Aurora
O silêncio da mansão era quase inquietante àquela hora da madrugada. O relógio marcava pouco mais de duas da manhã, mas eu não conseguia dormir. A mansão, apesar de imponente, parecia vazia e fria à noite, o oposto de como Beatriz e Cole a faziam parecer durante o dia. Depois de me virar na cama por horas, decidi que precisava de um copo d’água para me acalmar.
Levantei-me e deslizei os pés pelas tábuas de madeira do chão, tentando não fazer barulho. Os corredores eram longos e iluminados apenas por luzes suaves que vinham das lâmpadas embutidas no teto. Desci as escadas com cuidado, cada degrau parecendo ecoar mais do que eu gostaria. Quando cheguei à cozinha, a luz da geladeira era a única coisa iluminando o ambiente, lançando um brilho azul no mármore impecável.
Peguei um copo no armário, enchendo-o de água enquanto tentava não me sentir uma intrusa na casa que deveria ser meu lar pelos próximos meses. Foi então que ouvi o som de passos firmes, mas ainda contidos, vindo de trás de mim. Meu coração disparou.
Virei-me devagar, e lá estava ele.
Encostado no batente da porta, um cara me observava, como se tivesse me encontrado fazendo algo errado. Ele era alto, mais do que eu esperava, e mesmo sob a luz fraca, sua presença parecia encher o cômodo. Seus olhos castanhos brilhavam com algo que eu não conseguia decifrar — cansaço, talvez, ou curiosidade. Os cabelos levemente ondulados estavam bagunçados, como se ele tivesse acabado de chegar de algum lugar. O cheiro de uma leve mistura de álcool e perfume caro o acompanhava, denunciando a noite que ele provavelmente tinha tido.
Por um momento, nenhum de nós falou. Senti o calor subindo pelo meu rosto, tanto pelo susto quanto pela maneira como ele me olhava. Era intenso, como se ele pudesse enxergar além do óbvio.
— Não sabia que tínhamos visitas à noite — ele finalmente disse, sua voz rouca quebrando o silêncio.
Havia um toque de ironia no tom dele, mas também algo mais profundo, algo que fez minha pele se arrepiar.
— Eu... só vim pegar água. Não consegui dormir — respondi, minha voz saindo mais baixa do que eu pretendia.
— Interessante. Eu também — ele respondeu, entrando na cozinha e abrindo a geladeira. O som do vidro das garrafas tilintando parecia alto no silêncio.
Ele pegou uma garrafa de água e a abriu, bebendo diretamente do gargalo antes de me olhar de novo.
— Você deve ser Aurora, não é? — ele perguntou, como se já soubesse a resposta.
— Sim. E você é Thomas. — O nome saiu antes que eu pudesse me conter, como se eu estivesse confirmando algo que já sabia.
Ele sorriu, mas era um sorriso enigmático, quase desafiador.
— Então já ouviu falar de mim. Isso pode ser interessante.
Minha garganta secou, mas não era culpa da falta de água. Algo sobre ele me deixava inquieta, como se estivesse diante de uma força da natureza que eu ainda não sabia como lidar.
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Thomas
Eu tinha acabado de chegar em casa. O ar fresco da madrugada ainda estava preso à minha pele, junto com o cheiro do cigarro que os caras estavam fumando e o perfume da garota que tentou me prender por mais tempo do que eu estava disposto a ficar. Não era raro eu chegar tarde assim, mas algo me dizia que desta vez não seria tão simples escapar para o meu quarto.
Quando entrei na cozinha, não esperava encontrar ninguém ali, mas lá estava ela.
De costas para mim, com os cabelos longos e ondulados caindo em cascata pela cintura, ela parecia perdida, quase deslocada naquele ambiente que eu conhecia tão bem. Sua presença era suave, mas de alguma forma difícil de ignorar.
Fiquei parado por um momento, observando-a. Não por curiosidade, mas porque havia algo intrigante nela. Algo nos movimentos cuidadosos, na forma como segurava o copo de água, como se estivesse tentando não perturbar o silêncio da casa.
Decidi me anunciar, e quando ela se virou, nossos olhares se encontraram. Seus olhos eram castanhos, mas não de um jeito comum. Havia algo neles, algo penetrante que parecia me estudar e me desafiar ao mesmo tempo.
Eu disse algo banal, mas o som da minha voz a fez estremecer levemente, como se eu tivesse interrompido um momento particular. Havia algo curioso nisso.
— Você deve ser Aurora, não é? — perguntei, querendo confirmar o que já sabia.
Ela hesitou antes de responder, mas seus olhos nunca desviaram dos meus.
— Sim. E você é Thomas.
Ah, então ela já tinha ouvido falar de mim. Não sabia por que, mas isso me agradou. Sorri, mas deixei que o sorriso fosse vago o suficiente para não entregá-la mais do que eu pretendia.
— Então já ouviu falar de mim. Isso pode ser interessante.
Ela parecia nervosa, mas não de um jeito ruim. Era como se estivesse tentando decifrar o que eu era ou, talvez, o que eu queria. Algo nela me intrigava, mais do que eu queria admitir.
Peguei uma garrafa de água e bebi diretamente do gargalo, deixando o silêncio cair entre nós. Mas o que quer que fosse esse momento, já sabia que não seria fácil esquecer.
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Atualizado até capítulo 62
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