Capítulo 8

Kiran estava encostado contra a parede, os braços cruzados sobre o peito, a cabeça ligeiramente inclinada para frente. O peso do cansaço se agarrava a ele como uma corrente enferrujada, puxando seus músculos para baixo, cobrando o preço de cada batalha, de cada momento de tensão acumulado. Ele não sabia quanto tempo havia passado desde que Munihr voltara à sua rotina silenciosa, mas a espera parecia se arrastar como um noite sem fim.

Fechou os olhos por um instante, tentando organizar os pensamentos. Sua respiração era profunda, porém controlada. Mesmo assim, o torpor em seus membros deixava claro que ainda não estava totalmente recuperado.

Então, o som de uma cadeira sendo arrastada pelo chão quebrou o silêncio.

Kiran ergueu o olhar a tempo de ver Munihr se levantando da mesa, espreguiçando-se com uma lentidão deliberada. O lunar entrelaçou os dedos, ergueu os braços e estalou as articulações, soltando um suspiro quase preguiçoso.

O olhar do solariano deslizou por ele de maneira instintiva, analisando cada movimento como um guerreiro observa um inimigo prestes a atacar. No entanto, logo desviou o olhar, assumindo uma expressão impassível, como se nada daquilo lhe importasse.

Mas Munihr notou.

— Estava pensando… Que tal um passeio?

Kiran franziu o cenho, como se tivesse acabado de ouvir uma proposta absurda. O lunar, no entanto, apenas sorriu, sem se abalar.

— É só um convite. Mas, se preferir ficar aí, por mim tudo bem.

Sem esperar resposta, virou-se e começou a caminhar em direção à saída da biblioteca.

Kiran hesitou. Seus instintos gritavam para não confiar em Munihr, para não cair no ritmo dele. Qualquer movimento do lunar era calculado, cada palavra dita tinha um propósito. Mas a alternativa era permanecer ali, sozinho, naquele ambiente sombrio e opressivo. Eão tinha escolha.

Por fim, suspirou, vencido pela própria inquietação, e deu um passo à frente.

— Espere aí! Não vou ficar aqui sozinho.

Munihr parou na porta, inclinando levemente a cabeça para trás, sem virar-se completamente.

— Está com medo do escuro, guardião?

— Não diga besteiras.

O lunar soltou um riso e seguiu adiante, sem olhar para trás. Assumiu que Kiran o seguiria, e estava certo. O solariano o acompanhou, mantendo uma distância segura—próximo o bastante para não se perder nos corredores sombrios, mas longe o suficiente para evitar qualquer surpresa desagradável.

Seu olhar percorria cada canto do caminho, atento a qualquer ameaça. Estar em território inimigo sem entender suas regras era um risco que não gostava de correr.

Munihr, por outro lado, movia-se com a tranquilidade de quem conhecia cada pedra sob seus pés. Seu ritmo era controlado, os passos fluidos, como se não precisasse pensar para saber exatamente onde estava indo.

O silêncio se prolongou até que Kiran, incapaz de suportar aquela incerteza, finalmente o quebrou:

— Para onde estamos indo?

— Vamos descobrir como você chegou aqui.

...***...

O vento açoitou o rosto de Kiran, forçando-o a estreitar os olhos e esfregar os braços numa tentativa inútil de aquecer-se. O frio era implacável, infiltrando-se através de sua roupa, apertando sua pele como garras invisíveis. Ele soltou um suspiro irritado, a névoa quente de sua respiração se dissipando no ar noturno. Cada rajada parecia atravessá-lo, roubando o calor de seu corpo sem piedade.

Munihr, por outro lado, parecia imune ao clima hostil. Estava abaixado na beira do que restava da ponte, os cotovelos apoiados sobre os joelhos, completamente alheio à ventania que agitava seus cabelos prateados. Seus braços nus não exibiam qualquer sinal de desconforto, e seus olhos fitavam o mar abaixo com uma expressão distante, quase melancólica.

Kiran não conseguia entender como alguém podia parecer tão confortável em um lugar tão inóspito. O vento frio, a escuridão, o silêncio pesado... tudo ali parecia projetado para afastar qualquer visitante indesejado. Mas Munihr estava ali como se pertencesse àquele cenário.

O solariano franziu a testa, apertando os punhos dentro das luvas gastas.

— Por que aqui tem que ser tão frio? — murmurou, mais para si do que para o lunar.

Munihr se moveu lentamente, endireitando o corpo com a mesma calma de quem desperta de um longo devaneio.

— Parece que você atravessou um portal. — disse.

Kiran piscou, confuso.

— Um portal?

O lunar inclinou a cabeça, como se ponderasse a melhor forma de explicar. Então, sem pressa, ergueu uma das mãos e apontou para o mar cristalino que se estendia sob a ponte destruída.

— Ali, costumava haver uma cidade. Ela ligava esta ponte ao continente além daquela margem.

Os olhos de Kiran seguiram o gesto, mas tudo o que via era a vastidão do oceano escuro, refletindo as estrelas como um espelho trincado. A superfície se movia em suaves ondulações, tranquila demais, quase traiçoeira. Era estranho imaginar que, sob aquele véu pacífico, havia uma cidade inteira submersa.

Munihr avançou alguns passos, parando à beira do precipício onde a ponte terminava abruptamente. Seu olhar permaneceu fixo no mar, como se pudesse enxergar além das águas. Quando voltou a falar, sua voz tinha um tom sombrio, quase amargo.

— Agora, ela está lá embaixo. Afogada no esquecimento. Destruída há duas décadas… pelo ataque dos solarianos.

Kiran sentiu um arrepio diferente percorrer sua espinha. Um frio que não vinha do vento.

Ele abriu a boca para dizer algo, mas hesitou. Não sabia o que responder. A revelação o pegara desprevenido.

Munihr, no entanto, não parou. Seu tom permaneceu impassível, como se narrasse algo distante, sem se importar com a reação do guardião.

— Naquela parte da cidade — ele indicou o oceano com um leve movimento do queixo — havia um portal. Ele conectava a Cidade Lunar a outros reinos. Mas, como tantos outros portais, afundou junto com metade da cidade. A outra parte que você já conhece, ficou isolada, cortada dos outros reinos.

— Isolada… — Kiran repetiu, mais para si mesmo.

Munihr ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços.

— Por que isolar um povo? — questionou, e sua voz carregava um peso oculto. — Por que apagá-los da história enquanto o mundo segue em frente? Talvez porque sejamos inconvenientes. Ou talvez porque o esquecimento seja a punição mais cruel de todas.

Ele fez uma pausa, observando Kiran com atenção. O solariano estava pensativo, o olhar fixo no mar.

— O mesmo aconteceu com os Ragnarokianos, sabia? Eles também foram isolados. Presos em suas ruínas após a queda do deus que os guiava.

Kiran ergueu a cabeça, os olhos arregalados.

— Queda de um deus…?

— Deuses caem, Kiran. É raro, mas acontece. E, quando caem, arrastam consigo todos que dependiam deles.

As palavras pairaram no ar como uma sombra, deixando um gosto amargo na boca de Kiran. Ele queria perguntar mais. Precisava entender o que Munihr sabia. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o lunar virou-se abruptamente, como se quisesse encerrar o assunto.

— Mas voltando ao ponto… Você provavelmente veio através de um desses portais. Um dos poucos que ainda funcionam.

Kiran balançou a cabeça, sua mente recusando-se a aceitar aquela idéia.

— Não pode ser. Em Solaria, não temos nenhum portal que conecte a este lugar. Isso não deveria ser possível.

— Até onde sei, sempre houve.

Passando ao lado do guardião, parou por um instante, pousando uma mão leve sobre seu ombro.

— Você teve sorte, sabia? O portal submerso poderia muito bem ter jogado você direto para o fundo do mar. Mas, por algum motivo, trouxe você para cá… onde, aparentemente, sua teimosia pode ser útil.

Um sorriso insolente curvou seus lábios.

— Aliás… você sabe nadar?

Kiran fechou a cara, o maxilar travado, mas não respondeu.

Munihr apenas riu, satisfeito, e começou a se afastar. Seus passos eram lentos, despreocupados, como se não tivesse acabado de virar a visão de mundo de Kiran de cabeça para baixo.

O solariano ficou parado ali, perdido em suas próprias perguntas. Mas não conseguiu conter sua curiosidade por muito tempo.

— Espere! — chamou, avançando para alcançá-lo. — Por que fui enviado para cá? Justamente para este lugar? O único portal que temos em Solaria só leva ao mundo mortal. Não a… isso.

Munihr parou abruptamente. Seu corpo ficou imóvel por um instante antes de virar-se lentamente para encarar Kiran.

— Aqui também é o mundo humano. — disse simplesmente.

Mas Munihr não esperou por mais perguntas. Apenas se virou e retomou sua caminhada, deixando o guardião para trás, sozinho com suas incertezas.

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