Longa noite

Jacob fez questão de pernoitar acordado para ajudar-me a vigiar Emma, que esteve febril durante todo esse período. Porém, sem qualquer traço de mutação.

— Será que ela tá bem?- ele questiona medindo sua temperatura mais uma vez.

— Eu não sei. Pelo que vimos na escola... ela deveria se transformar ao primeiro contato com um doente.- respondo, olhando minha própria mordida.- Coisa que deveria ser igual comigo.

— Não pense nisso...- ele tenta me confortar, mas sua boca deixa escapar um alto bocejo.

— Pode ir dormir se quiser.

— Não vou te deixar sozinha.- fala se pondo de pé.- Vou buscar algo para gente beber.

Meio preguiçoso ele sai da enfermaria. Rose ainda está fora trabalhando, então só temos a loira e eu. De repente ouço um barulho do lado de fora, vindo do corredor.

Resolvo seguir o som, vencida pela curiosidade. Assim que abro a porta alguém puxar-me para fora.

— Suzane?!

— É Suzan!- corrige-me rangendo os dentes.- O que você tá fazendo aqui?!

— Eu quem pergunto! Já passou da hora do toque de recolher!- digo afastando sua mão de mim.

— Não é da sua conta, caí fora!

Ela afasta-se marrenta saindo pisando forte pelo corredor. Na virada da esquina posso ver Rodolfo se juntar a ela e mais algumas meninas. O que será que eles estão...!

Desisto do plano de segui-los quando ouço a voz de Emma. Corro de volta para enfermaria ficando ao seu lado.

— San… na...

— Oi! Co-como esta se sentindo?

— Como... um purê de batata... batido com ódio.- reclama posando a mão na cabeça.- O que aconteceu? Por que eu tô...?

— É uma longa história. Descanse primeiro, vou pegar algo pra você comer.- ela acena voltando a fechar os olhos, e logo a sua respiração pesa.

Sigo para o refeitório, sendo acompanhada por fantasmas e ecos dos meus passos. Está tudo vazio. Nem mesmo os militares estão por aqui.

Na geladeira, busco algo apetitoso pra comer, antes de ouvir um grupo de risadas femininas vindo do lado de fora.

— Qual é... você não é mais criança pra ter tanta curiosidade! Você não vai lá!

E fui. Espio por trás da porta da cantina vendo um grupo de pessoas reunidas no estacionamento onde ficam os poucos carros funcionais. Um por um, eles vão subindo um caminhão e pulando o muro secretamente. Entre eles, Rodolfo e Suzan.

— Coisa boa isso não é.

Resolvo fazer os mesmos passos, somente para ver luzes piscando de dentro de um prédio próximo que está abandonado, do outro lado da rua. Mentira... uma boate no fim do mundo?!

Tentada pelo espírito de fuxiqueira, corro até lá. Assim que entro, vejo mais militares num lugar só do quê nas próprias missões de resgate. Céus... tem cheiro de chulé com vodka!

À um pequeno grupo vibrando de um lado, olhando algo acontecer. Ouço barulho de briga, e o outro lado do grupo vibra. Gente..., mas o que—?!

— Quê?!- embasbacada observo uma roda de luta, e Ferdinã esta nela.- Ele luta também?!

Apesar da sua perfeita forma, ainda á vividos hematomas com cortes sangrando. Que merda tá-!!

— Sanna!- Rodolfo surge do nada, me abraçando.- Mulher, onde você tava?! Nunca te vi por aqui!

— P-pois é, eu normalmente fico no escuro!- nunca nem vim aqui, pelo amor!

— Ele luta pra caramba né!- diz, apontando seu copo de bebida para o presidente.- Quem diria que ele era assim!

— P-pois é! Ele não aparentava ser do tipo que luta!

— Ele tá indo ótimo hoje, considerando o prêmio!- antes que eu responda, um nocaute é dado pelo próprio estudante, que deburra o homem duas vezes maior que ele no chão.

Encaro embasbacada, e como um imã seu olhar recai sobre mim, antes de sair da roda. Será que devo segui-lo?

— Eu... te vejo por aí, Rodolfo!

O barulho extenuante vai ficando para trás. Procuro o campeão antes de vê-lo receber algo de um soldado.

— Ferdinã!

— Era quem eu menos esperava ver aqui.- fala, vestido uma camisa cobrindo os seus hematomas.

— O que... por quê?! Você! Logo você!- ele me ignora andando para a rua, e não na direção do presídio.- Fala comigo, Ferdinã! O que tá rolando?!

— O que tá rolando?- bruscamente ele para, me encarando.- Eu vou embora desse lugar.

— E... por que faria isso?- questiono espantada.

— Julga que vão nos resgatar? Estamos a dias aqui e não a notícia nem mesmo de esquadrão de busca.- diz friamente, me olhando com desprezo.- Não vale a pena esperar com pessoas desprezíveis que acreditam que tudo vai melhorar!

— Por isso que você estava agindo como um animal ali dentro?- digo, vendo-o expressar nada além de indiferença.- Eu tenho muito mais motivos que você para ir embora daqui, Ferdinã. Não viu o que eu vi!

— Então vem comigo.- ele agarra minha mão de repente. Que?!- Vi que o seu pai lhe ensinou como ser uma mulher de princípios e forte que não espera pelos outros. Não é igual a esses inúteis.- acrescenta direcionando olhar para a boate.- Podemos cuidar um do outro.

— Eu não posso.- respondo retirando a minha mão da sua. Poderia falar que à pessoas que eu quero manter viva, ou que prefiro aguardar por resgate, mas a verdade é mais que isso. E Ferdinã não deve saber.

Mantenho o meu olhar fixo no seu de julgamento, antes que ele suspire exasperado se afastando.

— Imaginei que fosse tola como eles.- dito isso suas costas se viram, e seus passos o levam para outra rua.

Estoica, observo por alguns momentos antes de recuar e ir embora, retornando para o presídio. Meu pai derramou sangue por essa gente tola, Ferdinã, você não entenderia se eu te contasse.

Essas lutas ocorrem... deve haver prêmios por trás. Em algum momento eu voltarei, se necessário.

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