CARNE PODRE
Magro de pele pálida, Capa preta e um chapéu surrado, sempre na esquina longe da luz, a espreita, atento a oferecer favor, por favor não aceite, é assim que ele aparece, e apareceu para o jovem Bonifácio de Moraes
— Quem está aí?
O pai foi averiguar e assustou-se, era "Bonifácio" tomando vorazmente um copo de leite
— Calma lá, você nunca gostou de leite, por que está bebendo assim com tanta vontade?
O pai notou algo de muito estranho no comportamento do filho, que ironicamente falou
— Deixe eu beber o meu leite em paz
O pai quando ia esbravejar com o filho ouviu uma voz sussurrar
— Eu tô aqui, aqui, pai tira-me daqui
— O que disse? Tirar você? Do que está falando?
"Bonifácio" se virou com um olhar muito sombrio, o ranger dos seus dentes era gritante na cozinha
— Vamos velho! Saia daqui, deixe-me comer em paz
O sr. Gregório sentiu medo do seu próprio filho naquele momento, algo de muito errado estava acontecendo, ele então fingiu subir para o quarto e ficou a ver Bonifácio comer a madrugada inteira
Era uma cena horrível, como um animal, ele comeu quilos de carne, litros de leite, e já pela manhã ele jvê o seu filho deitar no chão da cozinha e adormecer
Muito triste, já acreditando na história do vizinho, que o seu filho poderia sim estar possuído, o senhor Gregório ficou tão nervoso, suas mãos tremeram, suas pernas bambearam e ele desmaiou no chão do corredor
Acordou assustado, com Bonifácio sentado numa cadeira no meio da sala, e olhando fixamente nos seus olhos, o olhar era forte, penetrante, neste momento ficava claro a possessão, a história do vizinho Lemuel era verdadeira
— O que foi filho? Estou assustado, você está diferente, não é mais o meu Bonifácio, eu quero lhe ajudar
Neste momento ele vê que há uma luta interna na cabeça do seu filho, o olhar era dócil, mas a feição no rosto era do mal, e percebendo isso começou a dizer que o amava, falava que Deus tiraria todo mal do seu corpo, e podia ver reações em Bonifácio
Os dentes rangiam, as mãos ficavam inquietas, os olhos mudavam, se transformavam em brancos, mas quando o Sr. Gregório tirou um crucifixo de madeira que estava no seu peito, algo horripilante aconteceu
— Meu Deus do céu. Quê isso? Quem é você?
Uma sombra saiu de dentro do rapaz, era diabólica, horrenda, saiu e entrou pela parede como mágica, foi em direção a cozinha, já Bonifácio caiu no chão mostrando uma fadiga descomunal, o pai se desesperou
— Filho! Filho! Meu Deus o que aconteceu? O que era aquilo? Meu Deus, era verdade, aquele espírito das trevas estava em você, o crucifixo o afugentou, graças a Deus, acorde
Mesmo mostrando enorme fadiga, Bonifácio falou
— É ele, pai, ele não vai nos deixar em paz, Carne Podre estava dentro de mim, eu vi, ele vai nos perseguir
O Sr. Bonifácio fica com o crucifixo nas mãos protegendo o seu filho, sabia que com ele estava protegido, mas ele podia sentir que o espírito de Carne Podre estava na cozinha, incrivelmente era possível sentir a sua presença
O Sr. Gregório pega o seu filho e os dois sobem pro quarto, na ingenuidade de que lá estariam seguros
— Aqui estamos seguros, o crucifixo vai nos proteger, aquela coisa maligna não vai nos fazer mal
Bonifácio no seu olhar já dizia que não estariam seguros, ele sabia que se tratava de algo mais forte de que o seu pai pensava, ele sabia que Carne Podre era um demônio muito poderoso que se apropriou das famílias ao longo dos tempos, e dessa vez eles eram os escolhidos
Quando estavam ajoelhados prestes a fazer uma oração, olham para porta do quarto já aberta e se assustam
— Meu Deus! Como isso é possível
Carne Podre estava materializado no mesmo jovem que tinha abordado Bonifácio no atalho proibido, era o corpo de Trevisan, um jovem chileno do século XIX, mas tal carcaça já estava pesada, por isso a sede de Carne Podre pelo corpo de Bonifácio
— Não pode fazer nada por seu filho, ele permitiu a minha posse no atalho proibido, e agora vim cobrar
Era verdade, o jovem tinha dito tal insanidade
— Vai embora demônio, não irá levar o meu filho, daqui você não levará nada
Carne Podre olhou nos olhos de Bonifácio, mas não entrou no quarto, de alguma forma o crucifixo protegia o quarto, ele então saiu da porta indo para o corredor
— Estamos perdidos pai
— Não, tenha fé
Era real, eles podiam ouvir os passos de Carne Podre pela casa, os passos no taco de madeira ecoavam o horror, era nojento o cheiro de carne podre que ele deixava em cada local que aparecia
Aqui estamos protegidos, não fique com medo, o medo o alimenta
O Sr. Gregório estava destemido, mas ele só não sabia que o horror estava apenas começando, Carne Podre era mais poderoso que parecia
Completamente em desespero, Bonifácio vai até à janela na intenção de pedir socorro, mas ao olhar para fora......
Bonifácio olha para janela e vê que a imagem da sua rua já não estava lá, era uma loucura, no seu lugar havia uma floresta densa, com um céu avermelhado
— Pai! Veja lá fora, as casas sumiram, estamos rodeados por uma floresta, uma enorme floresta, como isso é possível?
Eles ficam ali olhando aquela floresta que não existia, de repente corvos, enormes corvos negros, pousam na beirada da janela, começam a bicar o vidro, e no meio desses corvos havia um de cor marrom que se destacava, que ao virar mostrou a sua verdadeira feição, era ele, sim, Carne Podre em forma de corvo
— Não! Não se deixe enganar, isso é ilusão, não é real filho, o medo vai paralisar você
Eles então acreditam não ser real, era apenas ilusão de Hermes, mas como explicar os corvos que já estavam rachando o vidro da janela
— E agora pai! O que vamos fazer?
Temos que sair da casa, lá fora estaremos seguros, eu garanto-lhe lá não há floresta, ele está brincando com as nossas mentes
Os dois lentamente saem do quarto na intenção de chegar ao quintal, mas antes de chegar no corredor Bonifácio olhou para trás e viu o enorme corvo marrom com o rosto de Carne Podre olhando fixamente para ele
— Venha filho! Ele não está aqui, não tenha medo, estou com o crucifixo
Eles descem a escada vagarosamente, o pai estava vestido numa couraça de coragem, já Bonifácio estava envolto ao medo, e estava certo, sabia que Carne Podre não desistiria assim facilmente
Já no andar térreo da casa se depararam com algo estranhíssimo
— Como é possível? Maldição! Cadê a porta?
— Estamos presos aqui, não há saída, veja! Até as janelas sumiram
Era uma cena angustiante, incrivelmente estavam dentro de quatro paredes e sem nenhum tipo de saída
Os dois ali no meio da sala sem
alternativas, era o fim, mas eis que Bonifácio lembrou de algo que com certeza poderia livrá-los daquela situação
— É isso! Claro, como não pensei nisso antes
— O quê! Diga o que pensou?
O poder pai, no que eu acho que se torna realidade, lembra? O bolo eu pensei e ele apareceu, ao falar que daria a minha alma, Carne Podre me deu poderes, vai dar certo
— Mas isso não acontecerá com ele, não poderá usar o poder para feri-lo
Ele não, mas meu plano é voltarmos ao passado e impedir que ele possua o jovem Trevisan, assim não vou conhecê-lo no atalho proibido no nosso tempo
A ideia seria magnífica se não fosse um sério detalhe que Bonifácio tinha deixado passar, e sem perder tempo ele fixou o seu pensamento
— Quero estar 10 minutos antes que Carne Podre possua o jovem Trevisan no chile
De repente um clarão tomou conta da sala e os dois se veem no meio da rua em outro tempo, no passado era 14 de abril de 1888
— Cuidado pai o cavalo
Eles aparecem no meio da rua, chamando atenção dos transeuntes que passavam no local, rapidamente saem de cena e ficam de olhos arregalados procurando o jovem Trevisan que apareceria em poucos instantes
— Ali! Veja olha ali, é ele
Era o jovem Trevisan, ainda puro, sem a presença do mal na sua vida, mas o Sr. Gregório estava muito afoito
— Vem! Vamos atrás dele, ei! Ei rapaz, espere! Espere
— Não pai! Não calma, ele não nos conhece, calma! Calma, não......
O desespero do Sr. Gregório fez tudo dar errado e o pior aconteceu
O jovem Trevisan se assustou com a abordagem e apavorado atravessou a rua desesperado e foi atropelado por um cavalo, morrendo instantaneamente
Nesse momento Bonifácio consegue ver a imagem de Carne Podre no espelho da loja, e ele estava sorrindo, mostrando que não era possível evitar o que estava destinado, só então que Bonifácio percebeu a burrada que tinha feito.
— Meu Deus! O que nós fizemos, vem pai vamos
Eles correm, o jovem estava morto e curiosos chegavam, depois de alguns quarteirões eles param num beco sem saída, O pai ainda não entendia o desespero do filho, achava ser pela fatalidade do atropelamento do jovem Trevisan, mas não
— Por quê está assim, vamos me diga
Estamos presos aqui em 1888, com a morte do jovem Trevisan jamais vou encontrar Carne Podre no atalho proibido, então agora já não tenho mais o poder, pois o nosso encontro no futuro não mais aconteceu
Só então o sr. Gregório percebeu que todo esforço tinha sido em vão, pois estavam presos no século XIX, Carne Podre tinha vencido
Enquanto ainda estavam se lamentando, um clarão apareceu e eles se encontram caídos no chão, mas algo estava diferente
— Pai! Veja, voltamos, estamos em casa, voltamos ao nosso tempo, mas ainda estamos presos, como isso é possível?
— É verdade! Ainda estamos presos
— O que foi pai? O senhor tá estranho, o cheiro, o cheiro voltou, pai... Não.... Não..... Não.....
Fim
Autor: João Damaceno Filho
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Atualizado até capítulo 41
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