casa

Uma casa fechada a quase 10 anos, uma reforma deixada pela metade, claro que aquelas peças não se encaixavam, puxando pela memória lembro o quanto foi estranha a primeira e única visita

Antes de fechar o negócio, os olhares do vizinho da frente, a rodinha cochichando na birosca da esquina, sim, sinais, percebi, mas era uma vila que se chamava caicó, com certeza não gostavam de forasteiros

Minha maior preocupação, era ter um bom sinal de internet, se não tivesse sucesso, tudo estaria perdido

Lembro que cheguei num sábado de garoa, já passava das 18:00, saí do táxi com apenas duas malas, a casa estava quase toda reformada, o antigo proprietário tinha voltado às pressas para portugal, assuntos de família, assim tinha dito o corretor

Estranhei o olhar do taxista encarando a casa e mostrando sua feição de negativa

O que foi amigo?

Casa grande da bixiga, vai morar aí sozinho?

Sim

Eu não teria coragem, de jeito nenhum

Amigo, o quê me assusta nessa vida, são contas à pagar, fantasma é coisa de criança, os vivos que são os vilões da história

Sim concordo com você, mas sei lá, sozinho, na casa, não é nada saudável, espero que caia na real o mais rápido possível

na real? Não entendi

vai entender

O taxista saiu assustado, sim, a casa era meio medonha, escura, o reboco inacabado, mostrava suas entranhas de lajota, parecia uma casa ferida

Me surpreendi, por dentro estava bem ajeitada, nada de ferramentas, sacos se cimento, ou um infeliz cheiro de fossa que atormentou minha visita, até tentei ligar para o corretor, mas sem sucesso, um péssimo sinal

Um sobrado que parecia dar o dobro de tamanho por dentro, sala espaçosa, com o tradicional piso taco de madeira, os papéis de parede não só eram cafona, como davam a ela, uma impressão de velha, antiga, a cozinha realmente tinha que mudar muito, não tinha ventilação alguma

Subi, e claro que três quartos também não fazia o menor sentido, de cara visualizei uma sacada maior, a vista dos quartos não era nada agradável, do lado esquerdo, o quarto perto da escada, mostrava um terreno baldio e um enorme matagal, já os outros dois a visão sim, tinha o terreno baldio, só não o matagal

A noite foi avançando e eu não tinha notado, mas na geladeira tinha suco, refrigerante, frios e pão integral, a gentileza do corretor foi pra lá de profissional

Sentado naquele banco de madeira medonho, olhando para um piso que implorava para sair dali, o poluidor de visão, com sua irritante simetria em azul e branco, dava nos nervos, azulejo xadrez é horrível, é medonho

Vendo que ainda era cedo, resolvi sair, queria conhecer a vizinhança, ter a real certeza de que os olhares estranhos não passaram de um mal entendido

Cheguei na birosca e foi 0% de surpresa, claro, eu já tinha visto aqueles olhares quando estava com o corretor, mas aquela hostilidade apenas mostrava que tinha algo mais ali

Boa noite amigo, uma cerveja, copo pequeno, e o que você estiver na estufa, estou morrendo de fome

Na estufa só tem ovo, e a cerveja está quente

Opa, que ótimo, adoro cerveja quente, e não tem nada melhor que ovo de estufa

Era óbvio que a grosseria era aquela idiotice de marcar terreno, eu era um forasteiro, se fosse apenas a ignorância do dono da birosca, juro que ia levar de boa, mas não, ficou mais estranho

O ....Meu camarada, tu não tá vendo que não é bem vindo aqui, vai embora babaca

Olhei pra trás e lá estava um tiozão, com camisa aberta, já de pé e punho serrado, ele só não sabia que eu não levava desaforo pra casa, vamos dizer que eu não era flor que se cheirasse, olhei pro dono da birosca e indaguei

Eu não sou bem vindo aqui? Eu posso tomar minha cerveja aqui?

Pode, eu não te conheço e não quero confusão

Fui em direção do tiozão

E agora vem, fala de novo tiozão, quero ver se tu tem coragem

O valentão recuou, deu aquele passo para trás, esperando a ação dos deixa disso

Eu só vou falar uma vez, comprei o sobrado, moro aqui agora, vocês não me conhecem, eu não quero briga, mas não sou de levar desaforo pra casa, me deixem em paz, eu só peço que me deixem em paz

Mandei o meu recado e voltei pra minha cerveja, vi que não me queriam ali, achei estranho, eu não conhecia ninguém ali, mas um outro senhor, esse parecendo bem mais educado, chegou do meu lado dizendo se podia tomar comigo a cerveja, eu disse que sim

Opa tiozão, senta, pega um copo

A feição daquele homem jamais saiu da minha cabeça, uma cara sofrida, cicatrizes no rosto, e uma verruga que tirou minha atenção à todo momento, sentou, abusadamente encheu seu copo e contou, ou tentou cortar a história de uma senhora chamada Eulália

Disse que depois da morte do seu marido, se fechou para vida, se isolou, e quando todas as suas provisões acabaram, passou a viver de migalhas do chão, e de pedir coisas na rua, não tinha filhos, não tinha irmãos ou parente por perto, até que um dia sumiu misteriosamente

Disse que aquele caso era de cinquenta anos atrás, que com todo aquele tempo, ninguém mais conseguiu passar de poucos meses na casa, depois ia embora, jogavam a toalha

O homem pareceu bem honesto com sua história, mas ainda não se encaixava, eu não conhecia ninguém ali, não tinha sentido tanta raiva, insisti em saber, o porquê de tanta raiva, notei que todos até o dono da birosca, não gostaram de ver o tal senhor que se chamava velt, conversar comigo, estavam com medo, e também percebi que o velho homem era casca grossa

Pare com essa língua na boca velt, você nem conhece esse cara, é briguento, não é um dos nossos

Vão a merda todos vocês, eu tô de saco cheio de vocês, vão a .....

O dono da birosca, o tal, João Paulo, era só mais um idiota

Chega eu já vou fechar, termina sua seu....

jk, me chama de jk

Então jk, termina aí que eu já vou fechar

Saí da birosca com a certeza de quem naquele angu tinha caroço, muito caroço, vi que o velho velt estava revoltado, se guardava algum segredo, mostrou que estava disposto a não mais guardar

Cheguei na casa trazendo alguns salgadinhos, o silêncio da casa realmente era medonho, para falar a verdade, a própria vila caicó tinha um silêncio nada normal, nada de grilos, cigarras, corujas, nada, era o bem da noite e o silêncio opressivo

Era o meu primeiro dia, e para um primeiro dia, foi bem agitado, segundo e terceiro dia também, já tinha conhecido os vizinhos da rua, na verdade, nem sei se era rua aquilo, três travessas, com um matagal no fundo, uma pequena praça, e depois do matagal, diziam que era uma pedreira, na verdade, acho que todos trabalhavam na tal pedreira

Mesmo já conseguindo trabalhar nos meus projetos, o sinal na vila, era estranho, tanto na tv, rádio, internet, vi programa russo, albanês, até da malásia, realmente estranhíssimo

Com uma semana, eu já tinha conhecido quase todo mundo, e mesmo assim, achava todos muito estranhos, eu até pensei que esse comportamento fosse passar nos primeiros dias, mas não

Quem é que tá ai

Estava pegando no sono quando escutei um barulho de chave no portão, passei a mão no taco, desci cego de raiva, até aquele momento achei que era o tiozão da bodega, mas não era, e foi naquele momento que a estranheza não era só com a casa, era com toda vila CAICÓ

Desci com o taco na mão, ladrão não era, eu tinha certeza que não, abri o portão, nem liguei com o barulho da corrente batendo no ferro, o que eu vi, foi muito estranho, olhei lá para o final da rua, lá pro lado do matagal, perto da casa do velho Velt

Que merda é essa? É fogo

Parecia incêndio, mas não tinha fumaça, só o clarão, naquele momento estava passando um senhor que eu ainda não tinha visto, era 02:12

Ei! Senhor, o que é aquele clarão?

Quem é você, é morador novo?

Sim, mudei faz pouco tempo

Então você não sabe? Lá é o inferno, um lugar..

O tiozão, chega, que papo mais maluco, segue teu caminho

O filho da mãe falou aquela barbaridade e sumiu, cada vez mais eu achava tudo ali muito estranho, lembro que naquela noite, ouvi gritos, choro de criança e a imagem daquele velho filha da put.... Da madrugada

Não, eu não estava louco, tudo ficou realmente fora de eixo quando incansavelmente tentei ligar para meu primo e nada, pra dois amigos e nada, e-mail que nunca chegava, não conseguia falar com ninguém fora da vila, chamei um táxi, a resposta da atendente foi insana

Só um minuto senhor, Ana, mais um com aquele trote, aquele mesmo lugar

Ei, não é trote não dona

O senhor não tem o que fazer não? Estamos trabalhando, essa vila não existe seu cara de pau

Naquela tarde me bateu o desespero, como pude não perceber, em todo aquele tempo, fora o táxi que tinha me levado, nenhum, realmente nenhum carro tinha passado na rua, no bairro, em lugar nenhum

Com as pernas tremendo fui para o computador, em minutos tive a certeza mais tenebrosa da minha vida, não, não existia nenhuma vila CAICÓ, não existia, nenhuma transferência bancária com o meu nome, nem corretor, nada, nem nome, nem eu, João Klepper kurs, simplesmente não existia

Vi naquele momento apenas duas possibilidades, eu estava morto, ou em outra realidade, foi desesperador, terrível, chorei por não ter respostas, andando pra lá e pra cá na casa, lembrei que no fundo da casa tinha uma velha bicicleta, eu tinha que tirar uma dúvida

Mesmo com a noite se avizinhando, peguei a bicicleta e fui pra entrada da vila, claro com olhares desconfiados, sempre com os malditos olhares

Eu lembrava de forma vaga as duas vezes que tinha vindo na vila, e me horrorizei ao lembrar que eu cochilei, em ambas as vezes, literalmente eu não lembrava o quanto o caminho de terra era longe

Depois de gastar muito pneu, eu cheguei e o que vi não era mais um mistério, era o medo, o pavor, o sombrio, uma ponte quebrada, impossibilitando a travessia, e pior, uma ponte que dava para uma floresta, que mesmo já escuto dava pra ver que era densa, enorme e longínqua

Merda, quem é que tá vindo!

Um carro com o farol me ofuscando, vinha em alta velocidade, não fazia sentido, chegou de repente

Que droga, ainda tá quebrada essa ponte, ei camarada, quer carona, bota a bicicleta, aqui, atrás, eu te levo

Um cara que eu ainda não tinha visto, chegou de carro, algo que ainda não tinha visto, recusei o favor, eu estava muito nervoso e desconfiado

Não cara, valeu, vou na pedalada

Tem certeza, tá escuro, a pedalada é longa

Valeu pela preocupação, mas como disse, vou na pedalada

O estranho deu meia volta e saiu cantando pneu, eu voltei naquela estrada que estava impossivelmente escura, nem a luz da lua clareava qualquer centímetro de sua extensão, nada, nada se encaixava

Voltei aterrorizado, o medo era tanto que não conseguia pedalar direito, arranhava minhas canelas no ferrugem da velha bicicleta, eu não conseguia entender porque fui parar ali, minha mente estava confusa, orei a Deus, mas acho que ele estava de folga

Depois de muitas e muitas pedaladas, quase chegando no sobrado, um assobio, me chamaram

Ei JK, vem cá cara

Eu olhei e vi o dono da birosca, João Paulo

O que foi?

Cara, tu foi lá pras bandas da ponte? A ponte está interditada cara, para sair da vila é pela rua de barro, do lado da pedreira, não lembra como chegou aqui? O Varela também não sabia, veio na mãe dele, ele te ofereceu carona, porque não aceitou?

Cara, eu vou te confessar, eu tô achando tudo estranho aqui, essa vila tem algum mistério que por algum motivo vocês não querem me falar

Entra, toma uma água cara, tu tá nervoso, vamos melhorar aquela má impressão da outra vez, aqui ninguém quer te esconder nada, está com fixação, o que tem de anormal aqui? Nada

Sim, eu poderia estar exagerando, preferi não aceitar a água, pedi uma cerveja e um conhaque, na tv do bar estava em um canal conhecido, o segundo carro, o terceiro carro e até uma caminhonete, estava estacionando, eu estava prestes a reconhecer que sim, poderia estar juntando as peças de forma errada, mas eu vi

Eu vi o dono do bar fazendo sinais para cara do carro, o mesmo da ponte, ele veio na minha direção

JK é seu nome né cara?

Sim

Desculpa se eu te assustei, eu já tava um tempo sem aparecer por aqui, tô meio perdido, você precisa de ajuda? Eu tô de carro, qualquer coisa eu te levo

Valeu cara, eu já vou embora, a bicicleta tá lá fora, eu tô cansado, pedalei bastante

Tá cedo cara, daqui a pouco chega umas pequenas

Valeu, mas vou me recolher

Fiquei ali ainda um tempo conversando coisa desconexas, o dono da birosca e o Aurélio, o cara do carro, tentavam arrancar algo, alguma informação, naquela conversa maluca, tive a impressão que até eles estavam meio perdidos, me despedi e fui embora

Fiquei quase que a madrugada toda fumando cigarro na janela, primeiro pelo medo de dormir e ser acordado por sei lá o que, e segundo é que aquele clarão, a um quilômetro me intrigava cada vez mais

Quando deu 03:30, tomei uma decisão maluca, peguei um 38 velho que me acompanhava no passado e fechei o portão com o cadeado e fui em direção do maldito clarão, eu tinha que saber o que era aquilo

A cada passo que eu dava meu coração apertava de tristeza, eu estava convicto de que estava morto, como o descascar de uma Fruta, foi também se desfazendo toda narrativa que de alguma forma estava na minha mente

Corretor, projeto, compra da casa, nada disso era real, meu Deus, minha mente até criou um sobrenome Alemão, João Klepper kurs, meu nome é João Carlos, eu não estava entendendo nada, nadinha

Passei pela casa do velho Velt, casa essa que tinha simplesmente uma pichação de vermelho em caixa alta, CASA DO VELHO VELT, um alívio cômico no meio de tanto pavor

Eu era, ou sou, sei lá, ajudante de pedreiro, meu ônibus demora uma hora e meia até chegar no meu ponto, como eu fui parar nesse lugar? Como minha mente criou tudo nos últimos dias?

Cheguei no clarão, sim, era fogo, um calor imenso atrás de um muro de tijolos pretos, tive a certeza naquele momento

Que porra é essa?

Gritos, muitos gritos além do muro, cheiro de urina e fogo, meus olhos estavam ardendo horrores, sim, não era brincadeira do velho, era uma porta para o inferno, provavelmente uma porta lateral, a situação estava tão anormal que me senti o pior dos mortais, não ter nem permissão para entrar no inferno pela porta da frente

Quando estava ali olhando aquelas labaredas, ouvindo os murmúrios eternos, claro, tinha que piorar

Caralho, agora fude...

Da imensa porta de ferro saiu dois demônios, não vermelho, nem preto, mas cinza, um cinza brilhoso e nada de chifres, o tamanho da cabeça e das mãos sim, eram proporções de um demônio, que com enorme displicência um deles me dirigiu a palavra

Vai entrar?

Uma má vontade, minha alma não valia nada, pouco caso de um demônio foi demais pra mim, minha indignação fez os dois caírem na gargalhada, com certeza leram a minha mente, mas um deles soltou uma frase que mesmo eu, um completo idiota, decifrei o enigma

Eles sempre voltam, são burros

Fui em direção do grande portão, mostrei satisfação, alegria por estar entrando, para o bufar dos dois, a raiva de não fazer medo algum

Ei, onde você pensa que vai

Indagou o demônio surpreso

Eu vou entrar

Sério? Por livre e espontânea vontade?

Esse é maluco, doido de pedra

Não, ele abriu seus olhos, descobriu a verdade

Não falei que são burros, choram quando deixam o inferno, e na primeira oportunidade querem voltar

Poucos saberão onde é o verdadeiro inferno

Atravessei aquele portão em brasa, uma fumaça quente e um insuportável cheiro de mijo na fogueira, andei uns 10 metros e .....

João, Ei João

O que foi?

Acorda cara, teu ponto ficou cinco quadras para trás, chegamos no ponto final, caraca, que sono pesado me chapa, parecia até que tava morto, eu em

Pesadelo motorista, agora sei onde é o inferno

Que?

Nada não, fui

Fim

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