O Portal de Solaria não era apenas uma passagem entre reinos. Era o elo entre mundos, sustentado pelo coração fragmentado de uma estrela. Sua luz pulsava entre os dois pilares colossais de pedra vermelha, uma energia dourada fluindo como se o próprio sol respirasse dentro daquela estrutura. As inscrições ancestrais, entalhadas na base, brilhavam com um fulgor inquieto, vibrando com o fluxo instável de poder. Sem o Portal, Solaria estaria isolada. E era exatamente isso que seus inimigos queriam.
Quando Kiran finalmente chegou ao local, um frio cortante subiu por sua espinha.
A batalha já estava perdida antes mesmo que ele chegasse.
Corpos de soldados solarianos jaziam espalhados pela areia, alguns ainda agarrando suas armas, outros tombados sobre a poeira que rapidamente os engolia. Os que restavam resistiam com tudo o que tinham, disparando contra as criaturas das sombras que escalavam os pilares com garras afiadas e movimentos rápidos como serpentes. Seus olhos, de um amarelo flamejante, brilhavam com um ódio primitivo, famintos por destruição.
A estrutura sagrada tremia. Cada golpe das garras nas inscrições ancestrais fazia a luz do Portal vacilar. Pequenas fissuras se espalhavam pela pedra, e Kiran soube, num relance, que estavam perdendo tempo. Se aquelas criaturas quebrassem o selo de energia, não haveria como consertar.
Ele puxou as rédeas com força e saltou da sela antes mesmo de Ouro parar. O cavalo relinchou, seus olhos refletindo o fogo da batalha, mas Kiran já estava em movimento.
A pistola saiu do coldre em um movimento fluido.
O primeiro tiro explodiu no peito de uma das criaturas, abrindo uma fenda de luz em seu corpo sombrio antes de reduzi-la a cinzas. A segunda mal teve tempo de virar os olhos amarelos na direção dele antes que outro disparo perfurasse seu crânio, desintegrando-a no ar.
Mas elas não paravam.
A escuridão se contorcia ao redor do Portal, se multiplicando, se alimentando do próprio medo que semeavam. Mais delas emergiram das sombras, deslizando pela areia como feras que haviam acabado de farejar uma presa fácil.
Kiran avançou sem hesitar.
— Recuem! — Sua voz cortou o caos como um comando inegável. — Eu cuido disso aqui!
Os soldados hesitaram, alguns ainda segurando suas armas com mãos trêmulas, os olhos arregalados pelo horror da batalha. Mas a voz do guardião não deixava espaço para dúvidas. Um a um, os feridos começaram a recuar, buscando abrigo atrás das ruínas espalhadas pela areia. Os que ainda podiam lutar mantiveram-se prontos, mas era evidente que esperavam que ele resolvesse aquilo.
Kiran avançou, posicionando-se entre o Portal de Solaria e as criaturas sombrias. Seu corpo estava tenso, vibrando com a adrenalina que antecedia o combate. Seus dedos se ajustaram ao gatilho, firmes, e sua respiração tornou-se medida, calculada. O farfalhar da areia e o uivo do vento se misturavam aos ruídos do campo de batalha, mas ele ouvia apenas o silêncio que precedia o primeiro disparo.
E então, atirou.
O estampido ecoou entre os pilares. A bala de luz cortou o ar e se alojou no peito da criatura mais próxima, reduzindo-a a um punhado de cinzas reluzentes. Kiran girou sobre os calcanhares, desviando das garras que tentavam agarrá-lo, e disparou novamente. Outro monstro tombou, o brilho amarelado de seus olhos se apagando.
Mas eles não paravam. Eram muitos. Cada um que caía dava lugar a outro, surgindo das sombras como se fossem parte do próprio deserto. Eles rosnavam, cercando-o, movendo-se com rapidez e fome. Seus olhos flamejantes refletiam a luz do Portal, e Kiran viu neles não apenas fúria, mas propósito.
Eles estavam ali para destruir. Para cortar Solaria de seus aliados.
Uma fera saltou em sua direção. Kiran se abaixou no último instante, sentindo o vento frio das garras passando rente ao seu rosto. Rolou pela areia, disparando de costas para atingir o inimigo antes que ele pudesse reagir. O corpo da criatura explodiu em poeira dourada. Ele se ergueu de imediato, recarregando a pistola com um movimento ágil e automático.
Um rugido ecoou pelo vale, profundo e feroz como o estouro de uma guerra. A tempestade de areia pareceu vacilar por um instante, como se algo maior estivesse prestes a emergir de seu núcleo.
E então ele apareceu. Uma criatura colossal, negra como obsidiana polida, os olhos brilhando como fogo líquido. Suas garras eram lâminas curvas, prontas para despedaçar qualquer coisa em seu caminho. Mas o que fez o estômago de Kiran se revirar não foi seu tamanho, nem a aura opressora que emanava de seu corpo.
Foi a forma como ignorou tudo ao redor. Os soldados. As batalhas. Os mortos. A fera fixou seus olhos ardentes no Portal e avançou.
Kiran não hesitou e disparou contra ela.
A bala riscou o ar, brilhando como um fragmento de estrela. Mas, no último instante, a criatura girou, desviando com uma agilidade impossível para seu tamanho. Em um único movimento, girou sobre as patas traseiras e atacou.
Kiran não teve tempo de reagir.
As garras da criatura atingiram seu peito com uma força brutal. O impacto lançou-o para trás, o ar escapando de seus pulmões em um baque seco. O mundo girou ao seu redor. O céu e a areia se misturaram em um borrão dourado.
Ele atingiu o chão com força. A dor explodiu por seu corpo, mas a batalha ainda não havia acabado.
Forçou-se a rolar para o lado, escapando por um fio de um segundo golpe que teria atravessado sua carne. A areia ao seu lado foi rasgada como seda, criando uma fenda onde antes estava seu corpo.
Kiran se ergueu num salto, engolindo a dor. Seus olhos fixaram-se na fera, que agora o encarava diretamente.
Inteligente. Rápida. Mortal.
Ele mirou com precisão. Esperou. Contou os segundos entre um movimento e outro. Quando a criatura flexionou os músculos para atacar de novo, Kiran atirou.
A bala de luz voou certeira, atingindo a lateral de sua cabeça. Cambaleou para trás, balançando a cabeça como se tentasse se livrar da dor. Mas não caiu. Nem recuou. Pelo contrário, avançou com mais fúria.
Kiran tentou esquivar-se, mas foi lento demais.
As garras escuras atingiram seu peito mais uma vez, desta vez o agarrando com força. Ele sentiu o aperto esmagador contra seu corpo, os dedos da fera se fechando como ganchos ao redor de seus ombros. A dor irradiou por sua espinha, mas não houve tempo para processá-la.
Porque, no instante seguinte, a criatura saltou e Kiran foi arrastado junto. O Portal brilhou em um clarão intenso, engolindo os dois. A última coisa que viu foi o desespero nos olhos dos soldados, seus gritos se dissolvendo no vórtice de luz.
...***...
Atravessar o Portal foi como ser arremessado para dentro de uma tempestade sem vento.
Kiran sentiu o corpo ser puxado e torcido, como se múltiplas forças invisíveis lutassem para despedaçá-lo. A gravidade oscilava, ora o prendendo, ora o lançando para um vazio onde não havia cima nem baixo, apenas um clarão sufocante que queimava por trás de suas pálpebras fechadas.
Então, tudo colapsou.
O impacto veio como um raio.
O choque brutal contra uma superfície dura arrancou-lhe o ar dos pulmões. A dor explodiu por seus ossos, como se tivesse despencado do alto de um penhasco. Ele ficou ali, deitado, o peito arfando, tentando desesperadamente puxar o fôlego de volta. O mundo girava ao seu redor em um turbilhão nauseante.
Por um momento, não soube se ainda estava vivo. Mas então, o rugido veio. A fera também havia atravessado.
O instinto agiu antes da razão. Kiran se forçou a se mover, puxando a pistola com dedos trêmulos. Ainda caído, ergueu a arma e disparou.
O tiro cortou o ar, um raio dourado rompendo a penumbra do novo mundo. A bala desta vez atingiu o peito da criatura.
O monstro recuou, seu corpo convulsionando quando a luz o consumiu de dentro para fora. Suas formas grotescas se despedaçaram em cinzas, dissolvendo-se no ar como névoa ao amanhecer.
E então, o silêncio caiu. Um silêncio opressivo, tão repentino que pareceu ensurdecedor.
Kiran permaneceu imóvel, sentindo o próprio coração martelar contra as costelas. Sua respiração veio curta, irregular, como se cada fôlego fosse arrancado à força.
Lentamente, apoiou-se nos cotovelos e ergueu o olhar. O Portal havia sumido. O deserto de Solaria, o calor abrasador, a areia varrida pelo vento… tudo havia desaparecido.
No lugar onde antes havia terra seca e rochosa, agora se estendia um mar vasto e silencioso diante de si. Suas águas eram tão calmas que pareciam um espelho líquido, refletindo um céu cinzento e imóvel, sem sol, sem nuvens, sem vento.
Era como estar preso dentro de um quadro esquecido.
Movimentos sutis sob a superfície chamaram sua atenção. Pequenos peixes nadavam lentamente, seus corpos quase translúcidos, como se pertencessem a um mundo fora do tempo.
Kiran se forçou a se levantar.
As pernas vacilaram, o corpo ainda sentindo o impacto da travessia, mas ele se manteve de pé. Precisava entender onde estava.
Atrás de si, erguiam-se os restos de uma ponte colossal. Sua estrutura quebrada desaparecia no horizonte enevoado, conectando-se a um continente distante. Além da névoa espessa, conseguiu distinguir uma praia de areia branca e, mais adiante, um porto silencioso, onde embarcações antigas balançavam suavemente, vazias e esquecidas.
Um calafrio percorreu sua espinha.
— Onde diabos eu estou?
Com um suspiro tenso, guardou a pistola no coldre. O peso familiar da arma contra seu corpo era uma das poucas certezas que ainda restavam.
Ele olhou ao redor mais uma vez, como se na segunda ou terceira tentativa o cenário fosse fazer mais sentido. Mas tudo continuava estranho demais, quieto demais. O mar se estendia à sua frente como uma planície líquida, imóvel sob um céu sem sol.
Atrás dele, os restos de uma ponte colapsada avançavam até desaparecer na névoa. A estrutura de pedra parecia ter pertencido a uma era perdida, como se ninguém a atravessasse havia séculos. Talvez milênios. A única direção possível era a praia à frente.
Ele apertou os punhos, sentindo o corpo ainda dolorido da queda, e deu o primeiro passo. Seja lá onde estivesse, não pretendia ficar parado para descobrir da pior forma.
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Atualizado até capítulo 9
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