O mentor misterioso

A chuva caía fina e silenciosa sobre a cidade quando Kenji atravessou a rua apressado, os passos ecoando nas calçadas molhadas. O cartão misterioso que recebera mais cedo estava enfiado no bolso, e ele o segurava com força como se fosse um bilhete dourado para a fortuna.

O endereço o levou até um prédio antigo, de fachada desgastada, onde apenas uma placa discreta indicava: **"Consultoria Financeira Shojikama"**. Ele hesitou antes de empurrar a porta.

Lá dentro, um homem de terno preto e olhar penetrante o esperava atrás de uma mesa repleta de papéis bagunçados. O ambiente tinha um cheiro leve de incenso, e uma xícara de chá fumegava ao lado de um computador desligado.

— Você veio. — Shojikama ergueu os olhos e sorriu enigmaticamente.

— Você disse que pode me ajudar a ganhar meu primeiro milhão… Mas ninguém nunca ouviu falar de você.

— O verdadeiro sucesso não se anuncia, Kenji. Ele apenas acontece.

Kenji franziu a testa.

— Isso não faz sentido.

— Exato! — Shojikama bateu as mãos na mesa. — O sentido é uma prisão! Se quer fazer um milhão, precisa esquecer o sentido. Vamos começar. Quanto dinheiro você tem agora?

— Duas mil ienes.

— Excelente. Vamos gastá-las imediatamente.

— O quê?!

Shojikama pegou um isqueiro e acendeu um cigarro que ele nem sequer colocou na boca. Apenas segurou, deixando a fumaça subir em espirais.

— Vá até o mercadinho da esquina. Compre todas as cebolas que conseguir.

Kenji hesitou, mas algo no olhar do mentor o impediu de recusar. Quinze minutos depois, voltou carregando sacos de cebola.

— Ótimo. Agora, vamos ao mercado de ações.

— Vamos vender as cebolas na bolsa?

— Pior. Vamos enterrá-las.

— O QUÊ?

Shojikama já estava saindo pela porta, e Kenji teve que correr atrás dele. O empresário o levou até um terreno abandonado e começou a cavar com as mãos.

— Depressa, Kenji! O tempo é dinheiro!

— Isso é insano!

— Exato! Agora enterre as cebolas.

Kenji, atordoado, obedeceu. Quando terminaram, Shojikama limpou as mãos na calça e sorriu satisfeito.

— Agora esperamos.

— Esperamos o quê?

— Oportunidade.

Nos dias seguintes, Kenji se viu envolvido nos planos bizarros de Shojikama. Primeiro, o mentor fez com que ele usasse roupas vermelhas e ficasse parado na frente de um banco por três horas.

— Por quê? — Kenji perguntou, exausto.

— Porque em algum momento, alguém vai te notar. E a atenção vale mais do que dinheiro.

No dia seguinte, um homem de terno se aproximou.

— Você é aquele cara das cebolas?

— O quê?

O homem lhe entregou um cartão.

— Preciso de um consultor criativo. Seu marketing é brilhante. Me ligue.

Kenji olhou para Shojikama, perplexo.

— O que foi isso?

— Sorte.

— Isso não faz sentido!

— Exato!

Assim se seguiu. Shojikama o fez colocar um anúncio no jornal oferecendo "Consultoria Estratégica para Estratégias Consultivas". Logo, um empresário desesperado ligou, achando que era algum segredo do mercado.

— Eu preciso disso. Quanto custa? — ele perguntou.

— Quanto você pode pagar? — Shojikama respondeu.

— Dez mil dólares.

Kenji quase engasgou.

— Feito! — Shojikama apertou a mão do homem.

Quando saíram, Kenji ficou olhando para ele como se fosse um mago.

— Isso não pode estar acontecendo.

— Ah, mas está.

— Como?!

— Você aprendeu a regra de ouro.

— Qual é?

Shojikama deu uma tragada imaginária em seu cigarro apagado.

— Confusão gera curiosidade. Curiosidade gera atenção. Atenção gera dinheiro.

— Isso é…

— Não diga "sem sentido", Kenji. Você já sabe a resposta.

Nos meses seguintes, Kenji ficou milionário. Não porque entendia os negócios, mas porque ninguém entendia ele. Ele se tornou um mito no mundo financeiro. O homem das cebolas. O consultor misterioso.

Um dia, voltou ao escritório de Shojikama.

— Você sabia que isso ia acontecer.

— Não.

— Como assim?!

— Eu só joguei cebolas ao vento, Kenji. Você colheu o que cresceu.

— Mas você não pegou nada disso para si.

Shojikama riu.

— Eu já sou rico, Kenji. O verdadeiro prazer da riqueza não é ter dinheiro. É ver o caos que ele cria.

Kenji suspirou.

— Você é insano.

— Exato. Agora, me conte… Quer plantar batatas?

Kenji passou a mão no rosto, tentando entender onde sua vida tinha ido parar. Há seis meses, era apenas um jovem frustrado tentando encontrar um caminho no mundo dos negócios. Agora, era um milionário que ninguém conseguia explicar.

— Batatas? — ele repetiu, incrédulo.

Shojikama girou a xícara de chá entre os dedos e sorriu como se soubesse de algo que Kenji jamais compreenderia.

— Cebolas foram apenas o começo. Batatas são o próximo nível.

— Isso envolve cavar buracos de novo?

— Depende. Como está seu instinto para oportunidades?

Kenji abriu a boca para protestar, mas fechou. Depois de tudo que passou, sabia que questionar Shojikama era inútil.

— Tá bom. O que eu faço agora?

Shojikama levantou-se e pegou um envelope grosso em cima da mesa. Entregou-o a Kenji.

— Aqui tem cinquenta mil dólares. Vá até um cassino e aposte tudo no vermelho.

Kenji arregalou os olhos.

— Isso é ridículo!

— Mais ridículo do que enterrar cebolas?

Ele não podia argumentar contra isso.

Naquela noite, Kenji entrou no cassino de terno, com o coração batendo na garganta. Sentou-se à mesa da roleta e jogou tudo no vermelho. A roleta girou, os segundos pareceram uma eternidade. A bolinha caiu no vermelho.

Cem mil dólares.

Ele exalou, tremendo. Shojikama, que tinha aparecido do nada, deu um tapinha em seu ombro.

— Agora, pegue esse dinheiro e compre todas as batatas doces que encontrar.

— O QUÊ?

No dia seguinte, Kenji estava cercado por sacos de batata-doce em um depósito alugado.

— O que eu faço com isso? — perguntou, exausto.

Shojikama acendeu outro cigarro que nunca fumava.

— Esperamos.

Duas semanas depois, um programa de TV anunciou que uma celebridade fitness japonesa estava promovendo uma dieta baseada exclusivamente em batata-doce. De repente, o preço do tubérculo disparou. Kenji vendeu tudo e triplicou seu dinheiro.

— Isso não é real — ele murmurou, olhando para o extrato bancário.

Shojikama riu.

— O que é "real", Kenji?

Kenji o encarou.

— Você sabia disso?

— Eu não sei nada. Eu apenas crio o caos e vejo o que acontece.

Kenji passou a mão no cabelo, rindo de nervoso.

— Tá. Qual o próximo plano?

Shojikama tomou um gole de chá.

— Galinhas.

— Galinhas?!

— Galinhas.

Dois meses depois, Kenji possuía a maior fazenda de galinhas da região, e, por um acaso completamente absurdo, um decreto proibiu a importação de frangos do exterior. Os preços dispararam. Kenji ficou ainda mais rico.

— Isso já passou do absurdo — ele disse a Shojikama, enquanto bebiam chá no escritório.

— Agora você entende.

— Entender o quê?

Shojikama sorriu de lado.

— Que a lógica é uma ilusão. As oportunidades são para quem não teme o caos.

Kenji olhou para o horizonte. Pela primeira vez, sentiu que compreendia.

— Qual é o próximo passo?

Shojikama deu uma última tragada imaginária.

— Agora, Kenji… Agora, você ensina os outros.

E assim, o caos continuou.

Kenji olhou para Shojikama, tentando entender o que ele realmente queria dizer. Ensinar os outros? Ele mal entendia como havia chegado ali. Mas, de alguma forma, sabia que não adiantava questionar.

— E como eu faço isso? — perguntou, cruzando os braços.

Shojikama sorriu de lado.

— Você já sabe. O caos não pode ser ensinado, Kenji. Apenas conduzido.

Kenji suspirou, olhando para o escritório de Shojikama. Havia algo nele que sempre parecia fora do tempo, como se estivesse em um lugar entre o real e o imaginário.

— E se eu falhar?

Shojikama riu.

— O erro é um conceito frágil. Só existe falha se você acreditar que há um caminho certo. Mas não há.

Kenji ficou em silêncio.

Nos meses seguintes, ele começou a aceitar seguidores. Jovens empreendedores que o viam como um visionário. Ele lhes dava conselhos tão confusos quanto os que recebera de Shojikama. Alguns falhavam, outros inexplicavelmente prosperavam.

Então, algo estranho aconteceu.

Shojikama desapareceu.

O escritório estava trancado. O telefone, desligado. Não havia registros de sua empresa. Kenji tentou encontrá-lo, mas era como se nunca tivesse existido.

Ele ficou inquieto. Começou a questionar tudo. Teria Shojikama sido real? Teria sido apenas um delírio, um arquétipo de sua própria loucura?

Uma noite, ao sair de um evento onde discursava sobre "A Arte de Perder-se para se Encontrar", recebeu um envelope. Sem remetente.

Dentro, apenas um bilhete escrito à mão:

"O caos nunca morre, Kenji. Agora, ele vive em você."

Kenji segurou o papel, sentindo um arrepio. Olhou ao redor, mas não havia ninguém.

Suspirou e sorriu.

— Exato.

Kenji guardou o bilhete no bolso, o coração batendo forte. Shojikama desaparecera, mas o caos que ele criara ainda ecoava. Kenji era a prova viva disso.

Ele caminhou pelas ruas da cidade, refletindo. Tudo parecia diferente agora. Ele, um simples jovem que buscava um milhão, agora possuía impérios que não conseguia explicar. O caos havia lhe dado tudo… Mas também havia lhe tirado seu mentor.

Foi então que notou algo. Do outro lado da rua, um homem de terno preto segurava um cigarro que nunca fumava. Ele estava ali, parado, observando.

— Shojikama…? — Kenji murmurou, sentindo um arrepio.

O homem sorriu de lado, deu um leve aceno de cabeça… e desapareceu na multidão.

Kenji ficou parado por um longo tempo, olhando para o vazio.

Então, sorriu.

Shojikama nunca se fora. Ele estava certo. O caos nunca morre.

Respirou fundo e pegou o telefone.

— Alô? Sim, sou Kenji. Tenho uma proposta para você… Você já ouviu falar sobre plantar cebolas?

Kenji desligou o telefone e respirou fundo, olhando para o horizonte da cidade iluminada. Ele sabia o que precisava fazer.

No dia seguinte, reuniu seus seguidores, jovens empreendedores ansiosos para aprender seus métodos. Olhou para eles e sorriu.

— Vocês vieram aqui buscando um caminho certo para o sucesso — ele disse, pausadamente. — Mas eu vou dizer algo que talvez não gostem de ouvir: não há caminho certo.

Os olhares confusos à sua frente o fizeram rir. Ele se lembrou de si mesmo meses atrás, perdido, buscando respostas racionais para algo que nunca foi racional.

— O que eu aprendi com Shojikama — continuou — é que o mundo pertence àqueles que abraçam o inesperado. Se querem ficar ricos, esqueçam fórmulas. Abram espaço para o absurdo. Sigam a intuição, mesmo que ela pareça uma loucura.

Um dos jovens ergueu a mão.

— Mas… e se falharmos?

Kenji sorriu.

— Se você chamar de falha, então falhou. Se chamar de experiência, então aprendeu.

Silêncio. Então, um por um, os olhares mudaram. Alguns ainda estavam céticos, mas outros pareciam entender.

Kenji saiu da sala com um sentimento estranho. Não sabia se estava ensinando algo ou apenas perpetuando o mistério que Shojikama havia iniciado. Mas uma coisa era certa: ele não precisava mais de respostas.

Dias depois, recebeu outro envelope sem remetente.

Dentro, uma única semente de cebola.

Ele riu.

Shojikama nunca se fora.

Respirou fundo, pegou a semente e, sem hesitar, plantou-a no chão.

O caos nunca morre. Ele apenas renasce.

Fim

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