Thomas:
As docas eram sempre o mesmo caos de sempre, mas eu adorava isso. O barulho dos motores roncando, a música alta, as pessoas se amontoando ao redor dos carros... era como meu próprio palco. E eu? Bem, eu era o protagonista.
Estava sentado no capô do meu Skyline GT-R, uma cerveja na mão, fingindo ouvir o que as duas garotas ao meu lado estavam falando. Nem me importava o que diziam. Para ser honesto, mal lembrava o nome delas. Meus olhos estavam mais ocupados acompanhando a movimentação ao redor: caras se gabando de seus carros, garotas posando para selfies, e o som inconfundível de pneus cantando ao longe.
De repente, meu celular começou a vibrar no bolso. Peguei o aparelho, olhei para a tela e, claro, "Pai". Suspirei profundamente antes de atender.
— E aí, pai.
A voz dele veio direta e seca, como sempre.
— Onde você está?
Onde estou? Sério? Ele já sabia. Mas, por algum motivo, senti que precisava tentar.
— Em casa, jogando videogame com uns amigos.
Houve um silêncio do outro lado. Conheço meu pai o suficiente para saber o que aquilo significava.
— Não me subestime, Thomas. Sei que você está nas docas.
Fechei os olhos por um momento, tentando conter o incômodo que me subia pela garganta. Ele sempre sabia.
— Tá, e daí? É só uma noite como qualquer outra.
— Não, não é. Hoje é diferente — ele rebateu, o tom de voz mais frio. — A Aurora chegou.
Eu franzi a testa. Aurora? Quem diabos era Aurora?
— E quem é essa, pai?
— Nossa hóspede de intercâmbio — ele respondeu, a voz mais dura agora. — Ela precisa de um ambiente estável, algo que você, pelo visto, não é capaz de oferecer.
Tive que rir. Era cínico, mas não consegui evitar.
— Então agora eu sou babá? Escuta, pai, já está tarde. Amanhã eu apareço por aí, ok?
O silêncio que veio depois foi ainda pior do que as palavras dele. Podia sentir a irritação crescendo do outro lado da linha.
— Você acha que pode simplesmente ignorar suas responsabilidades? Thomas, a presença dela aqui é importante.
Bufei, já perdendo a paciência.
— Eu volto amanhã. É o máximo que você vai conseguir de mim.
Antes que ele pudesse continuar, desliguei o telefone e joguei o aparelho no banco do carro. Passei a mão pelos cabelos, tentando esfriar a cabeça. Ele sabia exatamente como me tirar do sério.
— Problemas em casa? — uma das garotas perguntou, tentando parecer simpática enquanto deslizava a mão pelo meu braço.
Afastei-me, levantando do capô do carro.
— Nada que valha a pena se preocupar.
Mas, na verdade, a conversa ainda ecoava na minha cabeça. Aurora. Quem era essa garota, e por que minha presença parecia ser tão importante para ela?
Olhei ao redor. Ainda tinha a noite inteira pela frente. Amanhã eu resolveria isso. Ou, pelo menos, fingiria que resolveria.
Aurora:
O quarto era impressionante, definitivamente maior do que meu próprio quarto em casa, talvez até maior que a sala inteira da nossa casa no Brasil. Não que minha família fosse humilde — pelo contrário, meus pais sempre trabalharam muito para que eu tivesse conforto. Nossa casa era grande, com um belo jardim e uma piscina onde eu passava os fins de semana ensolarados.
Mas nada disso se comparava à opulência da mansão dos Banks. Aqui tudo parecia feito para impressionar: o closet era um exemplo claro disso. Estava praticamente vazio agora, mas ainda assim dava para notar a sofisticação dos detalhes, com prateleiras iluminadas e gavetas que deslizavam suavemente ao toque. Era como estar em um comercial de uma revista de decoração.
Enquanto organizava minhas roupas, fiquei me perguntando como seria minha vida ali. Mesmo acostumada a um certo padrão de luxo, esse lugar parecia pertencer a outro mundo. A casa dos Banks fazia minha casa parecer quase simples.
Enquanto eu dobrava as roupas e as colocava no closet, a porta se abriu com uma batida leve. A senhora Beatriz entrou, trazendo aquele sorriso acolhedor que parecia ser a assinatura dela.
— Tudo bem, Aurora? Está se acostumando? — ela perguntou, já caminhando em minha direção.
— Estou, sim. Obrigada. É só... um pouco diferente do que estou acostumada — respondi, tentando não soar muito impressionada.
Ela riu suavemente, pegando algumas peças de roupa para me ajudar a organizar.
— Imagino que seja um grande contraste. Mas logo você vai se sentir em casa.
Eu observei enquanto ela pendurava um dos meus casacos, o gesto casual, mas eficiente.
— E então, está animada para começar no Elita Chaves?
— Acho que sim. Ainda não conheço muito sobre a escola, mas parece incrível — respondi, enquanto dobrava uma calça jeans.
— Ah, é sim. Uma das melhores escolas da região. Thomas também estuda lá. Ele está no último ano. — A forma como ela mencionou o nome dele, com tanto orgulho, chamou minha atenção.
— Ele estuda lá? — perguntei, curiosa.
— Sim, e é um excelente aluno. Além disso, joga futebol americano no time da escola. — Ela sorriu, orgulhosa. — Ele é muito dedicado. Sempre nos surpreende com o que pode alcançar.
— Parece que ele é bem ocupado — comentei, tentando imaginar o filho perfeito que ela descrevia.
— Oh, sim. Mas ele sempre arranja tempo para ajudar quem precisa. É um ótimo garoto — ela disse, como se fosse óbvio.
Continuei ouvindo enquanto ela falava sobre a rotina da escola, os eventos esportivos, e como os Banks estavam envolvidos em várias atividades por lá. Tudo isso reforçava a impressão de que eu estava entrando em um mundo completamente diferente do meu.
Quando terminamos de arrumar o closet, Beatriz me lançou um sorriso satisfeito.
— Pronto! Agora que tudo está no lugar, que tal descermos para jantar?
Assenti, seguindo-a pelas escadas.
A sala de jantar
A sala de jantar era digna de um palácio. Uma longa mesa de madeira escura dominava o espaço, com velas altas e elegantes no centro. Um lustre de cristal pendia acima de nós, espalhando uma luz dourada que iluminava o ambiente com um brilho cálido. As paredes estavam adornadas com quadros e espelhos em molduras douradas, cada detalhe meticulosamente planejado para exalar luxo.
O senhor Cole já estava sentado à cabeceira, com um copo de vinho em mãos. Ele nos observou entrar, acenando com a cabeça em um cumprimento silencioso. Beatriz ocupou o lugar ao lado dele, e eu me sentei à sua frente, tentando não parecer desconfortável com a formalidade do momento.
— Espero que o quarto esteja do seu agrado, Aurora — disse ele, sua voz firme, mas não hostil.
— Está perfeito, obrigada. É um lugar lindo — respondi, tentando manter um tom educado.
— Ficamos felizes que esteja confortável — ele disse, antes de dar um gole em seu vinho.
Durante o jantar, Beatriz me fez perguntas sobre o Brasil, sobre minha família, e sobre como eu estava me sentindo com o intercâmbio. Ela parecia genuinamente interessada, o que me deixou um pouco mais à vontade.
Foi então que Cole, com a mesma expressão séria, mencionou casualmente:
— Thomas não vai voltar esta noite.
Beatriz lançou um olhar rápido para ele, e algo passou entre os dois, uma mensagem silenciosa que eu não consegui decifrar. Ainda assim, ela não parecia surpresa.
— Ele deve estar com os amigos — disse ela, sorrindo para mim. — Jovens, não é? Sempre tão cheios de energia.
Cole fez um som baixo, como se discordasse, mas não disse mais nada. Fiquei curiosa sobre o que estava acontecendo, mas decidi não perguntar. Não era meu lugar, afinal.
O jantar continuou com Beatriz me incentivando a provar mais do prato principal, e Cole falando brevemente sobre como seria minha rotina na casa. A sensação de estar em um ambiente completamente diferente me acompanhava, mas, ao mesmo tempo, havia algo tranquilizador na forma como Beatriz me tratava, como se quisesse garantir que eu me sentisse parte daquela família.
Enquanto a conversa fluía, porém, minha mente continuava vagando para Thomas. Ele parecia ser o centro da atenção, mesmo em sua ausência. E algo me dizia que, quando finalmente o conhecesse, ele não seria nada como eu estava imaginando.
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Atualizado até capítulo 62
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