No coração de uma cidadezinha pacata, onde nada de extraordinário costumava acontecer, havia uma fábrica peculiar. Diferente das tradicionais linhas de produção impecáveis e bem organizadas, essa era um caos completo – engrenagens espalhadas pelo chão, pedaços de plástico pendurados no teto e máquinas que pareciam estar ali mais por decoração do que por funcionalidade.
No centro desse pandemônio criativo estava Harutima, um inventor excêntrico, de cabelo desgrenhado e óculos sempre tortos, que trabalhava incansavelmente em suas "invenções revolucionárias". A única questão era: nenhuma delas funcionava direito.
– Bartolomeu! – gritou Harutima, segurando um dinossauro de pelúcia que tremia violentamente. – Olha só essa maravilha! Ele foi programado para rugir, mas acidentalmente programei para ronronar como um gato!
Bartolomeu, seu sócio e eterno desesperado, massageou as têmporas.
– Harutima… quem vai querer um dinossauro que ronrona?
– Crianças com imaginação, meu caro! – respondeu Harutima, entusiasmado.
Ao lado da mesa, um carrinho de corrida esperava para ser testado. Bartolomeu decidiu experimentá-lo. Ele ligou o motor, e o carrinho disparou… para trás.
– Ah, esqueci de inverter os circuitos – comentou Harutima, rindo.
Bartolomeu sentiu uma palpitação no peito. Eles estavam à beira da falência.
O escritório de Bartolomeu era o único canto organizado da fábrica. Ele olhava os números de vendas no computador, e o saldo negativo piscava como um neon acusador.
– Harutima, precisamos de um brinquedo normal. Algo funcional!
– Ah, mas que graça teria? – rebateu Harutima. – Eu fiz um avião incrível!
Ele puxou um protótipo de avião de brinquedo.
– Esse é especial! Ele voa para baixo!
– Então ele não voa, ele cai! – exclamou Bartolomeu.
– Isso é uma questão de perspectiva! – disse Harutima, animado.
Bartolomeu jogou a cabeça contra a mesa. O fracasso era iminente.
Sem outra opção, Bartolomeu decidiu pelo menos tentar vender o estoque encalhado. Ele organizou um evento no parque local e ofereceu os brinquedos gratuitamente para as crianças testarem.
Para sua surpresa (e horror), as crianças adoraram.
– Esse carrinho que anda para trás é perfeito para fugas de ladrões imaginários! – gritou um menino.
– O avião que cai é ótimo para batalhas espaciais! Ele é um meteoro! – disse uma garota, jogando o brinquedo para o alto.
– O dinossauro que ronrona é tão engraçado! Ele é um dinogato! – outro garoto riu, abraçando a pelúcia.
Bartolomeu assistiu, chocado, enquanto a notícia se espalhava. Em poucos minutos, pais começaram a perguntar onde podiam comprar aqueles brinquedos "inovadores".
Em questão de dias, a Fábrica de Brinquedos Rejeitados virou um fenômeno. Filas se formavam para comprar os brinquedos que não funcionavam direito, e a mídia adorava a história do inventor genial e sem noção.
– Como surgiu essa ideia brilhante? – perguntou um repórter.
– Eu só queria me divertir! – respondeu Harutima, sorrindo, sem entender muito bem o que estava acontecendo.
Bartolomeu, ainda perplexo, começou a aceitar o sucesso. O faturamento explodiu.
Com o sucesso, vieram desafios inesperados. Empresas tentaram copiar os brinquedos, mas falharam. Nenhum concorrente conseguia recriar o "charme do erro" que fazia os brinquedos de Harutima tão especiais.
– O que fazemos agora? – perguntou Bartolomeu, ainda meio incrédulo.
Harutima já estava ocupado em sua próxima invenção: um robô que só respondia perguntas erradas.
– Como você está? – perguntou Bartolomeu.
O robô respondeu:
– Banana!
As crianças aplaudiram.
– Isso nunca vai acabar, né? – suspirou Bartolomeu.
A cidade agora comemorava anualmente o "Festival dos Brinquedos Rejeitados", onde novas criações absurdas eram apresentadas ao público.
No palco principal, Harutima exibia seu mais novo invento: um telefone de brinquedo que, quando discado, chamava números aleatórios.
Bartolomeu pegou o microfone.
– Senhores e senhoras, contra todas as probabilidades, nossa fábrica prosperou! Então, um brinde… ao erro mais bem-sucedido da história!
E a multidão aplaudiu, enquanto crianças brincavam felizes com brinquedos que ninguém mais teria ousado vender.
Após o estrondoso sucesso do festival, Harutima mergulhou ainda mais fundo em sua missão de criar brinquedos que desafiavam a lógica. Bartolomeu, já conformado com o fato de que a fortuna da empresa vinha justamente dos erros, agora só tentava limitar os danos.
Certo dia, Harutima surgiu com um protótipo coberto por um pano.
– Bartolomeu, prepare-se para testemunhar o futuro dos brinquedos!
– Isso me preocupa profundamente… – murmurou Bartolomeu.
Harutima puxou o pano, revelando um boneco chamado "Zé Confusão".
– Parece um boneco comum – disse Bartolomeu, esperançoso.
Harutima sorriu e apertou um botão no peito do boneco.
– **"Boa noite! Hoje é quarta-feira!"** – disse o boneco, embora fosse segunda de manhã.
Bartolomeu franziu a testa.
– Ele fala frases erradas de propósito?
– Exato! É o primeiro boneco que nunca acerta uma resposta!
Bartolomeu pegou o boneco e testou novamente.
– Qual é o seu nome?
– "Eu sou um abacaxi!"
Bartolomeu enterrou o rosto nas mãos.
– Você inventou um boneco que confunde as crianças?
– As crianças adoram confusão! – disse Harutima, empolgado. – O mundo já está cheio de brinquedos que ensinam coisas certas. Por que não um que ensina a lidar com o inesperado?
Bartolomeu queria argumentar, mas, considerando o histórico recente da empresa, sabia que resistir era inútil.
Como esperado, as crianças adoraram o brinquedo.
– Ele é incrível! – exclamou um menino. – Perguntei quanto é 2 + 2 e ele disse "peixe"!
– Eu perguntei onde eu moro e ele falou "Marte"! – riu uma menina.
Os pais, no entanto, ficaram divididos. Alguns achavam hilário, outros estavam convencidos de que o brinquedo poderia confundir seus filhos para sempre.
O debate chegou à televisão. Especialistas discutiam se o boneco era uma genialidade ou um perigo educacional. Isso, claro, só fez com que as vendas disparassem.
Bartolomeu, assistindo a uma reportagem sobre o sucesso do boneco, balançou a cabeça.
– Eu desisto. O mundo enlouqueceu.
Com a fama da fábrica crescendo, grandes redes de brinquedos começaram a procurar Harutima para parcerias.
– Harutima, temos uma proposta para exportar seus brinquedos para todo o mundo! – anunciou Bartolomeu, tentando conter sua incredulidade.
– Maravilhoso! – Harutima respondeu. – Mas antes, quero lançar meu novo brinquedo…
Bartolomeu engoliu em seco.
– …um quebra-cabeça impossível de montar!
– Como assim?
Harutima pegou uma caixa cheia de peças de formatos estranhos.
– As peças não se encaixam! Nenhuma delas! É um quebra-cabeça sem solução!
Bartolomeu respirou fundo.
– E por que alguém compraria isso?
– Porque a vida não tem respostas fáceis, Bartolomeu. As crianças precisam aprender a frustração desde cedo!
Bartolomeu suspirou.
– Tá. Lança logo isso.
Como esperado, o "Quebra-Cabeça do Desespero" foi um sucesso estrondoso.
Enquanto a Fábrica de Brinquedos Rejeitados prosperava, outras empresas tentavam copiar a ideia. Mas nenhum concorrente conseguia reproduzir o "charme do erro".
Uma grande empresa lançou um boneco similar ao "Zé Confusão", mas ele errava de maneira previsível, tornando-se chato rapidamente. Outra tentou criar um carrinho que andava para trás, mas ele era tão bem feito que acabou sendo útil como carro de ré.
Enquanto isso, Harutima continuava inovando. Seu próximo brinquedo era um cubo mágico onde todas as cores eram iguais, impossibilitando qualquer solução.
– Esse vai vender muito! – disse Bartolomeu, agora já abraçando o caos.
E vendeu.
Com milhões em caixa, Harutima e Bartolomeu foram convidados para abrir uma nova fábrica na Europa. Harutima aceitou, mas com uma condição: a fábrica teria que ser projetada de forma completamente ilógica, com portas que davam para paredes e escadas que não levavam a lugar nenhum.
Bartolomeu apenas riu.
– Depois de tudo, eu já devia esperar por isso.
E assim, a Fábrica de Brinquedos Rejeitados continuou sua missão gloriosa de desafiar o senso comum, provando que, no mundo do entretenimento, o erro pode ser a maior forma de acerto.
O tempo passou, e a Fábrica de Brinquedos Rejeitados se tornou um verdadeiro império do absurdo. Harutima, agora uma celebridade mundial, era convidado para palestras sobre criatividade e inovação – embora ele jamais seguisse qualquer roteiro e acabasse divagando sobre temas como "a importância de escovar os dentes ao contrário" ou "por que as tartarugas deveriam usar sapatos".
Bartolomeu, por outro lado, aceitara seu destino. Ele parou de se perguntar por que as invenções absurdas de Harutima faziam tanto sucesso e, em vez disso, dedicou-se a garantir que a fábrica não desmoronasse – tanto figurativamente quanto literalmente, já que Harutima insistira em construir uma nova ala onde as portas só levavam para outras portas.
O ápice do sucesso veio quando um renomado museu de brinquedos organizou uma exposição inteiramente dedicada às criações de Harutima. Crianças e adultos riam e se maravilhavam ao ver os brinquedos que desafiavam qualquer lógica. O dinossauro de pelúcia imóvel virou uma relíquia, o carro que andava para trás teve uma fila de visitantes querendo testá-lo, e o "Quebra-Cabeça do Desespero" ganhou um prêmio por "melhor brinquedo educativo", já que supostamente ensinava "paciência e aceitação da frustração".
No grande evento de abertura da exposição, Harutima subiu ao palco para fazer um discurso. Bartolomeu, temendo o pior, segurou a respiração.
– Meus amigos, – começou Harutima, emocionado – quero agradecer a todos por entenderem algo que eu mesmo só percebi recentemente: o erro não é um defeito. O erro é o próprio jogo!
O público explodiu em aplausos. Bartolomeu soltou um longo suspiro.
– Bem, se tem algo que aprendi, é que não adianta lutar contra isso.
E assim, entre risos, caos e brinquedos que ninguém entendia, a Fábrica de Brinquedos Rejeitados seguiu seu caminho glorioso. Harutima continuou criando, Bartolomeu continuou tentando evitar catástrofes, e as crianças continuaram brincando – porque, no fim das contas, a única regra que realmente importava era se divertir.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 23
Comments