hum...

Gregório percebeu meu semblante de pavor, ele me conhecia muito bem, sabia que não conseguia disfarçar preocupação

— Não sei Gregório, acabei de sair, vou investigar o que é, mais tarde passo lá pra te falar

Saí rapidamente da sua frente entrando novamente na secretaria, me ajoelhei no meio da sala e orei, orei ao senhor, pedi proteção, ficava mais que claro que sim, era tudo verdade, mas não estava pronto para contar aquela horrível história

E foi assim, aquele dia o cheiro foi insuportável, eu andei por todo vilarejo, sendo abordado a todo momento, mas eu não tinha o que dizer, ou melhor, tinha, só não tive coragem, mas ao anoitecer tudo foi diferente

Ao cair da noite fui visitado por três moradores que já estavam impacientes, Gregório que eu tinha conversado mais cedo, Samuel, o agricultor e o velho Veloso, que criava porcos, já naquele encontro o velho Veloso mostrou estranheza, sem dúvida era o mais bravo de todos

— Plutarco, o que faz aqui homem? já foi em outra cidade? Já falou do cheiro?

Zequinha que cuidava do vilarejo, você sempre foi uma sombra dele rapaz

— Vai com calma Veloso, Plutarco não tem culpa de nada

— Obrigado Gregório

— Mas o Veloso tem um pouco de razão Plutarco, você tem que fazer alguma coisa, esse cheiro vai empestear minhas plantações, vou ter prejuízo

Sim era o pior momento para abrir o jogo, o velho Veloso estava louco para arrumar confusão, mas Gregório percebeu minha aflição

— Um de meus porco sumiu, quem vai pagar meu prejuízo? você, é você mesmo Plutarco, você é o delegado agora, é responsabilidade sua

Perdi a linha naquele momento, eu estava a ponto de explodir, e foi o que aconteceu, coloquei a espingarda na boca do velho Veloso

— Repeti seu canalha, vai, mostre sua valentia

— Calma Plutarco, Por favor não faça isso homem

— Pare Plutarco, não faça isso, eu te conheço, você não é assim, vamos abaixe essa arma, o velho Veloso está destemperado, né Veloso

— Sim, sim, sim

— Seu velho idiota, vai, senta lá e cale-se, se eu ouvir uma palavra sua não respondo por mim

Quebrei a banca do velho Veloso naquela noite, coitado, mal podia saber o que lhe esperava, até hoje me arrependo de tê-lo tratado daquela forma

— Gregório disse que você está estranho Plutarco, quer nos contar alguma coisa

— Sim Plutarco, vai homem, se sabe de algo tem que nos contar, tem que confiar em nós, vai manter segredo né Samuel?

— Sim, Claro, temos que resolver o problema desse cheiro, e o sumiço de animais

— E você Veloso, podemos confiar?

— Nunca ninguém colocou uma arma na minha boca, mas sim, pode confiar, quero meu porco de volta

Eu me sentei e contei, contei tudo nos mínimos detalhes, falei do tal homem, falei da mensagem, falei de seu reflexo no espelho, tudo, sem esquecer de nada, meu Deus como fui idiota, claro que não ia dar certo

— Pare Veloso, pare, me ajuda segurar ele Samuel

— Canalha, seu moleque, colocou uma arma na minha boca pra depois falar essa asneira seu infeliz, canalha

— Para Veloso, deixa disso rapaz, pare é o Plutarco homem, ele sempre nos ajudou

— O quê está acontecendo com você, que história essa? Você zomba de todos nós

— Vamos Samuel, deixa esse maluco aí, vamos Gregório, esse aí tá louquinho de pedra, Que falta faz o Zequinha aqui, se ele tivesse aqui nada disso aconteceria

Veloso e Samuel foram embora esbravejando, O velho Veloso queria me matar a qualquer custo, apenas Gregório ficou, mas não me apoiou, muito pelo contrário

— Eu não confio mais em você Plutarco, o que está acontecendo? Você não bebe eu sei, nem tem cheiro de álcool em seu corpo, ė um bom rapaz, mas demônio do submundo, homem no espelho, homem de queixo desproporcional, chega, basta, eu vou embora, amanhã vou pedir socorro na cidade vizinha, já tá sumindo animal

— Eu juro, estou falando a

verdade, é minha obrigação alertar, vocês vão se arrepender

— Plutarco ponha a mão na consciência, olha o que você pediu, olha que solução mais maluca, você pediu pra irmos embora e ficar perambulando por 7 dias, quem faria isso? quem deixaria seus animais, casa, tudo pra trás? você está louco, e a partir de hoje não de suas costas pro velho Veloso, ele vai se vingar, ele não vai deixar barato o que você fez

Gregório foi embora me deixando com o gosto amargo da vergonha, fiquei no chão, fui humilhado falando a verdade

No dia seguinte o cheiro tinha sumido, foi estranho, justamente no dia da aparição o cheiro sumiu, foi horrível ver as pessoas me apontando nas ruas, cochichando, Samuel passou na secretaria aquele dia pra pegar fertilizantes e zombou de mim

— Plutarco meu amigo, o que foi aquilo ontem? Já pensou se todo mundo fosse embora? o cheiro parou sujeito

— O porco?

— Que porco? há, você fala o porco do velho Veloso

— Sim

— Isso eu não sei, aliás se eu sou você me desculpava com o Veloso, ele vai se vingar, pelo que eu conheço ele, é certo que ele vai se vingar

E foi assim o dia inteiro, todos que iam na secretaria me insultavam, me tiravam como louco, mas eu orei ao senhor, segurava meu crucifixo com força e pedia calma, temperança

Mas a noite caiu, e com ela veio o cheiro podre muito mais forte, uma névoa se instalou no vilarejo, o estranho homem não apareceu, na verdade ele tinha feito sua parte, e eu também a minha, mas o vilarejo preferiu não me ouvir, e foi assim que tudo começou

— Calma, já vai, já vou abrir Calma

Eram batidas na porta

— Miguel! o que foi garoto? o que seu pai aprontou? Eu discuti com ele mais cedo, o que foi?

— Meu pai é um monstro, Meu pai é um monstro

— Calma garoto, o que ele fez? Bateu na sua mãe? Nos seus irmãos?

— Vem, Vem por favor

O pequeno Miguel me pegou pelo braço mostrando seu pavor, e eu fui, fui correndo, eu sabia do que se tratava mas não tive medo, incrivelmente não tive medo, o olhar das pessoas nas ruas, nas janelas, mostravam que sim eu estava certo

Cheguei na chácara do velho Veloso e de cara vi sua esposa pálida, agarrada nos quatro irmãos de Miguel, as palavras daquela mulher jamais sairá da minha mente

— Por que o diabo escolheu o corpo do meu marido? por que Plutarco? Não vai machucar ele

O cheiro era insuportável, com a espingarda nas mãos fui me aproximando lentamente, já podia ouvir outros também armados chegarem na casa, todo vilarejo já sabia que algo terrível estava acontecendo

Fui bem devagar, não sabia o que ia encontrar, Gregório se aproximou também com sua espingarda

— Desculpa Plutarco, você tinha razão

— Agora não é hora pra isso

Chegamos na porta da casa e a imagem foi aterrorizante, sim, a mulher do velho estava certa, aquilo definitivamente não era mais o velho Veloso

— Meu Deus do céu Plutarco, o que é isso, vem, vamos embora daqui

— O mensageiro estava certo, é Margarun, estamos perdidos

Era um ser enorme, ficava evidente que a entidade entrou dentro do porco pra depois então se apropriar do Velho, era enorme com focinho de porco, um corpo desproporcional, tronco humano, foi surreal, eram as roupas do velho Veloso, estava devorando tudo que tinha na cozinha, o bicho ainda não tinha nos visto, mas se virou

— Vamos embora Plutarco, olha ele nos encarando, não cara, não.....

Atirei, meu tiro foi certeiro no ombro, mas com uma rapidez inacreditável o bicho mesmo com o seu tamanho colossal pulou a janela da cozinha e sumiu na mata, a mulher ainda não estava entendendo bem o que estava acontecendo

— Você atirou nele! na frente dos meus filhos, eu não acredito, Plutarco o que a com você?

— Não é mais seu marido, temos que matar aquilo, ponha a mão na consciência mulher, salve seus filhos, vamos, temos que sair daqui

Na altura do campeonato todos estavam acreditando em mim, menos a família do velho Veloso

— Não, aquilo é uma espécie de espírito ruim, meu marido vai voltar eu tenho certeza

— Vai Gregório, chama o Samuel e os outros da lavoura, vamos pra secretaria, lá tem mais algumas espingardas, têm Machado, tem tudo pra gente matar aquela coisa

— E eles vão ficar aqui?

— O que podemos fazer? Ela não quer acreditar

— Vão embora seus malditos, saiam daqui, saiam agora

Acho que era Josefa o nome dela, não lembro com precisão, mas acho que era Josefa, maldita e teimosa Josefa, sacrificou sua família podendo evitar

Logo quando chegamos na secretaria ouvimos gritos, ficava claro que os gritos vinham da casa do velho Veloso, gritos tão altos que pareciam ser do nosso lado, era Margarun começando sua carnificina

— Meu Deus ele matou a família, o velho Veloso matou a própria família

— Não Gregório, não foi o Velho, sabemos disso, até quando vamos nos enganar

Ficamos na secretaria, eu, Gregório, Samuel e Manoel brejo, um aposentado das linhas férreas, que estava apavorado

— Quando me disseram eu não acreditei, meu Deus como fui tolo, devia ter saído do vilarejo, todos nós, e você avisou Plutarco, você tentou impedir isso, que porcaria, bancamos o idiota

— Manoel brejo, se controla homem, vai, pega

— O que é isso? Não, eu nunca usei isso Samuel, eu não vou matar ninguém

— Isso é para sua defesa homem, quer viver ou morrer?

— Meu Deus me ajude, me ajude

— Pra tudo tem uma primeira vez homem, vai logo, pega a espingarda, temos que matar aquela coisa

— Vai Manoel brejo, pega

— Mas Plutarco.....

Samuel e Gregório estavam encorajados, mas não por muito tempo

— Veja, tem alguém correndo pra cá, Quem é?

— É o Bicho? Meu Deus é agora?

— Não Manoel brejo, é a Damiana filha do Onofre, porque ela não ficou com o pai diacho

— Damiana, aqui, vem, entra, cadê seu pai? Porque está chorando? Calma, Calma, senta aqui

— Meu pai morreu gente, meu pai morreu

— Foi o bicho? O bicho matou ele?

— Não Gregório, foi o susto, meu Deus os gritos, a gente viu tudo, tudo, o que é aquilo gente? matou todo mundo na casa do velho Veloso, lá da janela deu pra ver, foi isso Plutarco, meu pai quando viu aquilo caiu duro no pé da janela, meu Deus do céu meu pai, coitado do meu pai

O Onofre era uma das almas mais puras que já vi, até hoje sinto sua falta, aquele homem não merecia morrer assim

— Sei que é horrível tudo isso Damiana, mas agora é hora de lutar por sua vida, é isso que seu pai ia querer

— O que é aquilo?

— Aquilo é o velho Veloso, ou foi, nem sei mais

— O quê? É verdade isso Plutarco? Mas aquilo é um monstro

— Sim Damiana, é o velho Veloso misturado com um porco, ou melhor, o seu próprio porco

Alguns se aventuraram pra chegar na secretaria, mas a maioria ficou na sua própria casa, estávamos apavorados, mas eis que o mensageiro apareceu, abriu a porta para o pavor de todos

— Meu Deus quem é você?

— Não Samuel, calma, não atira

— Mas quem é ele? Quem é você estranho?

— É aquilo? Olha pra ele Plutarco, eu vou.....

Samuel deu um tiro à queima roupa no mensageiro, mas nada aconteceu

— O que foi isso? Eu errei?

— Não Samuel, você acertou, mas vejo que é um tolo assim como Plutarco, porque não foram embora? Não ouviram meus conselhos, agora estão condenados

Era o mensageiro, mas dessa vez se mostrou ainda mais pálido, mais fraco, envelhecido, todos lembraram de quando eu tinha dito

— É o cara do espelho?

— Você estava falando a verdade

— Você não pode evitar isso? claro que não é como nós, se pode evitar por favor nos ajude, ela perdeu o pai, o velho matou toda sua família, nunca lidamos com uma coisa assim

O mensageiro se sentou, estava cansado, visivelmente cansado e frágil

— Tenho mensagens, prestem atenção, ele já se alimentou por hoje, está saciado, vai pra mata agora, mas amanhã ao cair da noite ele volta, assim será por sete noites, estou exausto, espero que esteja preparado para sua missão Plutarco, não fique com medo, você vai se sair bem, tenho certeza

— Não, temos que ir embora Samuel, eu não confio nesse....

— Eu já disse idiotas, o vilarejo está selado, não dá pra sair, vocês são um bando de caipira teimoso

O mensageiro parecia estar se despedindo, parecia querer abrir nossas mentes, apenas com um olhar pude entender o que quis me dizer, ele olhou com aqueles olhos medonhos pra mim, me apontou e caiu duro na nossa frente

— Ele morreu?

— Acho que sim Damiana, acho que sim

— Diacho, e se for ele a tal entidade, missão? Que missão é essa que ele falou

— É mesmo Plutarco, o Manoel brejo tem razão, o que ele quis dizer com missão?

— Não sei Gregório, ele queria nos ajudar, desde o começo, nós que fomos idiotas, agora estamos perdidos

Fim

Texto de: João Damaceno Filho

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