Capítulo 4

O silêncio ao redor era pesado, denso como a escuridão que se arrastava pelas ruínas. Kiran manteve os olhos fechados por um instante a mais, tentando encontrar algum resquício de controle sobre o próprio corpo. Mas o tremor continuava. A dormência em seus dedos se espalhava devagar, subindo pelos braços como uma doença invisível.

Ele forçou uma respiração profunda, sentindo o ar frio cortar sua garganta. Cada batida do coração ressoava dolorosamente dentro de seu peito, acelerada, descompassada. O medo rastejava por sua mente como uma sombra persistente, mas ele se recusava a ceder a ele.

Apoiou-se na soleira de uma porta, usando o pouco de força que ainda restava para erguer a cabeça. As sombras ao redor pareciam se mover com uma vontade própria, ondulando pelas pedras quebradas, dançando à margem de sua visão. Podia ser apenas o jogo de luz do crepúsculo…ou algo mais.

Kiran apertou os olhos, tentando afastar o torpor que ameaçava dominá-lo. A última coisa que podia se dar ao luxo naquele momento era perder os sentidos.

Se perdesse… talvez não acordasse.

O pensamento o fez se forçar a se mover. Com um gemido rouco, puxou um dos joelhos para perto do peito e pressionou as mãos contra ele, tentando gerar calor, tentando sentir qualquer coisa além do frio estranho que se infiltrava em sua pele. Mas não funcionou.

O tempo estava se esgotando. E Kiran sabia que, se não agisse logo, aquela noite poderia ser sua última.

O silêncio da cidade morta foi rasgado pelo som de passos que foram ouvidos próximos.

Kiran congelou. O frio em seus ossos foi ofuscado por uma onda repentina de adrenalina. Alguém ou algo se aproximava.

Seu coração disparou. A respiração, já irregular, tornou-se um ofego trêmulo. Ele se lançou para frente, forçando as pernas dormentes a obedecerem. Seu corpo protestou com um espasmo doloroso, mas ele ignorou. Saiu do esconderijo em um tropeço, os sentidos aguçados pelo desespero.

A cidade mergulhava nas sombras, e a noite parecia viva ao seu redor. Cada rua deserta, cada viela esquecida, ocultava presenças invisíveis. Algo estava observando.

Os passos atrás dele se multiplicaram. Não havia dúvida. Não era sua imaginação.

Kiran apertou o passo, seu corpo movendo-se no limite do que suportava. Seu peito queimava com o esforço, e o ar entrava e saía em arfadas sufocantes. A cada esquina, sentia a escuridão avançar, encurtando a distância entre caçador e presa. O som de seus próprios passos ecoava pelas ruínas, misturando-se aos sussurros que pareciam vir das paredes. Murmúrios sem dono. Vozes de uma cidade esquecida.

Então, ele o viu.

O castelo.

Elevava-se à frente como um gigante adormecido, sua silhueta recortada contra o céu escuro. As torres se erguiam como garras de pedra, e os portões estavam escancarados, um convite sombrio ou uma armadilha inevitável.

Kiran sabia que recorrer ao inimigo nunca era uma boa escolha. Mas qual outra lhe restava?

Seus passos vacilaram. O torpor agora consumia não apenas seus dedos, mas seus braços, suas pernas. Seu próprio corpo se tornava um fardo. A cada metro percorrido, os músculos pesavam mais, e sua visão se desfazia nas bordas, como tinta dissolvendo-se em água.

Ele atravessou os portões. Cambaleou pelo pátio silencioso, o eco de seus passos sendo a única prova de sua existência. A grandiosidade do castelo passou despercebida; tudo que importava era continuar movendo-se.

Mas as forças já o haviam abandonado. O chão de pedra se ergueu para encontrá-lo. A queda foi inevitável. Seu rosto tocou a superfície fria, e, por um instante, foi um alívio. O frio da pedra era um convite silencioso, um chamado para descansar, para se entregar. Mas o frio não parou ali.

Rastejou por sua pele, infiltrou-se em seus ossos, espremendo sua vitalidade como se quisesse arrancá-la de dentro para fora. Seu peito subia e descia em movimentos curtos, rasos. Seus pulmões pareciam pequenos demais.

Ele tentou se mover. Tentou erguer a cabeça. Mas seu corpo já não lhe pertencia.

Por anos, lutara sem hesitar. Protegendo Solaria, defendendo seu povo. Cada cicatriz contava uma história de vitória. Mas ali… ali não haveria resgate. Não haveria aliados. Ninguém o encontraria.

Um riso rouco escapou de seus lábios secos. Sonhara tantas vezes com uma morte honrada, uma queda em batalha, armas em punho, rodeado por inimigos vencidos e aliados lembrando seu nome. Mas não era assim que sua história terminaria. Não como um guerreiro. Apenas como um homem derrotado. E Sozinho. Esquecido.

Com um esforço que lhe custou o pouco de energia que ainda restava, Kiran reuniu cada resquício de força e se forçou a se mover. Um gemido rouco escapou de seus lábios, com dificuldade, ele rolou de lado. O mundo girou ao seu redor, e por um instante, tudo que sentiu foi um turbilhão de dor e cansaço esmagador. Suas costas encontraram a superfície dura do chão, e o impacto fez seu peito arfar em um suspiro trêmulo. Seu corpo protestava, os músculos rígidos, pesados como chumbo. Talvez não conseguisse mais se mover. Talvez esse fosse o fim.

Acima dele, o céu se desenrolava como um oceano sem fim, uma vastidão de escuridão pontilhada de estrelas. Mas não eram as estrelas que ele conhecia. Não havia sinal das constelações familiares de Solaria, nenhum traço do brilho quente que guiara seus passos por toda a vida. Em seu lugar, astros desconhecidos pairavam à distância, frios, indiferentes. Era como olhar para um mundo que nunca o havia visto antes.

A noite sempre fora sua inimiga. Um lembrete cruel de que ele era um filho da luz, um guerreiro forjado pelo sol. Mas agora, enquanto sua vida se esvaía lentamente, aquela imensidão escura parecia menos um campo de batalha e mais um leito de despedida. Um túmulo aberto.

Se morresse ali, ninguém saberia. Nenhum trovão anunciaria sua queda. Nenhum companheiro ergueria uma prece por seu nome. Apenas a poeira da cidade esquecida envolveria seu corpo, até mesmo o tempo se recusasse a lembrar que um dia ele existiu.

Seus olhos pesavam. Um cansaço profundo arrastava sua consciência para a escuridão, e por um momento, ele quase cedeu. Mas não ainda. Não sem olhar uma última vez para aquilo que jamais voltaria a contemplar.

Com um tremor violento nos dedos, Kiran levou a mão ao peito. O simples ato de erguer o braço pareceu um desafio impossível. Seu corpo já não lhe pertencia, como se estivesse afundando em algo espesso e gelado. Cada movimento era lento, arrastado, e por um instante, ele sentiu medo.

Seus dedos tocaram o metal frio de sua insígnia. O símbolo de sua jornada. A prova de que, um dia, foi um guardião.

O metal parecia gélido contra sua pele. Uma sensação cortante, impiedosa. Mas, no fundo, Kiran sentiu algo mais. Um calor quase imperceptível, fraco, mas presente.

Engolindo a dor que queimava sua garganta, ele segurou o emblema com força. Seus dedos se fecharam ao redor da insígnia, apertando-a como se pudesse absorver sua essência, como se aquele pequeno pedaço de sua história fosse capaz de lhe devolver forças.

Mas não havia forças para recuperar. Seus sentidos começavam a falhar. O frio rastejava por sua pele, infiltrava-se em seus ossos, e cada batida de seu coração tornava-se mais lenta, mais fraca. O mundo ao seu redor começou a se dissolver. E Kiran, pela primeira vez, sentiu que talvez fosse desaparecer junto com ele.

O silêncio do castelo foi rompido.

Passos.

Profundos, retumbantes, como o eco de um trovão distante. O som reverberou pelas pedras frias, deslizando pelas paredes desgastadas, preenchendo cada fresta e cada sombra. Eles vinham em sua direção.

O instinto de Kiran gritou. Sua mente quis reagir, quis ordenar a seu corpo que se erguesse, que corresse. Mas ele não conseguiu. Estava à mercê do frio que o consumia, preso na própria carne, os membros tão pesados que pareciam feitos de pedra. Ainda assim, reuniu o que restava de sua força e entreabriu os olhos.

Sua visão oscilou. O mundo tremulava à sua frente como um reflexo distorcido sobre a água, os contornos se dissolvendo e se reconstruindo em um ritmo irregular. Mas, mesmo através da névoa que tomava sua mente, Kiran viu uma silhueta. Alta. Esbelta. Imóvel. Ela estava ali, parada a poucos metros dele, envolta em sombras. E, de alguma forma, parecia pertencer àquele lugar. Como se sempre tivesse estado ali, oculta na escuridão, aguardando o momento certo para se revelar.

— É irônico que nós, amaldiçoados a caminhar sob a luz, sintamos pena dos que foram condenados a vagar na escuridão.

Aquelas palavras não eram uma saudação. Eram uma constatação.

Kiran quis responder. Quis exigir respostas, lutar contra a presença esmagadora daquele estranho. Mas seus lábios apenas se entreabriram em um gesto falho. Nada saiu. Sua garganta estava seca como pedra, a língua presa, os pulmões queimando como brasas agonizantes.

O cansaço o puxava, arrastando-o para um abismo sem fundo.

O estranho se adiantou em sua direção. O capuz escuro ocultava parte de seu rosto. O silêncio se estendeu. Depois, com uma calma que soava quase cruel, o homem inclinou levemente a cabeça.

— Deveria ter sido mais cuidadoso.

A voz não carregava desprezo, mas também não havia compaixão. Era como se apenas estivesse constatando um fato inevitável.

— Melhor do que ninguém, você deveria saber que um solariano sem o sol... não passa de uma existência vazia. Sem propósito.

Kiran, no entanto, já não o ouvia mais.

Sua mente estava distante, navegando em um nevoeiro denso, onde passado e presente se confundiam. Por um instante, ele viu as ruas de Solaria. Banhadas pela luz dourada do astro rei. O calor familiar envolvendo sua pele, risadas ecoando ao vento. Vultos conhecidos. O tilintar de armas em treinamento. A brisa carregando o cheiro das forjas e da areia do deserto.

Lar.

Mas então, o sol apagou-se. O mundo se dissolveu, como fumaça sendo soprada pelo vento. E a escuridão o puxou de volta. A realidade retornou em um golpe frio.

O desconhecido ergueu uma mão esguia, estendendo-a na direção de Kiran. Seu gesto era paciente, quase convidativo. Mas havia algo inquietante naquela oferta.

Kiran não pensou.

Seu corpo agiu sozinho, movido por um instinto primal de sobrevivência. Com um último fragmento de força, ele ergueu a mão trêmula e aceitou. Seus dedos encontraram a pele do estranho. Gélida. Era como tocar o nada. Mas Kiran não se importava. Sentir algo, qualquer coisa, era um alívio.

O desconhecido permaneceu em silêncio por um tempo, observando a reação do guerreiro moribundo. Então, pela primeira vez um sorriso curvou seus lábios.

— A morte seria um fim misericordioso para um solariano como você.

Ele falou como se considerasse a ideia, testando o peso das palavras. Então, inclinou-se ligeiramente.

— Mas não aqui. Não agora.

Os dedos de Kiran apertaram com mais força a mão fria.

Seus sentidos vacilaram. Sua consciência foi engolida pelo negrume crescente. O peso do mundo desapareceu, e, por um momento, ele não sentiu nada.

E então, pela última vez, ouviu a voz.

— Portanto, concedo-lhe algo que poucos do seu tipo merecem...

O silêncio se prolongou.

O desconhecido inclinou-se sobre ele, como se buscasse algo na expressão adormecida do guerreiro.

Então, num tom quase indulgente, como um rei concedendo clemência, ele sussurrou:

— Eu quero que você viva.

As palavras foram a última coisa que Kiran ouviu antes de ser tragado pelo oceano de sombras. Sua consciência.Sua alma. Seu destino. Agora pertenciam àquele lugar. E àquele desconhecido.

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