Pequena luz, pequena esperança.

Do veículo militar observo, os soldados retirarem os corpos sem vida do ônibus. Mesmo assim, vendo-os estirados e molengas no asfalto, ainda havia um desejo, uma fagulha de esperança de vê-los levantar e suspirarem porque a ajuda chegou rápido. Mas não, isso não aconteceu, e ver os soldados dizerem:

— Eles estão sem vida, senhor.- ao meu pai, é um castigo. O seu olhar vai de sério a apaziguador em segundos, observando o desalento no semblante da sua unigênita.

— Eu sinto muito que isso tenha acontecido...- o homem impotente demonstrava afeto singelo, parecia sentir culpa pelo infortúnio.

— É... eu também.

Os soldados descarregavam os corpos para um único carro e já nos outros sobrava espaço para os resgatados vivos, que oscilavam entre agradecer ou explanar dor.

— Atenção, código resgate. Mande reforços para a Estação de Fuga a Leste, estamos com sobreviventes que presenciaram a explosão, exijo extrema proteção.- o homem sequer aguarda resposta antes de desligar o aparelho. O seu carinho estava voltado para o ser mais importante da sua vida, notório tamanho amor somente pelo olhar.

— Por que estamos saindo da cidade, pai?- o espanto estava presente agora.- A rota leste... é pelos túneis de trânsito... levam para fora da cidade.

— Esqueci que te ensinei bem demais.- a sua risada é orgulhosa do trabalho que fez.- A cidade está infestada... por algo que escapou do caminhão que explodiu enfrente a sua escola. Algo que se espalhou rápido demais e infectou os animais.

— Então, aqueles seres deformados apodrecidos... são animais? Tipo... cães e gatos?

— Ratos e o que mais tiver um sistema neuronal idêntico a de animais.

— Eu estava no pátio principal quando isso aconteceu...

O terror estava espalhado de forma inexplicável, os alunos fugiam de algo veloz demais para olhos desfocados verem. Os gritos instalaram mais instinto de sobrevivência, porém a cereja do bolo foi redefinida em pavor saindo da traseira aberta do caminhão embargado na rua. Tinha quatro patas, sangue escorria da sua pele apodrecida e os seus dentes despejavam altas doses de saliva ao chão, e os seus olhos ludibriados pela loucura...

Jamais haveria de esquecer aquela cena, ainda mais descobrindo que tal ser seria antes atrativo para amor e pureza que somente animais podem carregar.

— Vi quando saíram da carroceria... sedentos por sangue.

— Aqueles animais estavam infectados...- o seu sussurro não cotidiano, deixa o espaço para a questão, que se esta frase seria uma pergunta ou uma afirmação.

A dúvida jamais seria sanada, não naquele momento. Os carros saíram em disparada deixando para trás o cenário de sangue, antes de uma explosão repentina ocorrer. Não haveria nada mais que cinzas e fumaça do ônibus escolar.

— Não sei o que ele fez para você...- o olhar recai sobre Jacob.- Mas esse rapaz é bom, deveria repensar...

— Tem razão pai, você não sabe o que ele fez.- retruco, impedindo suas palavras seguintes.

— Quando estiver pronta, estarei aqui para ouvir. Com certeza não foi tão mau quanto a sua mãe...- o seu rosto se retorce num sorriso amargurado, novamente cheio de sabedoria carregado pela idade, ele está certo.

Inesperadamente, o veículo freia com brutalidade fazendo com que pai e filha fossem jogados para mais dentro da carroceria. No ato, um impacto eminente ocorreu, desencadeando mais dor nas feridas já causadas; o pai presenciou de mãos atadas a sua filha expelir sangue pelos lábios já avermelhados.

— SANNA! Onde tiraram suas habilitações, seus imbecis?!- esbraveja, amaldiçoando o condutor, tentando atravessar com cuidado por cima de Jacob, para alcançar-me. No entanto, o famoso destino tende a ser traiçoeiro.

— Subtenente, não podemos passar! A estrada está engarrafada por todos os lados, devemos dar a volta!- o motorista brada, causando rugas no militar mais velho.

— Não se mexa, querida, eu já volto.- fala saindo do carro.

O cadete motorista não estava mentindo, não haveria por onde passar e eles teriam de ir pelo túnel mais longo, o que demoraria mais tempo para chegar a um local adequado para cuidar dos feridos, incluindo a sua própria filha.

— Que droga... O que estão esperando?! Deem a volta!- manda aos soldados que sem pestanejar obedecem à ordem. No entanto, entre os carros entulhados, ocorre uma movimentação estranha.

— Senhor, o que é aquilo?- da cabine de motorista o cadete aponta.

O Subtenente junta-se a mais dois soldados antes de ir verificar, não dando sequer cinco passos antes que uma pessoa gravemente ferida aparecesse.

— Soco... socorro...- era um homem aparentemente de meia-idade, coberto de sangue e mordidas que estavam notoriamente apodrecendo.- Me ajudem...

Os homens iriam se aproximar, porém se detiveram ao observarem os olhos do homem dilatando de forma avulsa. O rosnar que saia da sua boca se igualava ao rosnar dos animais infectados.

— Senhor, se mantenha afastado, chamaremos ajuda.- o militar no comando diz, mantendo firmeza ao falar.

— So-... socor... ro... me aju-judem... grrr...- o homem desobedecia à ordem dada, fazendo com que os cadetes apontassem as miras para ele.

— Não atirem, é uma pessoa.

— Mas senhor, ele não parece mais uma pessoa!- indagou um cadete.

— Ele está doente devemos, leva-lo a base para os cuidados.- afirma, mostrando uma fita de algemas descartável.- Senhor, fique parado, irei colocar isso em você e leva-lo até a base para devidos cuidados.

O homem rosnava loucamente demonstrando hostilidade, mas por ser um militar treinado o conteve facilmente.

— Pare de resistir, senhor, é pro seu bem! AH!

De repente o militar grita, recebendo uma forte mordida na canela. Um cadete não se conteve e acabou atirando, matando uma criança infectada que aparecerá por entre os carros.

— Desculpe, senhor! Não tive escolha!- rapidamente se desculpou, temendo pelo castigo que receberia, mas o seu olhar foi atraído para uma nova movimentação por entre os veículos.

Igualmente todos os militares seguiram a sua visão, tendo uma surpresa. Aquele homem contido não era o único infectado, haviam centenas de infestados ali, incontáveis até para eles.

— Recuem, recuem.- o Subtenente manda jogando o homem no chão.- Voltem para os carros, agora. Atirem se necessário.

Sobre a mira das armas aqueles seres infectados não recuam. Observo com espanto as pessoas se aproximando velozmente, igual aos animais carniceiros.

— Eu mandei não se mexer, Sanna.- meu pai diz vislumbrando minha figura manca, e corre recuando até mim, baixando a sua mão sobre os meus cabelos desgrenhados.- Tão teimosa, criatura.

— É natural.- respondo, reclinando-me sobre o seu toque, vendo a ferida sangrando no seu tornozelo.- Pai, está ferido! Como se feriu?!

A demonstração de afeto foi interrompida quando tiros for disparados. Os doentes estavam se aproximando cada vez mais.

— ARGH! GRRR!

— Papai?!- diante de mim ele cai no chão retorcendo-se de dor, cuspindo sangue fresco que pinta o chão.

Sem reação imediata, atento-me a arma engatilhada que tomo de sua mão. Hesito em disparar, mas ao ver o vermelho-carmesim saindo de seus lábios, a visão dos cães infernais retorna. Disparo precisamente em qualquer coisa que possa acertar, sem saber onde estou acertando.

— Pai, vamos! Temos que entrar!- dependurando-se nos ombros da filha, ambos nos apoiamos em direção ao veículo. Nisso, um cadete buscou dar cobertura passando a frente e atirando nos infectados.

— Vem, papai... você vai ficar bem...

— Sanna..., minha filha... foge...!!! ARRGH!!

Destilando mais sangue, ele se dobra sobre os joelhos no chão e incapacidada observo meu pai sofrer uma mutação perigosa. Recuo para trás abismada, mas não rápido o bastante para fugir do seu bote. Como um animal, meu pai salta para cima de mim envolvido pela loucura e desejo por carne.

Prendo seus dentes colocando a arma entre nós dois, mas claramente a diferença de força.

— Pai... para! Por favor, sou eu, sua filha...- não havia resquícios do homem que um dia ele forá. Só havia um monstro. Um monstro que eu não mataria.- Pai, por favor...- lágrimas escorrem.- Sou eu, a Sanna... você resgatou-me, não lembra?

Nada. Apenas rosnar e ranger de dentes atrás de mastigar algo. A cada novo impulso, mais perto os seus caninos chegavam do meu pescoço, e menos força restava-me.

— Eu te perdoo.- sussurro deixando a arma ser arrancada de mim. Fecho os olhos sentindo a pressão dos seus dentes na minha pele do meu rosto, mas a dor não chega.

— Fu-... fuja-arr...

— Pai!- levanto o seu rosto bem a tempo de ver uma bala atravessando a sua testa, e o seu corpo mole cair em cima de mim.

— Não, não, não, não! PAI!- desespero seria pouco para descrever aquela situação. Busco o revólver do coldre dele, e miro para a direção do disparo.

Mal engatilho a arma antes de alguém torcer o meu pulso e desarmar-me. Com fúria misturada ao luto tento atacar as cegas, sendo imobilizada em seguida.

— Não resista, Sanna!- o cadete solta o seu fuzil e corre até o corpo do meu pai, o jogando sobre as costas.- Vamos sair daqui.

— O meu pai... me solta! Você matou ele!- as lágrimas não são mais contidas, a vergonha de chorar em público não existe mais.

O agente que me prenderá, guarda a sua arma retirando um lenço e entregando a chorona eu, que a recusa firmemente. Suspirando exasperado, com um pouco mais de brutalidade ele esfrega o pano no meu rosto, mais misturando do que limpando aquela bagunça que estava ficando.

— Sanna!- a menininha grita do veículo, em pleno desespero a beira de lágrimas.- Volta, Sanna, volta! A senhora tem que voltar, não me deixa! Por favor...

Foi aí então que eu desmoronei. O agente segurou-me, abraçando o seu corpo no meu levou-me até a carroceria da menina. Pensando que seria disposta ali, nem sequer relutei ou observei o caminho, notando apenas no último instante que fui levada para um carro diferente. Carro dos agentes especiais.

Nele estava disposto o corpo coberto por um lençol cinza, responsável pelo derramamento das minhas lágrimas.

— Pode chorar... ninguém aqui está vendo. - talvez para confirmar suas palavras, ele olhou para cima oferecendo seu ombro. Observei, os outros agentes que subiam no camburão também pareciam não me ver ali. Tal gesto foi inesperado, gentil o bastante para acertar a ferida recém-aberta.

Naquele dia eu chorei tanto quanto jamais choraria na vida no ombro de um desconhecido. Mal sabia eu a próxima surpresa que o destino estava reservando.

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!