Thomas
Chegamos às docas pouco antes das luzes dos postes piscarem pela terceira vez, sinal de que o evento estava prestes a começar. A noite estava úmida, e a brisa que vinha do rio carregava o cheiro salgado da água misturado ao combustível e ao borrachão queimado no asfalto irregular. Aquele era o tipo de ambiente que fazia o coração disparar antes mesmo de o motor roncar.
Karte, como sempre, parecia relaxado, encostado na lateral de seu carro enquanto mastigava um chiclete com indiferença. Mas eu sabia que ele estava tão ansioso quanto eu. Aquele lugar fervilhava com a energia das apostas, os olhares desafiadores das gangues rivais e o som ensurdecedor de motores sendo acelerados, mostrando quem estava ali para vencer.
Nathan estava do outro lado, perto do centro da multidão. Ele vestia um casaco de couro preto, as mãos nos bolsos e um sorriso irritante no rosto, como se já tivesse ganhado a corrida. Aquele sorriso me incomodava mais do que eu admitia. Seus olhos me analisaram de cima a baixo, e ele fez um gesto para que eu me aproximasse.
— Thomas, ouvi dizer que sua Ferrari não vai correr hoje. Que azar o seu — disse ele, com a voz carregada de ironia.
— É verdade, Nathan — respondi, forçando um sorriso. — Mas qualquer carro que eu estiver será suficiente para deixar você comendo poeira.
Ele riu, mas havia um brilho de provocação nos olhos dele. Foi então que Karte se aproximou e colocou a mão no meu ombro.
— Relaxe, cara. Você é o melhor piloto daqui. Não precisa provar nada pra esse babaca — murmurou, mas o suficiente para Nathan ouvir.
O Skyline GT-R estava parado ali perto, um monstro de aço que parecia me chamar. O carro não era a Ferrari, mas era uma máquina respeitável, um clássico modificado com precisão. Eu sabia que podia confiar nele. Abri a porta, entrei no carro e senti o couro do volante nas mãos, enquanto meu coração martelava no peito como o som de uma batida de tambor.
A largada foi intensa. Assim que as luzes verdes piscaram, meu pé pressionou o acelerador, e o Skyline rugiu como uma fera selvagem. A pista irregular das docas era traiçoeira, cheia de curvas fechadas e obstáculos inesperados. Nathan tentou ganhar vantagem logo de cara, mas eu mantive o controle, usando minha experiência para evitar erros.
A corrida não era apenas sobre velocidade; era um jogo de estratégia, e Nathan jogava sujo. Em uma das curvas, ele jogou o carro para o lado, tentando me empurrar contra um container. Minha adrenalina disparou, mas eu mantive a calma, segurando o volante com firmeza e desviando no último segundo.
A multidão vibrou com a manobra, mas eu mal tinha tempo de pensar. A pista parecia cada vez mais estreita, e Nathan estava determinado a me tirar da corrida. Mas ele subestimou minha habilidade. Na penúltima curva, reduzi a velocidade de propósito, deixando que ele pensasse que estava no controle. No momento certo, acelerei com tudo, cortando por dentro e tomando a liderança.
O som dos motores, os gritos da multidão e a sensação do vento cortando o rosto criavam uma sinfonia caótica e perfeita. Na reta final, Nathan tentou me alcançar, mas o Skyline respondeu com perfeição. Cruzei a linha de chegada primeiro, o ronco do motor ecoando como um grito de vitória.
Quando saí do carro, Karte veio correndo em minha direção, gritando:
— Isso! Eu sabia que você ia ganhar!
Nathan parou ao meu lado, seu sorriso agora completamente apagado. Ele me lançou um olhar que prometia revanche, mas eu só consegui sorrir. Aquela era a minha noite.
Aurora:
A porta da limusine se fechou com um clique suave, abafando o som do exterior. O interior era um verdadeiro espetáculo de luxo. Estofados de couro preto, detalhes em madeira polida e luzes embutidas criavam um ambiente sofisticado. No pequeno bar embutido, garrafas de cristal brilhavam sob as luzes. A sensação era tão surreal que eu me senti parte de um mundo que não era o meu.
Beatriz sentou-se ao meu lado, cruzando as pernas com elegância, enquanto Cole ocupava o assento à frente, ajustando o paletó como se fosse um gesto automático. Ele manteve o mesmo semblante sério, quase distante.
— Espero que tenha tido uma boa viagem, Aurora — disse Beatriz, sorrindo com gentileza. — Imagino que deva estar ansiosa para ver sua nova casa.
— Sim, bastante — respondi, tentando soar confiante, embora ainda estivesse processando tudo ao meu redor.
Enquanto a limusine deslizava pelas ruas bem cuidadas da cidade, eu me perdi na paisagem. As ruas eram ladeadas por árvores altas e iluminadas por postes que emitiam uma luz amarelada suave. As casas ao longo do caminho eram impecáveis, cada uma parecendo competir para ser mais impressionante que a outra.
— Nossa casa é um pouco afastada do centro, mas acredito que você vá gostar. É tranquila e cercada por natureza — continuou Beatriz, olhando pela janela com um sorriso nostálgico.
— E... vocês sempre viveram aqui? — perguntei, tentando disfarçar meu nervosismo.
— Não exatamente — disse ela. — Eu cresci em uma cidade pequena antes de conhecer Cole. Já ele nasceu e foi criado aqui.
Cole interveio, sua voz grave e pausada.
— Este lugar é perfeito para quem busca equilíbrio. É por isso que escolhemos ficar aqui.
A limusine virou uma curva, entrando em uma longa alameda ladeada por ciprestes perfeitamente alinhados. Quando avistei a casa, meu coração deu um salto. A mansão era majestosa, com uma arquitetura que misturava o clássico e o moderno. Colunas brancas sustentavam a entrada principal, enquanto grandes janelas refletiam as luzes do jardim. Uma fonte central, com estátuas de mármore esculpidas, jogava água para o alto, iluminada por tons suaves de azul.
— Bem-vinda ao seu novo lar, Aurora — disse Beatriz, radiante.
Saí do carro, tentando absorver a grandiosidade do lugar. Os seguranças já estavam descarregando minha mala quando a porta principal da mansão se abriu. Uma mulher de aparência séria, provavelmente a governanta, veio nos receber.
— Boa noite, senhora Banks. Tudo está preparado — disse ela, com um leve aceno de cabeça.
O hall de entrada era ainda mais impressionante do que o exterior. O chão de mármore brilhava sob um gigantesco lustre de cristal que parecia ter saído de um castelo. Escadas em espiral subiam elegantemente para o segundo andar, enquanto móveis de madeira nobre e quadros de artistas renomados decoravam o ambiente.
Beatriz notou meu olhar de espanto e riu levemente.
— Sei que é um pouco grande para quem está acostumado com espaços menores, mas espero que se sinta confortável aqui.
— Grande? — eu disse, sem conseguir disfarçar o espanto. — Isso aqui parece um palácio!
Ela sorriu, e Cole, embora calado, demonstrou um leve sorriso no canto dos lábios.
— Você terá muito tempo para explorar tudo — disse Beatriz. — Vou pedir que Clara, nossa governanta, a acompanhe até seu quarto para descansar um pouco.
Antes que pudesse responder, lembrei de algo que estava me intrigando desde o início.
— E o filho de vocês? Ele está em casa?
Beatriz trocou um olhar com Cole antes de responder.
— Ah, Thomas. Ele está na casa de um amigo agora, mas logo estará de volta. Na verdade, Cole vai ligar para ele agora para garantir que ele não demore muito a chegar.
Cole já estava pegando o celular do bolso, caminhando em direção a um dos corredores laterais.
— Tenho certeza de que ele ficará feliz em conhecê-la — completou Beatriz, me lançando um sorriso tranquilizador.
Subi as escadas com Clara, que carregava um semblante sério, mas educado. O corredor do segundo andar era amplo, com portas que levavam a quartos que provavelmente eram maiores do que o apartamento onde vivi a vida toda. Clara abriu uma das portas, revelando um quarto deslumbrante.
A cama, de dossel, estava impecavelmente arrumada com lençóis de seda branca. Havia uma escrivaninha de madeira escura perto da janela, e cortinas de tecido pesado pendiam elegantemente. A vista dava para o jardim, que parecia ainda mais mágico à noite.
— Se precisar de algo, basta chamar — disse Clara, antes de se retirar.
Sozinha no quarto, me sentei na cama, tentando processar tudo. Eu estava em um lugar que parecia saído de um sonho, mas algo me dizia que aquela família era muito mais do que aparentava.
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Atualizado até capítulo 62
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