O luar derramava sua luz prateada sobre a trilha sinuosa que levava à Cidade Lunar. O brilho etéreo fazia com que tudo ao redor parecesse menos real, como se Kiran estivesse atravessando um sonho antigo, esquecido pelo tempo. O silêncio era quase absoluto, quebrado apenas pelo som dos passos sobre as pedras frias e pelo sopro do vento que serpenteava entre as árvores distorcidas.
A vegetação ao redor era estranha, diferente de qualquer floresta que Kiran já havia visto. As árvores tinham troncos retorcidos, suas cascas marcadas por sulcos profundos que lembravam veias ressequidas. As folhas, em vez de refletirem a luz, pareciam absorvê-la, tornando-se sombras vivas sob o céu estrelado. O ar carregava um aroma doce e denso, algo entre a baunilha e o ferro, um cheiro que parecia grudado à própria terra.
A cada passo, Kiran sentia um peso invisível se acumulando em seu peito. Não era cansaço, tampouco medo. Era algo mais sutil, mais profundo. Como se aquela terra estivesse se entranhando em seus ossos, tentando puxá-lo para dentro de sua história.
Foi então que, entre as sombras, a cidade surgiu de novo.
As muralhas erguiam-se contra o firmamento, feitas de pedras prateadas que cintilavam sob a luz da lua, como se fossem forjadas a partir da própria noite. Altas torres despontavam no horizonte, adornadas com arabescos intrincados e entalhes de símbolos que Kiran não reconhecia. Era uma cidade de beleza impressionante, mas uma beleza marcada pelo peso da história, como se cada parede e cada rua carregassem cicatrizes do que havia sido perdido.
Ele não conseguia desviar o olhar. Já havia visto aquele lugar durante sua fuga, mas agora, com mais tempo para observar, percebeu detalhes que antes lhe escaparam—e todos pareciam sussurrar um passado enterrado.
Munihr, por outro lado, mantinha a expressão serena, quase indiferente. Seus olhos dourados percorriam a cidade como se buscassem algo além do visível. Mas, por um breve instante, Kiran percebeu algo diferente em seu rosto—uma sombra de nostalgia, ou talvez saudade.
Ao atravessarem as portas maciças, um arrepio percorreu a espinha de Kiran. Não pelo frio, mas por algo mais profundo. Era como se houvesse cruzado um limiar invisível, um ponto sem retorno.
A cidade se abriu diante deles como um labirinto de ruelas estreitas, iluminadas por lamparinas negras penduradas em postes esguios. O chão era revestido por paralelepípedos gastos, suas superfícies polidas pelo tempo e pelo toque de incontáveis pés que já haviam passado por ali. O silêncio não era absoluto—havia sussurros no ar. Não de vozes, mas da própria cidade. Como se as pedras ainda se lembrassem dos passos que um dia ecoaram por suas ruas.
Havia um aroma peculiar pairando sobre o lugar, um perfume suave de flores noturnas, que se misturava ao frescor do vento e à umidade que parecia emanar das sombras.
E então, Kiran notou os habitantes.
Eles se moviam pelas ruas como fantasmas de um tempo que se recusava a ser esquecido. Esqueletos trajando vestes desbotadas caminhavam em silêncio, suas órbitas vazias refletindo a luz da lua. Almas errantes vagavam sem destino, seus corpos translúcidos envoltos em véus de névoa pálida, deixando um rastro luminescente em seu caminho. Havia sombras sem donos, deslizando pelos becos e esquinas como sussurros vivos, carregando consigo segredos que talvez jamais fossem revelados.
Mas, apesar da estranheza daquilo tudo, Kiran não sentia hostilidade. Apenas um silêncio observador, como se aqueles seres estivessem avaliando sua presença.
No coração da cidade, uma praça ampla se revelou, iluminada por globos de luz azulada que flutuavam no ar. No centro, uma fonte jorrava uma água cristalina que capturava e refletia o brilho do luar, espalhando um brilho espectral ao redor. Criaturas reuniam-se ali—algumas conversavam em tons baixos, outras apenas observavam, seus olhos brilhando na escuridão como vaga-lumes em uma noite sem lua.
Kiran sentiu-se deslocado.
Mesmo cercado por aquela multidão silenciosa, a sensação de isolamento era esmagadora. O frio penetrava sua pele, alcançando seus ossos, como se aquele lugar o estivesse testando. Ele olhou para suas próprias mãos e notou como tremiam—mas não sabia dizer se era pelo frio ou pela inquietação que o devorava por dentro.
Munihr parou de repente e virou-se para ele.
— Algum problema?
— Não.
A resposta saiu sem convicção, e Munihr percebeu.
— Está tudo bem.
E voltou a caminhar.
Kiran permaneceu parado por alguns segundos, respirando fundo. Algo naquele lugar o envolvia de forma sutil, quase hipnótica. A cidade parecia pulsar ao seu redor, como se fosse um organismo vivo que o aceitava—ou testava.
Enquanto avançavam pela praça, Kiran não pôde ignorar a sensação incômoda de estar sendo observado. Seu instinto de guardião gritava em alerta. Cada passo que dava parecia ressoar alto demais, e ele tinha a impressão de que dezenas de pares de olhos estavam fixos nele.
— Por que ninguém aqui me atacou ainda? — Ele parou, vasculhando os arredores com o olhar. — Todos parecem prontos para isso.
Munihr, que já seguia à frente, olhou por cima do ombro, um sorriso preguiçoso brincando em seus lábios.
— Porque você está comigo.
A resposta veio simples, carregada de uma confiança irritante.
Kiran estreitou os olhos.
— O que é você, afinal? Algum tipo de divindade?
Munihr soltou uma risada baixa, como se a pergunta fosse ridícula. Mas não respondeu. Apenas continuou andando.
Kiran cerrou o maxilar, observando-o com desconfiança.
Nada naquele lugar fazia sentido. Cada rua, cada rosto, cada som parecia uma ilusão. Um teatro meticulosamente elaborado para enganar os sentidos.
Ele apertou os punhos.
— Não existem conexões com Solaria. — murmurou, mais para si mesmo do que para Munihr. — Como eu vou sair desse berço de aberrações?
— Acharemos um jeito.
— Você ouviu isso?
O lunar riu de leve.
— Não é minha audição. Você é quem fala alto demais.
Kiran estreitou os olhos, pronto para retrucar, mas Munihr ergueu a mão em um gesto despreocupado.
— De algum modo, você irá embora. Ninguém aqui o quer, afinal. Nem mesmo eu. Mas, por enquanto, sou obrigado a aturá-lo.
Ele sorriu.
— Mas, por ora, esqueça seus problemas e aproveite o momento.
Kiran olhou ao redor.
— Aproveitar? Como alguém espera que eu aproveite uma situação como esta?
E Kiran sentiu, mais do que nunca, que estava andando sobre uma linha tênue entre o real e o esquecido.
A última coisa que Kiran queria era relaxar, mas a energia quase hipnótica daquele lugar parecia tentar envolvê-lo, o que o deixava ainda mais desconfortável. Enquanto seguiam pelas ruelas da Cidade Lunar, o solariano não podia deixar de se perguntar se sairia dali inteiro – ou se, como aquelas almas errantes, acabaria se tornando mais um fragmento de esquecimento naquele reino estranho.
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Atualizado até capítulo 9
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