Luís falava sobre ele com uma mistura de fascínio e reserva. Um dia, enquanto ajudava Maria a preparar o jantar, ele disse: "Mamãe, o Gabriel disse que me ama. Isso é verdade?"
Maria parou o que estava fazendo, olhando para o filho. "Ele quer amar você, Luís. Às vezes, as pessoas demoram a entender o que é amor, especialmente quando não estão preparadas. Mas o amor verdadeiro, o que importa, vem de quem está sempre ao seu lado, como eu, suas tias, e todos que te veem crescer."
Luís assentiu, pensativo, talvez entendendo que o amor pode ser complexo, mas o carinho de sua mãe era o ponto fixo no seu universo.
Um dia, Gabriel propôs um passeio ao zoológico, algo que Luís sempre quis fazer. Maria concordou, mas foi junto. O dia foi cheio de risadas, aprendizado e um vislumbre do que poderia ter sido. Luís, com sua energia infantil, corria de um animal para outro, enquanto Gabriel e Maria observavam, ambos com emoções conflitantes.
Foi durante esse passeio que Gabriel e Maria tiveram sua primeira conversa verdadeiramente aberta desde a gravidez de Maria. "Eu sei que errei, Maria. Errei muito. Mas quero estar aqui agora, do jeito que puder", disse Gabriel, olhando para Luís que estava fascinado com os leões.
"Ele está começando a confiar em você, Gabriel. Isso não é pouco. Mas você precisa entender que a confiança é algo que se constrói todos os dias, não se recupera de uma vez", respondeu Maria, sua voz firme, mas sem rancor.
Gabriel assentiu, prometendo fazer o melhor para merecer essa confiança.
Conforme o tempo passava, Maria percebeu mudanças em Luís. Ele parecia mais confiante, mais seguro da sua identidade, mesmo com a complexidade de sua história familiar. Ele começou a falar sobre Gabriel com mais naturalidade, e às vezes, até com orgulho.
No entanto, a vida não é linear, e os desafios continuaram. Houve momentos em que Gabriel faltava a encontros, reacendendo dúvidas em Luís e Maria. Mas, diferente do passado, Gabriel explicava suas ausências, e tentava compensar com mais tempo de qualidade.
Um dia, enquanto Maria observava Luís e Gabriel brincando no parque, ela percebeu algo surpreendente: ela estava começando a sentir uma paz interior sobre a situação. Não era perdão no sentido de esquecer, mas uma aceitação de que a vida de Luís estava se enriquecendo com esta nova presença, ainda que tardia.
A noite caiu, e Maria, sozinha em sua casa, refletiu sobre o dia. Ela pegou o último diário onde escrevia para Luís, e começou a escrever uma nova carta, uma sobre laços recém-tecidos, sobre o perdão não como uma absolvição, mas como uma ponte para novas memórias.
"Querido Luís, hoje você viu leões, mas também viu algo mais valioso: a possibilidade de um amor que, embora tenha tardado, não deixou de ser real. Nós estamos construindo algo novo, juntos, e eu estou aqui, sempre, para te guiar através desse mundo complexo e belo."
Ela fechou o diário, sentindo que, apesar de tudo, estavam caminhando na direção certa, juntos, como uma família reconstruída, não perfeita, mas verdadeiramente sua.
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Atualizado até capítulo 61
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