Através de uma intenção suspeita

Incansavelmente, trabalho minha recuperação. Os dias se passam rápidos quando a mente está ocupada, o corpo mal pára para sentir dor enquanto o foco segue.

Enfrente a um espelho meio quebrado, observo as marcas roxas já inexistentes nas costelas, há apenas uma leve vermelhidão sobre a cintura. Pressionando com os dedos, já não sinto dor como antes.

— Está se recuperando bem!- Rose fala, entrando. Seu sorriso não esconde as orelhas de noites em claro no trabalho voluntário. Ainda assim, ela faz questão de ver como estou todos os dias no mesmo horário sem falta.

— Não posso dizer o mesmo de você.- Rose ri descartando isso com um movimento sutil de mão.- O que te traz aqui? Eu disse ontem que...

— Ah, eu sei que está melhor. Achei isso no meio dos produtos coletados na cidade.- quase todos os dias, grupos de expedições saem do presídio para buscar mantimentos e sobreviventes. Rose trabalha ajudando a organizar as coisas do lado de dentro, aqui, pra que não vire um caos.

Levemente surpresa observo em suas mãos, uma velha flauta de bambu. Apesar da aparência desgastada, é possível ver que ainda deve funcionar.

— Lembro de que quando criança, você tocava alguns instrumentos de sopro. Elder costumava falar que era melhor ouvir o nosso barulho–

— Do que o barulho da sua cabeça.- completo. Queria ter entendido mais cedo que os traumas da sua vida de fuzileiro te acompanhavam, papai.

Com nostalgia visível, pego o instrumento. Leve, frágil. De som hipnotizante. Aprendi a tocar por pouco tempo, antes das mudanças de cidade e escolas de antigamente.

— Obrigado.- é tudo que consigo dizer. Rose é paciente, não é de pressionar, nunca foi. Seu sorriso segue sincero como quando um dia me ofereceu sua amizade na infância. Apesar do pecado que cometeu... ela busca redenção comigo. Eu sinto isso.

O sol nos guia através do tempo, já que relógios não duram muito aqui sem uma nova bateria. Agora, no túmulo vazio do Elder, sento no chão recostada na cruz que leva seu nome.A flauta segue no meu colo.

— Será que sua alma pode me ouvir, pai?- suspiro olhando as nuvens passando no céu.

— Como cientista eu diria que não.- espanto-me olhando para trás, vendo um homem de jaleco branco entrar pelo portão. O susto foi tanto que ao tentar me levantar rápido, a flauta voou acertando suas pernas.

— Você...

— Sou Martin Fonseca, e como disse, não acredito em almas.- com um sorriso discreto, ele me estende a flauta de volta. Mantenho a neutalidade o máximo que posso para mao entregar, que já o conheço.- Não aparenta ser do tipo musical.

— E você não aparenta ter 40 anos.- refuto.

— Touché.- ele ri suavemente se agaixando do outro lado do túmulo.- Era alguém importante?- confirmo.- Bom... talvez ele te ouça.

— Ah?- pisco várias vezes, confusa.

— A flauta.- diz, se endireitando de pé.

— Disse não crer em almas...

— Talvez eu esteja errado quanto a essa existência. Até mesmo velhos de 40 anos erram.- sorrio com seu tom descontraído.- Um pouco de música nesse mundo de caos, pode ser um alívio.

Apesar de não o fazer, aquilo parece uma súplica de misericórdia. Uma ilusão de paz através do sopro melódico de um pequeno objeto.

Quando dou por mim, meus pulmões já estão emitindo vento sobre os furos. Com habilidade anteriormente esquecida, meus dedos dedilham com exatidão. Fazia tempo que tal som não era proferido por mim, papai gostava de ouvir eu tocar

... se você puder me ouvir... saiba que é para você está música. Você pode me ouvir, papai?

A emoção preenche meu fôlego, quase transformando a música em um canto de dor. Silenciosamente as nuvens assistem minha alma desbotar a cada sonoridade emitida aos ventos frios.

Está conseguindo me ouvir aí de cima?

— Sim.- a flauta cai das minhas mãos, quando um abraço repentino me acerta. Por um momento penso ser o cientista, mas o torso pequeno de dedos finos que me rodeiam desmentem isso.

— Não chora, Sanna! Não chora!- Emma diz, mas quem está chorando é ela. Afago seus cabelos abafando seu choro escandaloso no calor do afeto sem jeito. Noto que o homem nos observa com atenção.

— As vezes, chorar é tudo que alivia.- Martin pronuncia, pousando a mão na minha cabeça. O encaro vendo-me refletida naquele olhar inerte. Sem se deter, ele baixa a mão até minha bochecha onde sinto uma textura fina e aderente a oleosidade do meu rosto ficar ali. Nisso, o alcanço sentindo sua pele retrair para longe de mim, e puxo o objeto para meu colo notando que é um cartão.

Ele vai embora tão discretamente como chegou. Sem nenhuma outra palavra ou explicação, deixando aquilo nas minhas mãos.

— Emma.- ela se afasta enxugando as lágrimas com a manga da camisa.- Vá para dentro, está quase na hora do rango.- ela confirma se pondo de pé, mas se detém ao ver o item na minha perna.

— Um cartão?- tento o esconder, porém, ela já o avistou.- Eu vi... os homens de verde usando isso...

— Sério?!- digo exageradamente a segurando.- Onde viu jsso? Pode me mostrar?!

Como se na sua visão, uma oportunidade surgisse, ela acente veemente. De mão pendurada na minha, a loira me puxa correndo dali. No ato, a flauta cai encima do túmulo de Elder.

Os homens de verde ditos, são os poucos soldados e agentes que vagam por aqui garantindo nossa proteção. A criança estava certa, ambos possuem um cartão idêntico a esse que libera passagem por uma porta bem escondida na parte de trás do edifício penitenciário.

Assim que o local está limpo, corro para a porta e abro vendo que leva até um elevador. Penso em dispensar a menina, mas um militar aleatório surge impedindo isso.

Com o cartão no scanner, o elevador funciona descendo e descendo ao que presumo ser andares abaixo.

As luzes são diferentes no andar que paramos. Não á nada além de um corredor em linha reta com luzes piscando. A cor carmesim nos guia pelo caminho estreito. De repente, saímos numa localidade vazia cheia de grades pelo que aparentam ser de celas.

— Mas que merda é essa?- resmungo puxando Emma protetoramente para atrás de mim.

Subitamente as luzes se desligam. Busco guia tateando as barras de ferro mas ao dar alguns passos, algo um par de dedos fortes me puxam pelas grades fazendo meu corpo se chocar contra os frios ferros dr forma violenta.

— SANN--!!- cubro a boca dela com a outra mão enquanto luto contra o que me puxa, antecedendo um desastre.

Como se foram, as luzes retornam iluminando o local. Pasmo ao ver Augusto em sua forma monstruosa infectada me puxando. Como um animal ele rosna ao me ver, antes de cravar seus dentes no meu braço.

Contorcendo-me de dor, uso impulso dos pés, tentando me libertar. Emma por teimosia se aproxima da cela para tentar me puxar também, isso atrai a atenção do monstro. De repente ele me solta e pela potência do puxão caio longe, dando tempo para que agarre a menina.

Em choque ela observa paralisada a criatura morder seu ombro e fazer sangue expelir da ferida. Reajo esquecendo minha dor, acertando com chutes a cabeça do rapaz, conseguindo por fim a tirar dali.

— Emma!!- rasgo a manga da sua camisa e amarro na ferida, ainda não tendo reação dela.- Emma!- seus olhos seguem vidrados em transe. Minha atenção vacila por um momento, quando Augusto graceja de forma estranha caindo no chão.

Em tremendo pavor, pego-a no colo e corro de volta ao elevador, mas detenho meus passos ao vê-lo de longe se abrir. Pela fresta lenta noto Martin aparecendo.

Fico ali sem ter o que fazer, quando uma mão agarra meu ombro e me puxa na outra direção. Atonita, nem reclamo ao ver o agente stalker me puxar para outra saída.

Saímos rapidamente por uma escadaria que leva até exato andar onde fico, a enfermaria.

— Seja um túmulo vazio.- ele diz empurrando a flauta no meu bolso de trás da calça, e retornando pelo mesmo caminho que viemos.

Entro na enfermaria deitando logo a garota na maca, para cuidar dos seus ferimentos. Não dura muito para eu estar frente ao espelho do banheiro, limpando a mordida do meu braço tentando manter as ideias no lugar.

— Merda, merda!

— Sanna, por que a Emma tá dopada na cama?!- Jacob invade o lugar sem avisar, fazendo-me cobrir o braço de forma suspeita.- Sanna, olha pra mim!- ele me vira de frente, ficando pasmado pela palidez visível do meu rosto.

— Cala a boca.- peço fechando a porta.- Nem pergunte!

— Peça pra uma parede andar, que é mais fácil de obedecer!- refuta agarrando meu braço com a faixa solta encima.- O que... isso é uma mordida...?- á hesitação no seu toque.

— É, pois é.- rio sem graça.- Vá contar aos outros, talvez eles me levem como fizeram com Augusto e eu nunca mais volte... é o melhor pra não ter... mais infecções?- o observo, surpresa com seus dedos terminando de enfaixar o ferimento.

— Não vou deixar ninguém te levar.- fala, com determinação queimando nos olhos.- Te perdi uma vez por tolice, aceito sua rejeição por isso se for para te ter ao alcance dos meus olhos.

Emocionada, vejo-me refletida nos seus olhos claros, como quando no dia em que me confessou seu amor. Im espelho que mostra minha alma. Os segundos trazem uma enorme vontade descomunal de beija-lo sem pensar duas vezes, mesmo com a cabeça avisando que não é mais certo. Ele já não é mais meu.

Através de um único suspiro, não a mais espaço entre nossos lábios. Percebo na sua urgência, o mesmo desejo descontrolado wue a em mim. Seu beijo segue cheio de desejo como sempre esteve durante os anos que estivemos juntos, e mesmo agora, segue igual.

De repente, uma batida na porta nos separa.

— Sanna?- é a Rose.- O que aconteceu com a Em... ma?- seus olhos percorrem nós dois através da porta aberta, com um certo desconforto.- Ela está sedada! Quem fez isso com a menina??

— Eu.- sorrio mostrando culpa.

— Céus... você é louca.- diz ela, me tirando do banheiro.- O que foi isso no seu braço?!

Invento uma desculpa esfarrapada, ao qual Jacob sustenta. Ainda não posso revelar o que vi, Martin planejou isso, eu sei. Mas, por que?

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