A Barba do Diabo
Parte 1
👹Conto secular de autor anônimo, livremente adaptado para a linguagem moderna por Lótus de Sangue
😈👿 Nasceu um Bebê Barbado
Era uma vez uma mulher humilde chamada Wanda, que acabara de dar a luz a um bebê. O filho de Wanda era um lindo bebezinho, porém, havia nascido com um traço muito peculiar - uma longa barba, à semelhança dos homens adultos.
A boa Wanda foi procurar os concelhos da fada Agnieszka, sua velha amiga.
-Bom dia, minha comadre - disse Wanda entrando na casinha da amiga feérica.
-Oh! Bom dia! - respondeu a fada Agnieszka.
-Venho aconselhar-me contigo. Tenho um filhinho que nasceu com barba.
-Então, minha cara, alegra-te...
-Por que hei de alegrar-me?
-Porque se nasceu com barba, isso quer dizer que mal completará vinte anos, e se casará com a filha do rei.
-Não digas!
-Assim é.
Imaginem como Wanda não ficou contente!
Justamente naquela ocasião o Rei Stanislaw fazia uma viagem de recreio pela Polônia, e informava-se de todas as novidades.
Mas viajava incógnito, assumindo a identidade de um rico senhor de terras, sem nada mencionar sobre o seu sangue real.
Chegando ao vilarejo onde Wanda morava, disseram-lhe:
Nasceu, há poucos dias, um menino com barba! Isso é sinal de sorte, e a boa fada Agnieszka disse que aos vinte anos ele se casará com a filha do rei.
Com mil diabos! - pensou Sua Majestade com seus botões, pois Stanislaw era um homem malvado e pérfido - Espera! Espera! Vou já à casa do menino barbado, e de qualquer maneira hei de conseguir roubá-lo.
Informou-se sobre a casa da mãe do menino barbado, e bateu à porta.
-Quem é?
-Um grande senhor.
Virgem Maria! Aos grandes senhores abre-se sempre!
O Rei Stanislaw entrou.
-Eh, eh! Comadre! Nasceu-lhe um menino com barba, não é verdade?
-É verdade que me nasceu, sim! - respondeu Wanda, rindo-se de contente.
-Pois bem; estou aqui para levá-lo comigo. Quero educá-lo como um príncipe.
-E por que o quereis educar como um príncipe?
-Ora! Porque ele é um menino de sorte. Se não fosse um menino de sorte eu não teria entrado aqui. Não te parece?
É verdade.
E se é afortunado, nada deves fazer contra a sua sorte.
-Também isso é verdade – respondeu Wanda, que tinha lágrimas nos olhos, devido à grande dor de ter de separar-se do filhinho.
-Então? Vais confiar-me o menino, ou não?
Confio, sim; confio!
O rei disfarçado levou o garotinho nos braços até certo ponto da estrada, quando, já bem longe das vistas da mãe do bebê, o meteu em uma bolsa e partiu.
Chegando perto da margem de um rio, o malvado monarca jogou a bolsa n'água, dizendo:
-Casa-te agora com a minha filha, se fores capaz!
E foi-se embora, muito satisfeito.
No entanto a bolsa, em vez de ir ao fundo, pôs-se a navegar como uma barca, sem deixar penetrar no seu interior nem sequer uma gota de água.
Navegou, navegou e, chegando aos arredores de Varsóvia, ficou presa nas redes de um pescador.
O pescador, que se chamava Janusz, arrastou a rede para a margem e, foi com grande maravilha que encontrou dentro dela a bolsa.
Caramba! Que peixe é este? - pô-se a gritar.
Quando chegou em casa, acorreu a esposa, a bondosa Helena. Devido ao peso da bolsa, puseram-se a imaginar que ali estava um peixão dos grandes.
Oh, que peixe! Oh, que peixe!
E abriram a bolsa.
Imaginem como não ficaram, quando encontrara dentro da bolsa pescada do rio um bebezinho, e ainda por cima com barba!
Havia muito tempo que desejavam ter um filho.
-Será este o nosso filho! - exclamou Helena.
Pois seja! - respondeu Janusz.
E desde aquele dia trataram o menino como se realmente fosse do seu sangue, dando-Ihe o nome de Wladimir.
😈👿O Rei Malvado Reencontra a sua Vítima
Por um destes caprichos do destino, dezoito anos depois, passava o Rei Stanislaw pelo vilarejo onde morava o pescador Janusz com a sua família. Surpreendido no meio do caminho por uma forte chuva, entrou na cabana do pescador, para abrigar-se.
Oh! Oh! Más que lindo menino vocês possuem - disse o monarca ao ver o belo Wladimir, filho de Janusz e Helena. Ele pensou ter reconhecido a barba do jovem, e temeu ter reencontrado o pequeno bebê tomado covardemente dos braços da mãe.
-Não é possível! Teria então o bebê sobrevivido? E está agora aqui, diante de mim? Seria muita coincidência (para não dizer, falta de sorte)! - pensou o rei.
-É vosso filho?
Não, Majestade. É um menino que achamos. Há dezoito anos pesquei-o na minha rede - respondeu o pescador. - Estava fechado dentro de uma bolsa.
Ai! Ai! - pensou o rei - Não pode ser senão o menino que eu próprio atirei ao rio, para impedir que viesse a casar-se com minha filha...
E, fingindo-se de muito interessado pela história (como já vimos, o monarca sabia fingir muito bem), pediu que lhe mostrassem a bolsa.
E contatou que era aquela mesma!
-Caramba!
Então começou a pensar em um meio de desembaraçar-se novamente daquele que considerava um usurpador do trono real, e finalmente pareceu-lhe ter encontrado um.
Como continuasse a chover, voltou-se para o pescador e sua esposa, e disse-lhes:
Não poderei sair daqui se não tiver o meu guarda-chuva. Permiti-me que eu o mande buscar pelo vosso rapaz. Dar-lhe-ei um zloty¹ de ouro, pelo seu trabalho.
Como não, Majestade! - exclamou o bom Janusz.
Irá imediatamente! - acrescentou Helena.
Esperem que eu escreva um bilhete para o meu oficial da guarda - disse o rei. - Só ele sabe onde se encontra o meu guarda-chuva.
E escreveu em um bilhete:
"Mal leres este bilhete, prende o portador e manda cortar-lhe a cabeça. Faze de maneira que tudo esteja terminado antes da minha volta."
Wladimir, sem de nada desconfiar, pôs-se a caminho com aquele bilhete, mas, não conhecendo a estrada, perdeu-se.
😈👿A Astúcia do Papão
Chegou a noite e Wladimir se viu perdido em denso bosque. Vendo brilhar ao longe qualquer coisa que se assemelhava a uma luzinha, encaminhou-se naquela direção.
O que julgava ser uma luzinha, nada mais era do que um gigantesco vagalume, pendurado por uma perna à janelinha de uma cabana, substituindo muito bem uma lanterna.
Wladimir empurrou a porta, que estava somente encostada, e entrou.
Achou-se assim em uma cozinha.
Junto à lareira estava sentada uma velhinha magra como um graveto. Na lareira crepitava uma fogueira de lenha.
-Olá, mocinho! Quem és, e que queres?- perguntou a velhinha.
-Perdi-me, minha velha.
-Perdeste-te como?
-Pela estrada.
-E para onde ias?
-Ia ao palácio real, com um bilhete para me entregarem o guarda-chuva do rei.
-E agora, que farás?
-Está escuro demais para prosseguir. Se não for muito incômodo, passarei aqui a noite e amanhã cedo seguirei o meu caminho.
-Ai de ti! - exclamou a velhinha - Aqui é a casa do Papão. Se ele te ver, estás perdido!
-Eu não tenho medo do Papão! - replicou Wladimir.
-Não tens medo? Então não sabes que o Papão come gente?
-Talvez coma meninos pequenos. Mas eu sou um rapaz, com esta barba toda, e tenho os ossos duros.
-Faze o que quiseres - respondeu a velhinha - mas lembra-te de que eu te avisei.
Wladimir estava cansado e caía de sono. Por isso, estendeu-se a um canto, junto à parede, e adormeceu como uma pedra.
Assim que o Papão chegou, começou logo a franzir o nariz e a farejar o ar da cozinha.
Que bom, que bom para o Papão! Sinto cheiro de carne humana!
Disse o monstro, aproximando-se da lareira, junto à qual o esperava a velhinha.
-Oh, está ali um pobre mocinho que me pediu hospitalidade - respondeu ela - Tem os ossos muito duros e uma grande barba no queixo.
-Assadinho na fogueira, ficará bom da mesma maneira. - replicou o guloso Papão - Mas como diabos veio parar aqui?
-Precisava levar ao palácio real um bilhete do rei. Mas perdeu-se.
O Papão remexeu no bolso do rapaz adormecido e, tendo encontrado o bilhete, leu-o com muita curiosidade.
Compreendo! - disse consigo, depois de ter examinado bem a barba do jovem - Este mocinho nasceu com barba, o que é sinal de que deveria casar-se com a filha de Sua Majestade. O rei, para impedi-lo de casar-se com a princesa, quer mandar cortar-lhe a cabeça. Tudo isto é claro como o sol!
Espera! Espera! Vou fazer uma boa partida a Sua Majestade! Eu sou um monstro, mas ele ainda é mais monstro do que eu!
E trocou o bilhete por outro, no qual, imitando perfeitamente a letra do rei, ordenava que se devia dar imediatamente a princesa por esposa ao portador.
Depois, resmungando, resmungando, o Papão foi dormir na sua cama.
Na manhã seguinte, Wladimir acordou e, vendo a velhinha adormecida junto à lareira apagada, sem se dar ao trabalho de acordá-la para agradecer-lhe e despedir-se dela, saiu e retomou a estrada.
Caminha, caminha, e finalmente chegou ao palácio real.
O oficial da guarda leu o bilhete e levou-o à rainha, e esta, que não ousava contradizer as ordens do rei, organizando logo grandiosa festa nupcial, deu por esposa a Wladimir a belíssima princesa.
Os dois esposos foram morar em maravilhoso castelo circundado por um parque e ali passaram a lua-de-mel, enquanto o rei Stanislaw, tendo partido da casa do pescador, se fora passear ao acaso pelo reino, certo de que já tinham cortado a cabeça ao mocinho predestinado.
Depois de dois meses, Sua Majestade voltou à sua capital e não ficou pouco espantado ao saber que sua filha se casara com o mocinho de barbas.
-Como foi isso? - perguntou furioso à rainha.
-Casei-os por vossa ordem, Majestade!
-Por minha ordem?
-Sim. No vosso bilhete estava escrito: "Casem imediatamente minha filha com o portador deste bilhete."
-Com todos os diabos! - exclamou o pérfido rei - Isso é ter sorte!
-E chamou logo o genro.
-Olá, meu belo Wladimir! Como foi essa história? Quem te autorizou a falsificar um bilhete meu?
-Nada falsifiquei. O bilhete era o vosso, Majestade!
Era meu!
-Sim; o que Vossa Majestade escreveu.
-Não é possível, rapaz!
-É sim. Caminhando pela estrada, perdi-me, passei uma noite na cabana do Papão, e no dia seguinte cheguei aqui. Imaginai o meu espanto quando, em vez de me darem o guarda-chuva, me entregaram... vossa filha!
-Com mil bombas! - gritou furioso Sua Majestade. - Aqui andou a mão do Papão! Bem conheço! É um espertalhão de primeira ordem. Mas quem sabe por onde andará agora aquele intrujão?
-Eu de nada sei, Majestade.
-De nada sabes? Ora, ora! Não penses que vais ficar sendo o marido de minha filha, assim sem quê nem mais! O que trouxeste para sustentá-la? Nada! Somente a tua maldita barba. Se ao menos fosse a barba do Diabo!...
-Se quiserdes a barba do Diabo, eu vo-la trarei - replicou Wladimir.
Sua Majestade pensou que os cornos de mestre Belzebu o poderiam livrar daquele genro incômodo.
-Muito bem - disse - Vai arrancar a barba ao diabo e a traga para mim. Só então consentirei que fiques sendo meu genro.
Wladimir beijou a esposa, despediu-se de Sua Majestade e partiu.
Continua...
(Vou postar a segunda parte do conto na segunda-feira, dia 21/08)
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Atualizado até capítulo 41
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