A raiva queimava dentro de Kiran, intensa como um incêndio alimentado pelo vento. Seu corpo ainda estava exausto, os músculos duros e pesados depois de tudo o que passara, mas a dor era o menor de seus problemas. O orgulho ferido o mantinha desperto, recusando-se a deixá-lo descansar.
Ficar ali, sob o teto de um lunar, aceitando sua hospitalidade como se fosse um convidado, era uma humilhação que ele não podia suportar. Cada fibra de seu ser gritava para que se levantasse, para que saísse dali imediatamente. Mas seu corpo, traidor, se recusava a obedecer.
Isso só o enfurecia ainda mais.
Com um esforço determinado, Kiran se ergueu da cama. As pernas vacilaram sob seu peso, mas ele as forçou a sustentá-lo. O calor da lareira tremulava no canto do quarto, espalhando sombras trêmulas pelas paredes de pedra. Mas ele não se importou. Seu olhar procurou seus pertences, e ele os encontrou ao lado da cama, dispostos com cuidado. Como se alguém tivesse feito questão de deixá-los ao seu alcance.
Calçou as botas depressa, ignorando as pontadas afiadas que percorriam suas costas. Cada movimento exigia mais do que gostaria de admitir, mas ele não hesitou. Respirou fundo e foi até a porta. Quando a abriu, deu de cara com um corredor longo e silencioso, iluminado por tochas espaçadas irregularmente.
O lugar tinha um ar antigo, como se estivesse esquecido pelo tempo. O teto arqueado possuía aberturas estreitas, por onde finos feixes de luar cortavam a escuridão. Tapeçarias desbotadas pendiam das paredes, suas imagens tão gastas que mal podiam ser reconhecidas. No entanto, muitas delas estavam parcialmente destruídas, queimadas em suas bordas ou rasgadas como se mãos furiosas tivessem tentado apagar a história que contavam.
Kiran avançou com passos firmes, mas atentos. O som de suas botas ecoava pelo corredor, o único ruído naquele silêncio espesso, como se o próprio castelo o observasse. Portas de madeira grossa ladeavam o caminho, algumas entreabertas, revelando interiores vazios e escuros. Nenhum guarda. Nenhum servo. Apenas ele e aquela quietude sufocante.
Ao virar uma curva do corredor, um brilho discreto capturou a atenção de Kiran. Ele franziu a testa e diminuiu o passo. Movendo-se com cautela, ele avançou até a porta entreaberta e espiou para dentro.
Era uma biblioteca. Mas não uma qualquer.
As estantes se erguiam como colossos de madeira escura, cobertas de livros antigos, muitos tão gastos pelo tempo que seus títulos eram apenas sombras de tinta desbotada. Outros, no entanto, traziam inscrições em línguas estranhas, símbolos que brilhavam fracamente sob a luz difusa. Algumas prateleiras estavam desmoronadas, enquanto outras permaneciam intocadas, como se o próprio ambiente escolhesse o que preservar.
A iluminação era peculiar. Não vinha apenas das tochas presas às colunas de pedra, cujas chamas tremulavam suavemente, mas também de uma claraboia no alto da abóbada. O luar atravessava o vidro translúcido, derramando-se sobre o salão como um véu prateado, tingindo tudo com um brilho etéreo. O ar tinha cheiro de papel envelhecido, madeira antiga e um toque metálico, quase elétrico.
No centro da sala, um objeto flutuava no ar.
Kiran deu um passo adiante, os olhos fixos no espetáculo diante dele. Era uma maquete de um sistema solar, pairando sem qualquer suporte aparente. Os planetas giravam devagar, cada um emanando um brilho próprio enquanto seguiam seu curso silencioso. Pequenos anéis luminosos os cercavam, oscilando como marés invisíveis. A estrutura que os sustentava era fina e quase imperceptível, como se a própria magia os mantivesse suspensos.
Mas não era só isso.
Ao redor da biblioteca, outros detalhes chamavam sua atenção. Quadros antigos, alguns rasgados pelo tempo, pendiam das paredes, retratando figuras que pareciam observá-lo em silêncio. Havia vasos de cerâmica pintados com cenas de batalhas e constelações, colocados sobre pedestais gastos. Armaduras vazias repousavam em cantos sombrios, como sentinelas esquecidas, sem cavaleiros para guiá-las.
Tudo ali parecia vivo, e ao mesmo tempo... adormecido.
Kiran percebeu, então, que não estava só.
Sentado a uma grande mesa de madeira escura, cercado por pergaminhos e livros abertos, Munihir estudava algo com atenção, os olhos dourados fixos nas páginas envelhecidas diante dele. Ele parecia alheio à presença do guardião, tão imerso em sua leitura que, por um momento, Kiran acreditou que poderia simplesmente sair sem ser notado.
Mas foi apenas uma ilusão.
Poucos segundos depois, Munihir ergueu o olhar, encontrando os olhos de Kiran com um brilho de diversão silenciosa. Um sorriso sutil curvou seus lábios.
— Vejo que não conseguiu manter-se longe por muito tempo, guardião. — Sua voz soou preguiçosa, quase arrastada, enquanto apoiava o queixo sobre as mãos entrelaçadas. — O que foi? Por acaso ficou com medo do escuro?
Kiran estreitou os olhos. Sua primeira reação foi a irritação, mas forçou-se a ignorá-la. Munihir queria provocá-lo, e ele se recusava a cair no jogo de um lunar. Em vez de responder, avançou alguns passos pela biblioteca, deixando seu olhar vagar pelo ambiente mais uma vez.
— Agradeço pelos cuidados — disse, a voz firme, mas controlada. — Mas não pretendo ficar aqui. Preciso partir.
Munihir inclinou a cabeça, como se ponderasse suas palavras. Então, afastou os pergaminhos com um gesto casual e se levantou.
— Entendo sua pressa. Mas não creio que seja a melhor hora para sair.
— Por que quer me manter preso aqui?
— Longe disso. Se dependesse de mim, você já teria ido há muito tempo.
A paciência de Kiran se esgotava rapidamente.
— Chega de rodeios, lunar! — Sua voz saiu afiada como lâmina, e sua mão deslizou até a pistola presa à cintura. — Diga-me onde fica a saída, ou encontrarei sozinho.
Munihir soltou um suspiro leve, como quem se vê forçado a lidar com uma criança teimosa.
— Meu nome é Munihir — corrigiu, um toque de reprovação em sua voz. — E se deseja partir assim tão cedo, devo alertá-lo que isso seria um erro.
— Não cabe a você decidir isso.
— Não cabe a mim. Mas cabe à noite.
Munihir avançou um passo, encurtando a distância entre eles.
— Você está no meu território, guardião. Aqui, a luz do seu deus não o alcança. Aqui, é a noite que governa. E sem ela, você não passará de um brinquedo para as sombras que espreitam lá fora.
Kiran manteve-se firme, endireitando os ombros. O calor da raiva cresceu dentro dele, mas ele não recuou.
— Não será você quem irá me impedir.
— Solariano até os ossos… — murmurou, como se falasse consigo mesmo. — Sempre acham que o mundo gira ao redor de vocês. Sempre tão previsíveis.
Ele então ergueu a mão e apontou para a porta aberta do outro lado da biblioteca.
— Pois bem, faça o que quiser. A saída está ali. Vá.
Kiran permaneceu imóvel. Algo na voz do lunar carregava um desafio oculto.
— Não há correntes nem trancas que o impeçam de partir. Apenas sua própria capacidade… ou a falta dela.
— Se for necessário, reviro este castelo até encontrar meu caminho.
O sorriso de Munihir se alargou, seus olhos brilhando com uma diversão perigosa.
— Então vá. Estarei esperando.
E, sem acrescentar mais nada, ele voltou a se sentar, puxando de volta um dos pergaminhos como se a conversa já não fosse digna de sua atenção.
Kiran rangeu os dentes, mas se recusou a dar o gostinho de uma resposta. Sem desviar o olhar de Munihir, começou a recuar em direção à porta, seus passos cuidadosos, calculados. Mantinha-se sempre de frente para o lunar, pronto para reagir a qualquer movimento suspeito. Não confiava nele. Não confiava no castelo. E, acima de tudo, não confiava na estranha sensação de que o próprio ambiente estava atento a cada um de seus passos.
Somente quando alcançou a porta permitiu-se olhar rapidamente para o corredor além. O luar infiltrava-se por janelas altas e estreitas, projetando sombras longas e escuras pelo caminho. Inspirou fundo e cruzou o limiar, deixando a biblioteca para trás. Mas a sensação de estar sendo observado não desapareceu.
O silêncio do castelo era opressor. Não apenas uma ausência de som, mas um tipo de vazio vivo, denso, como se as próprias paredes segurassem o fôlego, aguardando. Kiran esperava encontrar outros lunares, algum indício de que aquele lugar não estava... morto. Mas desde que despertara ali, não ouvira nenhuma voz além da de Munihir. Nenhuma porta se abrira. Nenhuma presença se manifestara. Apenas o eco distante de seus próprios passos e a batida firme de seu coração.
Seus olhos percorreram os detalhes ao redor. Tapeçarias desbotadas pendiam das paredes de pedra, algumas tão velhas que a trama já não revelava a imagem original. Lustres pesados permaneciam apagados, como se o castelo rejeitasse a luz que não viesse do luar. O ar era frio, mas não como a brisa da noite, era um frio parado.
Seguiu adiante, cada passo marcado pelo ranger discreto do couro de suas botas. Então, à sua frente, o corredor se dividia, e duas portas imensas erguiam-se como sentinelas silenciosas. Havia algo nelas. Algo que fazia parecer que o estavam esperando.
Por um instante, hesitou. Mas a necessidade de entender onde estava, de encontrar uma saída daquele lugar, foi mais forte. Avançou e empurrou a porta.
As dobradiças rangiram, um som longo e arranhado que se espalhou pelo salão além.
Era um salão vasto, imponente, tão silencioso que parecia conter a própria respiração. O teto arqueava-se alto, sustentado por colunas colossais de pedra negra, e pelas janelas partidas o luar entrava em feixes fragmentados, refletindo-se nos cacos de vidro que jaziam pelo chão.
Mas não havia chão.
Uma fina camada de água cobria todo o espaço, imóvel como um espelho perfeito. O reflexo das colunas e das janelas quebradas criava a ilusão de um mundo espelhado abaixo, como se Kiran estivesse suspenso entre dois reinos, um acima, outro abaixo. Cada passo que dava fazia a água ondular suavemente, distorcendo por um instante a imagem daquela outra realidade.
E no centro do salão, ergueu-se um trono.
Negro como a noite sem estrelas, solitário sobre uma plataforma de pedra que emergia da água. As marcas do tempo eram visíveis rachaduras profundas riscavam sua superfície, cicatrizes de um passado distante. Mas sua presença era inegável. Era um símbolo, um vestígio de algo que não deveria mais existir.
O coração de Kiran martelou contra o peito.
Ele avançou, hesitante, cada passo amplificando o som sutil da água se movendo sob suas botas. A energia ali era diferente. Podia sentir a raiva. O luto. A persistência de passado que se recusava a se calar. Como se o próprio salão estivesse impregnado de emoções que jamais foram dissipadas.
Algo estava errado. Algo que ele não conseguia explicar. E, ainda assim, ele sabia. Aquilo não o deixaria sair tão facilmente.
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Atualizado até capítulo 9
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