Munihr estava absorto nos pergaminhos à sua frente. Os olhos deslizavam pelas palavras desbotadas, as sobrancelhas franzidas em leve concentração. A biblioteca estava mergulhada em um silêncio profundo, quebrado apenas pelo ocasional crepitar das tochas nas paredes.
Então, o estrondo veio. Uma mão pesada se abateu sobre a mesa, espalhando papéis e interrompendo sua leitura.
Munihr piscou, sem pressa, e ergueu os olhos. Encontrou Kiran à sua frente. O solariano estava tenso, a respiração ritmada, mas pesada, como se tivesse vindo às pressas. Seus ombros subiam e desciam sutilmente, e seus olhos queimavam com um brilho tempestuoso.
— Ah. Voltou tão cedo. Pelo jeito, sua exploração não foi tão satisfatória quanto esperava.
Kiran ignorou a provocação.
— Onde estão os outros lunares? Por que este lugar está vazio?
Munihr arqueou uma sobrancelha. Não demonstrou surpresa. Pelo contrário, parecia já esperar aquela pergunta.
— O silêncio incomoda, não é? — comentou, voltando a atenção para os papéis. — Vocês solarianos sempre esperam movimento. Sempre precisam de vozes, de multidões. Mas o vazio... O vazio exige que enfrentemos nossos próprios demônios.
— O único demônio que vejo aqui é você.
Munihr sorriu.
— Que elogio generoso.
Kiran cerrou os punhos.
— Pare de rodeios. O que está acontecendo neste castelo?
Munihr suspirou, fechando o livro com um movimento deliberadamente lento.
— Se deseja respostas, sente-se e pergunte. Mas aviso desde já… talvez não goste do que vai ouvir.
Os olhos de Kiran percorreram a sala, buscando qualquer pista de ameaça oculta. Mas não havia nada. Apenas um lunar, calmo como uma estátua, esperando.
Por fim, a contragosto, puxou uma cadeira e se sentou, os músculos ainda tensos, pronto para reagir.
O silêncio se prolongou. Munihr, sem pressa, reorganizou pergaminhos, folheou um livro, ajeitou uma pena ao lado do tinteiro. Seu descaso era proposital, e Kiran sabia disso.
— Por que você está aqui? — pressionou. — E que lugar é esse, de verdade?
Munihr fechou os olhos por um instante, como se a impaciência do solariano fosse uma afronta pessoal.
— Fale mais baixo — advertiu. — E, francamente… sou um lunar. Por que eu não estaria aqui?
— Não me diga o óbvio. Quero saber o que você está escondendo.
Dessa vez, Munihr ergueu o olhar, e havia algo novo em sua expressão. Algo entre a diversão e um desafio silencioso. Ele apoiou o queixo nas mãos entrelaçadas, observando Kiran como se estivesse analisando uma peça de um jogo.
— Talvez devêssemos começar explicando nossas próprias presenças.
Kiran abriu a boca para responder, mas fechou-a no instante seguinte. A lógica nas palavras do lunar o pegou desprevenido.
Cruzou os braços.
— Então explique suas intenções primeiro.
O sorriso de Munihr se alargou.
— A honra é sua, senhor guardião — disse, apontando para Kiran com um gesto teatral. — Pode começar.
O silêncio pesou entre os dois. Kiran sentia o olhar de Munihr sobre ele, afiado, atento. O lunar esperava. Observava. Como se soubesse que, no fim das contas, o solariano acabaria cedendo.
...***...
Kiran contou tudo o que podia. Sua voz era firme, carregada da autoridade de um guardião que não admitia ser questionado, mas também havia nela uma cautela evidente. Ele sabia estar diante de alguém perigoso. Escolheu suas palavras com precisão, revelando apenas o necessário, sem se expor mais do que devia.
Quando terminou, sustentou o olhar de Munihr, esperando uma reação.
Mas o lunar permaneceu imóvel. Seus olhos cravaram-se nos de Kiran, analisando não apenas o que ele disse, mas também o que não disse. Ele não parecia interessado apenas na história contada, mas nas lacunas deixadas entre as frases, nos pequenos detalhes que escapavam, naquilo que o guardião tentava esconder.
Então, sem pressa, ele ergueu-se da cadeira.
— Sua história é tão estranha quanto você, guardião.
Kiran estreitou os olhos, mas não mordeu a provocação. Apenas seguiu cada movimento do lunar enquanto ele começava a andar pela biblioteca. Seus dedos deslizavam lentamente pelas lombadas dos livros, como se buscassem algo específico, mas sem pressa alguma.
Aquilo o irritou.
— O que quer dizer com isso?
Munihr apenas lançou-lhe um olhar de soslaio, os lábios curvando-se num sorriso leve, quase desafiador.
— Apenas que sua história me soa verdadeira — respondeu, puxando um livro da estante e o folheando distraidamente. — O que, por si só, contraria todo o senso.
— Você é um tolo por confiar em mim, lunar.
— Certamente. Mas confio mais na minha percepção do que nas suas palavras.
Por um instante, Kiran não soube como rebater.
Munihr, por outro lado, parecia satisfeito com o impacto de suas palavras. Continuou folheando o livro, passando os olhos pelas páginas amareladas como se a conversa já não lhe interessasse tanto.
Mas Kiran não ia deixar aquele jogo acabar ali.
Moveu-se rapidamente, diminuindo a distância entre os dois.
— Você é ingênuo.
Munihr não ergueu os olhos. Apenas virou outra página.
— Se eu quisesse sua morte, já teria providenciado.
— Quanta confiança.
— Está tentando testar minha paciência, guardião?
Kiran inclinou a cabeça, estudando-o como quem avalia um inimigo antes de decidir o próximo golpe.
— Eu pagaria para ver, lunar. Mas, sinceramente, não tenho tempo para seus enigmas.
Munihr sorriu.
Com um gesto lento e deliberado, fechou o livro em suas mãos. O estalo do papel e da madeira ressoou pelo salão, ecoando entre as prateleiras. Então, cruzou as mãos atrás das costas e voltou-se para Kiran.
— Ah, mas agora você tem tempo de sobra. Afinal, se deu ao trabalho de voltar até aqui... deve estar muito curioso. Ou estou errado?
Kiran abriu a boca para responder, mas as palavras ficaram presas.
Munihr havia tocado em um ponto sensível. E ele sabia disso.
Inspirando fundo, Kiran obrigou-se a manter a compostura. Mas o tensionar de seu maxilar traía sua frustração.
O lunar observou aquilo com o olhar afiado de quem acabara de fazer um movimento certeiro em um tabuleiro invisível. Então, avançou um passo, reduzindo ainda mais a distância entre os dois.
— Silêncio — brincou Munihr. — Finalmente, algo interessante.
Kiran sustentou o olhar, recusando-se a cair no jogo dele. Não respondeu. Sabia que qualquer palavra seria usada contra ele.
Munihr inclinou a cabeça, avaliando-o.
— Você está aqui por um motivo que ainda não sei. Mas, eventualmente, todos os segredos vêm à tona. Inclusive os seus, guardião.
Kiran respirou fundo, controlando a irritação.
— Já disse como vim parar aqui. O portal... ele me trouxe pra cá—
— Ragnarokianos.
O solariano franziu o cenho.
— O quê?
Munihr mexia distraidamente em um pequeno artefato sobre a estante. Seus dedos passavam pelo metal antigo, como se a conversa já não fosse mais prioridade para ele. Mas, ainda assim, disse a palavra com a naturalidade de quem comenta algo óbvio:
— A criatura que veio com você. E, pelo que descreveu, também são elas que estão atacando suas terras. Ragnarokianos.
Por um momento, Kiran sentiu-se paralisado.
Ragnarokianos?
Ele nunca tinha ouvido essa palavra antes. Mas algo na forma como Munihr a dissera fez seu sangue gelar.
— Ragnarokianos... — repetiu, tentando absorver a informação. — Você está dizendo que—
— Eles têm esse tipo de comportamento — interrompeu Munihr, virando-se para ele. — São caóticos por natureza, mas metódicos em seus ataques. O motivo de estarem atacando seu povo, bem... isso é um mistério.
Kiran sentiu seu coração acelerar. Munihr sabia mais do que estava dizendo. Muito mais.
— Como você sabe disso tudo? Nem mesmo meus superiores têm essa informação... e você, um inimigo para nós...
Munihr, no entanto, não demonstrou a menor perturbação. Quando Kiran abriu a boca para pressioná-lo, o lunar ergueu um dedo indicador.
— Fique quieto. — pediu, com a mesma calma de sempre.
Então, simplesmente recuou. Foi até a mesa e sentou-se novamente. Sem qualquer pressa, voltou a examinar os pergaminhos antigos, como se nada tivesse acontecido.
Kiran permaneceu onde estava, imóvel. Incrédulo. Ele não sabia o que o irritava mais:
O mistério que Munihr insistia em manter. Ou sua audácia em tratá-lo como uma criança que precisava ser silenciada.
Mas uma coisa era certa. Havia segredos ali. Segredos que Kiran precisava descobrir. E ele não iria embora sem respostas.
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Atualizado até capítulo 9
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