A cama parecia confortável demais para alguém com insônia. O ferimento na minha mão não era nada comparado a preocupação pela pobre Emma ter sido ferida. No caso dela, não houve nem melhora e nem piora, no meu? O ferimento parecia de infeccionar cada vez mais.
O dia amanheceu tão lento e nublado quanto minha visão. Espero junto de outros refugiados na entrada da penitenciária, mas poucos carros de busca por suprimentos retornam. Ferdinã não foi embora, posso vê-lo entre as janelas dos quartos prisionais, ainda assim, segue tão sombrio quanto sempre.
— Acha que vão nos buscar?- ao meu lado, Rodolfo afobado pela ressaca, pergunta.
— Claro que vão, sabem que estamos aqui.- digo, duvidando de mim mesma.
Enquanto os carros são esvaziados para a reposição de mantimentos, algumas pessoas se direcionam a outro lugar em meio a cochichos. E logo, mais pessoas saem, todas no rumo do refeitório.
— A última vez que vi algo assim, foi numa Black Friday.- o moreno franzino sussurra, atiçando minha curiosidade.
Vencidos pelo espírito fuxiqueiro, corremos pelo mesmo caminho que a maioria. Atravessamos o aglomerado aos espremidos, ouvindo cada vez mais respirou de surpresa e espanto.
Diante a verdadeira causa de confusão, enxergamos o porquê de tudo aquilo. Ali, sentado na mesa se alimentando como uma pessoa normal está Augusto. Sua pele negra está amarelada, como se o sangue lhe faltasse, porém seus movimentos duros refletem um humano apesar de tudo. Seus pais, notavelmente assustados, hesitam em se aproximar.
— A... Aquele é!- o garoto balbucia incrédulo, antes de Suzan se achegar a nós, confirmando.
— Nosso querido Augusto está vivo. Então, essa doença não é permanente?
— Você sabe que não é verdade, é impossível aquelas coisas voltarem a ser o que eram antes!- Rodolfo replica para ela.
O atleta ouve tudo em silêncio, antes do seu olhar cair no meu. Quase não a o brilho da vida neles. Ele parece... sozinho.
— Até os pais estão com medo.- falo, saindo do meio das pessoas e indo na sua direção.
Tolice ou coragem, não sei o que isso define. Talvez o simples fato de não ter mais nada a perder me da essa falsa sensação de ser invencível.
Seus pais me olham chocados quando passo por eles, sentando na frente do rapaz. O silêncio que se instalou naquele momento foi tanto que pude ouvir meus batimentos retumbando na mente. Suspiro enfim, estendendo minha mão enfaixada para ele.
— Bem-vindo de volta, Augusto.
— Eu posso te atacar...
— Seria hipócrita da minha parte rejeitar alguém que me ajudou a sobreviver.
— Tem certeza disso?
— Aperta logo essa mão!
Ele gargalha me cumprimentando. De pé, nos esticamos sobre a mesa dando um abraço forte, logo após me afasto dando espaço aos pais emocionados por terem seu filho de volta.
Subitamente um sufocamento interno me atinge. Com pressa, começo a recuar dali buscando um lugar vazio para poder respirar. As náuseas e vertigem ficam cada vez mais fortes, a visão turva traz a perca quase total da convivência e a ferida coberta, queima se espalhando cada vez mais.
Recosto em uma parede, sem saber como ou onde cheguei. A necessidade por ar é tanta que arranco minha camisa e começo a me abanar hiperventilando. Quase não percebo passos chegando perto de mim. Sou levantada do chão com lentidão e levada até o que parece uma janela, onde ali me penduro respirando como um corredor numa maratona.
— Está melhor?- a voz é indecifrável diante aos estouros dos meus ouvidos.
— Estou, mas quem...- a pessoa chega perto me ajudando a ficar de pé. Tento suspirar até me acalmar, porém um cheiro diferente invade minhas narinas. Cheiro de ferro... e carne fresquinha.
Minha boca saliva automaticamente. Deixando-me levar por tal necessidade, meus dedos tateam buscando pela fonte daquele aroma. Abraço quem me sustenta, deitando o rosto no seu pescoço sentindo arrepios a cada nova inalada.
— É... tão bom.
— Está tendo um ataque de pânico?- a voz parece de homem, mas ainda impossível dizer de quem.- Olha pra mim.
Ele sustenta meu rosto com uma mão, e domada por miopia meus olhos se espremem tentando discernir a pessoa. Tão perto seu cheiro mais eloquente, capaz de se tornar irresistível. Mordo meus lábios tentando esconder o quanto desejo devora-lo.
De repente, um zumbido se inicia para mim. Meus olhos retornam o foco e a tontura lentamente vai passando, onde só então percebo estar encarando o par de olhos escuros do Agente.
— Você...- ele me encara, inerte.- Por que me segue por onde vou?
— Foi acaso te achar aqui.- ele responde, me libertando com cuidado para que eu não caía.- Pareceu estar tendo um ataque de pânico, de nada.
Bufo ironicamente me recostando na parede, só então percebendo que estou sem camisa. Um rubor discreto aparece no meu rosto por notar meu sutiã bege estar a mostra. Ele parece notar a vergonha e se vira de costas, dando-me privacidade.
— Será que caiu pela janela...?- pergunto a mim mesma sem conseguir achar minha peça de roupa.- Droga, você não viu minha camisa?
— Estava só você quando te achei.- quem roubaria uma coisa inútil como aquela?
— ... acontece.- suspiro indicando minha saída dali.
— Vai andar seminua por aí?- questiona me fazendo parar.
— Não é como se eu tivesse outra escolha.
Ele parece ponderar por um momento enquanto me encara. Perante a hesitação, percebo suas intenções. Observo boquiaberta vendo-o retirar a própria camisa. Meus olhos melindrosos escaneiam seu torso despido com total malícia e vergonha. Da barra da calça até o peito, memorizo calmamente seguindo seus movimentos. Subindo para encara-lo, percebo uma certa timidez nas suas orbes escuras.
— Você é mulher, tem mais a esconder do que eu.
Mal tenho tempo de agradecer, ele literalmente empurra o pano nas minhas mãos e vira de costas. Timidamente começo a me vestir, notando uma vermelhidão recente na sua nuca. Marcas de dedos...
— Sua namorada não vai gostar disso.
— Do que está falando?
— Essas marcas...- digo terminando de me vestir, e ele se vira encarando com deboche.- Confundi? É namorado? Eu não tenho preconceito.
— Idiota... você quem acabou de fazer isso.- ele mostra o lado do seu pescoço mordiscado.
Meu queixo caí mais ainda embasbacada. A vergonha que me toma é tanta que me retiro daquele corredor primeiro, evitando dizer qualquer palavra a mais.
Aquele cheiro... delicioso, vinha dele? Mas cheirava a ferro, sua roupa não tem manchas de sangue... será que isso é por causa da infecção?
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