A cidade parecia sussurrar histórias esquecidas. O som dos passos de Kiran ecoava pelas ruas desertas, um ruído solitário que contrastava com o silêncio opressivo ao seu redor. O chão era feito de pedras salientes, gastas pelo tempo, e cada uma rangia sob o peso de suas botas.
As construções ao redor eram sombras do passado, cascas vazias de uma era há muito enterrada. Casarões desmoronados espreitavam-no com janelas escuras, como órbitas vazias de crânios antigos. Algumas portas, já sem vida, pendiam de dobradiças enferrujadas, balançando ao menor sopro do vento. Mas não havia vento. O ar era denso, parado. Não havia sinais de vida. Nenhuma pegada na poeira. Nenhum vestígio de que alguém tivesse passado por ali em muito tempo.
Kiran apertou o passo, seus sentidos aguçados para qualquer movimento. Cada sombra parecia esconder algo à espreita, e seu instinto gritava para que não baixasse a guarda.
O caminho o levou até uma praça circular. No centro, um chafariz de mármore negro jorrava água límpida, um detalhe vivo em meio à decadência. A superfície do líquido ondulava suavemente, refletindo um céu pesado e sem cor.
Kiran se aproximou, espiando o próprio reflexo distorcido no espelho prateado da fonte. Seu rosto parecia mais cansado do que se lembrava, a poeira da batalha ainda impregnada em sua pele. Seus olhos estavam mais fundos, mais sombrios.
Então, algo chamou sua atenção. Além das construções destruídas, erguia-se um castelo. Imponente. Solitário.
Suas torres perfuravam o céu como lanças erguidas contra os deuses. Suas muralhas de pedra resistiam ao tempo, cobertas por trepadeiras que escalavam suas superfícies como serpentes adormecidas. As incontáveis janelas pareciam observar Kiran de volta, escuras e vazias, como olhos sem alma.
O sol afundava no horizonte, lançando sombras longas e traiçoeiras sobre as ruas. Um arrepio percorreu sua espinha. Ele estava sozinho em um território desconhecido, sem pistas de como retornar a Solaria. E a noite estava chegando. Aquilo certamente seria um grande problema.
O coração de Kiran batia descompassado quando ouviu, incerto se era real, o som de vozes distantes. Baixas. Murmúrios entrelaçados com o vento inexistente.
Kiran se virou, os sentidos em alerta.
No início, pensou que fosse um truque da mente. Mas então as sombras começaram a se mover.
Nos becos, nas esquinas das ruas, nos vãos das portas abandonadas… as trevas ganharam forma. Figuras humanoides se erguiam do chão, seus corpos primeiro indefinidos, como neblina sólida. Mas conforme a noite caía sobre a cidade, suas formas se tornavam mais nítidas. Eram seres de todo tipo. Alguns vagamente humanos, outros deformados além da compreensão. Alguns deslizavam sobre o chão, seus pés nunca tocando a pedra. Outros cambaleavam, corpos retorcidos e membros alongados, movendo-se como marionetes cujas cordas haviam sido cortadas.
E todos murmuravam.
Sussurros em línguas esquecidas, palavras que não deveriam ser pronunciadas. O som se misturava no ar, formando um coral dissonante que fazia os pelos da nuca de Kiran se arrepiarem.
Ele recuou um passo, a mão instintivamente pousando sobre o cabo da pistola.
Mas os espectros não pareciam notá-lo.
Eles se reuniam na praça, deslizando até o centro da praça como se estivessem presos a uma dança ritualística. O que antes era apenas um cenário morto agora pulsava com uma energia estranha, algo entre o real e o delírio.
Mais e mais figuras emergiam. Seres translúcidos, almas penadas envoltas em um halo cinzento, flutuavam pelas vielas. Algumas ainda tinham rostos humanos, recém-arrancados da mortalidade. Outras eram apenas fragmentos de ossos e carne apodrecida, levados pelo vento da noite. Havia também aqueles que não eram nem homens, nem feras. Criaturas híbridas, amaldiçoadas, cujos olhos ardiam como brasas no vazio crescente da cidade.
Kiran sentiu o pânico crescer em seu peito. Ele não deveria estar ali.
A multidão se fechava ao redor dele, empurrando-o sem que percebesse. Ele tentou se mover, mas foi arrastado. E então, colidiu com algo sólido. Ele se virou e congelou por um instante.
Diante dele, um esqueleto colossal se erguia. Os ossos eram negros como carvão, desgastados pelo tempo. O crânio imenso se curvou para observá-lo, e, quando Kiran encontrou suas órbitas vazias, dois brilhos avermelhados se acenderam, como brasas recém-alimentadas.
— Olha por onde anda, miserável! — a criatura rosnou, seus ossos rangendo como correntes enferrujadas.
Kiran não conseguiu responder.
O gigante se inclinou mais perto, estreitando os olhos brilhantes. Um lampejo de surpresa substituiu a raiva inicial.
— Espere um momento…Quem é você?
Kiran sentiu o coração disparar.
Aos poucos, o murmúrio da multidão cessava. Criaturas de todas as formas e tamanhos voltavam seus rostos disformes para ele, olhos vazios cheios de uma atenção perigosa.
Então, uma voz rompeu o silêncio:
— Ele é um solariano!
O efeito foi instantâneo.
Um rugido selvagem explodiu da horda, um som de ódio, de fúria. As sombras avançaram, cerrando-se ao seu redor como um mar revolto. Kiran não esperou para ver o que aconteceria.
Sacou a pistola e disparou para o alto. O estrondo ecoou pela praça, fazendo os espectros hesitarem por um breve segundo. Mas não por muito tempo. A horda investiu. Kiran girou nos calcanhares e correu. Atrás de si, o som da perseguição crescia. Gritos bestiais, o farfalhar de asas e o arrastar de corpos se misturavam em um coro de pesadelos.
Seu coração martelava. Seus pulmões queimavam. Mas ele não podia parar.
A cidade era um labirinto, um emaranhado de becos sem saída e edifícios tombados. Kiran não tinha tempo para planejar uma rota. Apenas corria, desviando-se de sombras que se esticavam para agarrá-lo. A cada esquina, sentia que a perseguição se tornava mais feroz. E sabia que, se parasse, seria o fim.
...***...
O lago cintilava sob o abraço morno do crepúsculo. As águas, serenas como um espelho, refletiam os últimos raios dourados do sol poente, mesclando-se ao azul profundo que anunciava a chegada da noite. Uma leve brisa serpenteava sobre a superfície, fazendo as ondas suspirarem suavemente contra a margem. O ar era fresco, carregado com o cheiro terroso das árvores próximas e o perfume úmido da vegetação aquática.
Entre os juncos, Munihr observava o lago em silêncio. Seus olhos vagavam pelo reflexo distorcido do céu, mas sua mente estava distante, perdida em pensamentos que iam e vinham como as ondulações na água. Havia algo de reconfortante naquela quietude, uma paz rara, intocada pelas preocupações do mundo.
Então, a tranquilidade se rompeu. Uma vibração sutil percorreu a água, um distúrbio invisível que quebrou a harmonia perfeita do lago. Munihr sentiu o impacto antes mesmo de vê-lo, como um presságio murmurando em seus ossos. Seu olhar afiado endureceu. Algo estava errado.
Antes que pudesse decifrar o que era, um movimento entre as árvores anunciou a chegada de alguém. Folhas secas se agitaram, e passos calculados pisaram sobre o solo macio. Um dos servos emergiu da vegetação, movendo-se com cautela, como se temesse interromper a contemplação de seu senhor.
Mas a tensão em seu semblante já entregava a gravidade da mensagem que trazia.
— Senhor…Um intruso está causando tumulto na cidade.
Munihr virou-se lentamente.
— Um intruso?
— Um solariano.
O nome caiu como uma pedra na água, enviando ondas invisíveis através da mente de Munihr.
— Os habitantes o descobriram… — continuou o servo, hesitante. — E querem matá-lo.
Um silêncio pairou entre eles.
Munihr ergueu uma sobrancelha, intrigado.
— Um solariano? Faz muito tempo desde que um dos seus veio parar aqui…
Se um solariano cruzara o limite entre os mundos, havia algo maior em jogo. O equilíbrio estava mudando, forças estavam em movimento. E agora, uma cidade inteira clamava por sangue.
Munihr permaneceu quieto por um momento, absorvendo a notícia. A noite se adensava ao seu redor, e o tempo para agir diminuía. Por fim, ele tomou sua decisão.
— Eu mesmo irei recebê-lo.
O servo hesitou.
— Tem certeza, senhor? Ele pode ser perigoso.
Munihir sorriu.
— Perigoso sou eu, meu amigo. E creio que nosso visitante terá pouco tempo para se preocupar comigo…
Com isso, ele se ergueu sem pressa, deu as costas para o lago, caminhando para longe da tranquilidade daquele refúgio. A noite já caíra. E com ela, o destino de Kiran estava selado.
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Atualizado até capítulo 9
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