Acordo cedo, como de costume, mas hoje há uma estranha inquietação dentro de mim. Ainda meio sonolento, lembro da noite passada e do que aconteceu depois da festa. Ísis, bêbada e vulnerável, adormeceu na minha cama. Eu, tentando ser o mais decente possível, passei a noite no quarto de hóspedes. Mas agora, ao me levantar, a primeira coisa que faço é ir até o meu quarto para ver como ela está.
Abro a porta devagar, tentando não fazer barulho. A luz suave da manhã entra pelas cortinas, iluminando o quarto em tons dourados. Ísis ainda está dormindo, encolhida sob as cobertas, usando minha camiseta larga. Ela parece tão pequena e frágil, algo que raramente noto quando estamos brigando ou trocando farpas.
Aproximo-me da cama, quase sem pensar. Puxo a manta um pouco mais para cobri-la melhor, e, sem perceber, estendo a mão para tocar sua testa, verificando se sua temperatura está normal. Parece estar tudo bem, mas mesmo assim, sinto uma estranha necessidade de cuidar dela, de garantir que esteja confortável.
Eu me afasto por um momento e vou até o banheiro. Pego um copo de água e um remédio para a ressaca, algo que sei que ela vai precisar quando acordar. Coloco-os na mesa de cabeceira ao lado da cama e fico ali, observando-a por um momento, tentando entender o que exatamente estou sentindo.
E então, seus olhos se abrem lentamente, e ela me pega no flagrante. Por um segundo, ficamos apenas nos encarando. Ela parece surpresa, talvez um pouco constrangida, mas não recua.
— Bom dia. — Digo, tentando soar mais casual do que me sinto.
— Bom dia. — Ela responde, com a voz ainda rouca de sono. Ela se mexe um pouco, olhando ao redor, percebendo onde está. — O que você está fazendo aqui?
— Só estava verificando se você está bem. — Respondo, apontando para o copo de água e o remédio ao lado dela. — Separei isso para você. Achei que ia precisar.
Ela olha para o remédio e depois para mim, e vejo algo em seus olhos que não consigo decifrar. Talvez gratidão, talvez algo mais.
— Obrigada, Lorenzo. — Ela diz, suavemente. — Você não precisava fazer isso... mas eu agradeço.
Dou de ombros, tentando parecer despreocupado.
— Não foi nada. — Respondo, mas há um peso em minhas palavras que nem eu mesmo consigo entender completamente.
Ela toma o remédio em silêncio, e eu me sento na beira da cama, esperando que o momento passe, mas em vez disso, ele se prolonga. A atmosfera entre nós muda, fica mais carregada, mas de uma forma diferente. Um silêncio confortável, quase íntimo, se instala, algo que raramente compartilhamos.
— Você cuidou de mim a noite toda? — Ela pergunta, com um tom que sugere que ainda está processando o que aconteceu.
— Sim. — Admito, sem rodeios. — Não podia deixar você sozinha. E você acabou dormindo na minha cama antes que eu pudesse te levar para o quarto de hóspedes.
Ela ri um pouco, mas ainda parece um pouco sem jeito.
— Parece que te dei mais trabalho do que pretendia. — Ela diz, mexendo no cobertor.
— Acho que não seria a primeira vez que você me deu trabalho, não é? — Provoco, mas com um sorriso.
Ela olha para mim e, por um momento, vejo uma faísca de algo nos olhos dela, como se quisesse dizer mais, mas acaba optando por não seguir por esse caminho.
— E os outros? — Ela muda de assunto, aparentemente desconfortável com a situação. — Clara e Alex, Matteo e Alana... o que aconteceu com eles?
Dou um leve sorriso, sabendo que ela está tentando escapar da tensão entre nós.
— Estão bem. Alex levou Clara para casa, e Matteo fez o mesmo com Alana. Pelo que vi, ambos os casais estavam bastante... próximos. — Respondo, com um tom que deixa claro o que quero dizer.
— Entendi. — Ela diz, rindo levemente. — Parece que todos aproveitaram a noite de uma forma ou de outra.
— Sim, parece que sim. — Respondo, ainda a observando, mas agora com mais calma. — E quanto a você? Como se sente?
Ela pensa por um momento antes de responder.
— Melhor do que eu achei que estaria. — Ela admite, se mexendo para ficar mais confortável na cama. — Ainda meio tonta, mas bem.
— Que bom. — Digo, me levantando. — Por que não fica aqui e descansa mais um pouco? Você pode ir para casa quando se sentir melhor.
— Lorenzo... — Ela começa, chamando minha atenção antes que eu saia do quarto. — Obrigada, de verdade. Não sei o que teria feito sem você ontem à noite.
Dou-lhe um último olhar, com um sorriso genuíno.
— Não precisa agradecer. — Respondo, antes de sair do quarto, fechando a porta suavemente atrás de mim.
Enquanto caminho pelo corredor em direção à cozinha, não consigo evitar pensar que algo mudou entre nós. Não sei o que é, mas sei que não será fácil voltar ao que éramos antes.
E, por mais que isso me confunda, uma parte de mim não consegue deixar de pensar que talvez, só talvez, isso não seja algo ruim.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 65
Comments
Ana Lúcia De Oliveira
estou gostando do desenrolar desse encontro
2024-10-21
1