Minha paixão pelo sobrenatural não tinha nada de normal, na verdade, era pra lá de anormal, mas o quê eu podia fazer, era minha essência, meu fetiche, minha tara e porque não dizer minha paixão
Domingo 24 de agosto de 1980
Bombeiros, água para todo lado, som de ambulância se aproximando, sirenes policiais, o olhar condenatório dos vizinhos
Eu no meio fio e uma policial a olhar-me com desconfiança, não só com desconfiança, com certo desprezo, o seu olhar dizia que eu era culpado
Por que não prestei atenção no universo? Sete dias, foram apenas sete dias
Eu acabara de completar 40 anos de idade, a quitação da empresa a qual trabalhava me deu um bom dinheiro, na verdade, 20 anos trabalhando com produtos químicos mereciam bem mais, nem sei como pude ficar tanto tempo no mesmo lugar, no mesmo terrível e perigoso lugar
A casa era linda, pequena claro, mas charmosa, bem cuidada, era de uma viúva que sim causava arrepios, mas em ver a casa nos classificados, corretor, cartório e etc., não passou de uma semana, foi incrível, tudo se encaixou perfeitamente, tudo em sete dias
Cheguei a pé, não levei sequer uma muda de roupa, só uma pequena mochila de cor verde com meu RG, CPF e uma carteira de vacinação que nem sei porque levei, e claro, uma quantia em dinheiro que poderia-me dar o privilégio de um mês sem pensar em nada
Nunca vou esquecer o respirar de alívio da minha tia, que ao saber que eu ia sair da casa que um dia foi da minha avó, que passou a ser das irmãs, mas minha tia sepultou-me com a irmã dela, minha mãe, mas voltando a casa
Cheguei na frente do portão e logo senti cheiro de queimado, antes que eu pudesse olhar pros lados, eis que as vozes saíram da sala na minha direção
— Ele chegou, senhora!
— Ainda bem, está atrasado 30 minutos
Eu não estava atrasado porra nenhuma, a velha que era estranha, mas foi honesta em dizer ouvir vozes a noite, claro foi estranho, muito estranho, mas eu era estranho também
Estava com dinheiro na mão, a oportunidade de não mais ver a minha tia, fantasma nenhum ia jogar areia no meu sonho
O corretor apenas me deu o último papel para assinar e a velha que, na verdade se chamava Maria Otília, deu-me a chave com lágrimas nos olhos, com fantasma ou sem fantasma ela adorava o lugar, mas preferiu morar com a filha, nunca vou esquecer aquele rosto esquelético e aquele batom vermelho deixando aquele rosto atípico ainda mais mal-ajambrado, aquela voz fanha e estridente me desejando boa sorte mais parecia um agouro
— Boa sorte meu rapaz, seja feliz como eu já fui um dia
Era segunda-feira às 16:15, coloquei o meu pé direito na sala que me acolheu prontamente, sim! Eu não sei explicar, mas a casa pareceu gostar da minha presença
Dona Maria Otília adorava incensos, pude ver uma caixinha na mesa de centro, outra em cima de uma mesinha que acomodava o telefone, e logo na entrada também vi alguns espetados no xaxim da samambaia
Eu estava naquele momento filme americano de estufar o peito e mostrar que consegui, poderia seguir o script cafona de tomar banho na estranha e horripilante banheira branca de porcelana, ou abrir o espumante inexistente da geladeira vazia, mas era vida real e o estômago já estava-me cutucando
Era meu primeiro dia no bairro, fui ao mercado, farmácia, quitanda, e consegui passar na casa de artigos religiosos e comprar uma vela de sete dias, não eu não era religioso, mas não tinha o hábito de dormir no breu da escuridão, dona Maria Otília não me enganou, disse que a luz seria religada no dia seguinte
Lembro que naquela primeira noite comi um generoso pão francês com mortadela, ovo e rodelas de tomate, comi admirando a cozinha que mais parecia cenário de novela
Não pelas frutas falsas na fruteira, mas pela cor azul chamativa do piso ornando com o famoso xadrez azul e branco do azulejo brega, juro que nas fotos não parecia ser tão bizarro
Fiquei ali parado, olhando pela janela da cozinha o céu que já estava escuro, bem escuro, pensei ser o momento exato dele me dar boas vindas, sim! O fantasma, a velha disse ouvir sons
Eu ali na mesa da cozinha olhando pela janela e nada, sim eu estava eufórico porque era importante já ter aquele baque logo de cara
Louco, idiota, insano, matusquella, podem-me chamar do que quiser, mas era minha vontade, era mais forte do que eu, frustrei-me na cozinha, abri a porta dos fundos que obviamente dava pro fundo da casa
O quintal era pequeno, tinha um jardim no meio, rosas-brancas e mato selvagem, vasos de barro quebrado, os terríveis anões de concreto, contei uns quatro já sem cor alguma
Fui pro quartinho dos fundos, a lua estava cheia, inspiradora para o sobrenatural, era loucura, mas eu queria ver o fantasma, eu queria de algum modo já romper com esse medo e aceitar o fato, mas aquela segunda-feira foi frustrante
Voltei até certo ponto irritado, voltei pela cozinha fechei a porta olhando por entre a fresta, mas nada, entrei no banheiro, tomei meu banho na banheira que não poderia me decepcionar
Era ela, sim! A banheira branca de porcelana, aquela dos filmes de Hollywood
Minha estúpida fixação não me deixou ver o quanto a casa era bela, e o quanto eu com 40 anos já estava me transformando num louco de pedra
Do banheiro pro quarto tinha um corredor com 3 quadros 2 de paisagem de natureza e um com a imagem de um homem, carrancudo com cicatriz na bochecha, estava tão chateado que não apostei minhas fichas no quadro
Cheguei no quarto, era lindo por sinal, inspirei-me novamente, pensei que ali sim era hora de nos encontrarmos, deitei, esperei algum barulho, alguma batida, passos na escada, mais nada, não tinha nada, ou a dona Maria Otília tinha me enganado, ou o filho da mãe não queria se apresentar
Repentinamente dei um mal jeito nas costas, o estalo me deixou preocupado, fui vagarosamente para cama, me deitei, mas em menos de cinco minutos uma súbita vontade de urinar tomou conta de mim
Me sentei na cama já percebendo que o meu chinelo não estava onde deixei, a dor nas costas somada a já confirmação que eu teria que colocar meu pé no chão frio causou-me uma puta raiva, mas não tinha jeito, ou melhor, era o único jeito
Coloquei os meus pés no piso gelado, que estavam tão gelados, mas tão gelados, que os meus pés ficaram dormentes, mas tão dormentes que não consegue mais sentir o gelo do piso
Os meus pés ficaram realmente dormentes, fui pro banheiro, e ele estava impossivelmente molhado, realmente todo molhado, uma bagunça, e eu odeio banheiro molhado, O chão estava totalmente molhado, a cena era horrível, pés descalços, e o chão do banheiro molhado, era realmente um filme de terror, fiz o que tinha que fazer e voltei para cama
Na verdade, eu estava inquieto, as minhas mãos estavam suando além da conta, mas uma brisa leve que passeava entre as gretas da janela fez-me dormir, sem pesadelos sem nada, dormi como uma criança
No dia seguinte fui acordado com bater de palmas que vinham da rua, eram os rapazes para religar a luz, foi horrível ouvir aquele bater de palmas intermináveis, uma falta de educação sem tamanho
A noite foi ótima, não tive sequer pesadelo, na verdade, tive um sonho muito agradável, pelo menos penso que tive, a minha mente estava muito confusa
Naquela manhã de terça-feira eu estava convicto em não querer saber mais desse negócio de paranormal, mas o funcionário da empresa de energia encorajou-me novamente com a sua frase
— Amigo! Estou meio sem jeito de falar uma coisa
— O que foi? Diga
— Você tem que trazer um padre aqui sei lá, na sua sala tem uma energia muito forte, uma aura pesada, já senti isso em outras casas
— Mas você está vendo alguma coisa? Algum fantasma? diga, eu também quero ver
— Não chefia, não estou vendo nada, mas que papo maluco é esse de querer ver fantasma, o senhor está bem?
— Claro que estou bem, estou a ser irônico, apenas isso
Eram dois funcionários, enquanto um ficou falando da aura ruim, o outro se mostrou realmente incomodado
Era perceptível sua agonia, seu desconforto foi tamanho que começou a dizer terem que ir embora, que não poderiam ficar ali nem mais um minuto, e foram
Claro que as falas dos funcionários trouxeram de volta a expectativa de, sim, ver o fantasma, almocei tranquilamente, varri a sala, dei também uma varrida no quintal
Era um dia ensolarado, dificilmente o sobrenatural ia se manifestar, frustrante, claro que era frustrante, eu estava arrasado, quarta-feira à noite, quinta-feira à noite, sexta-feira à noite e nada, nada dele se apresentar, eu já estava falando sozinho, dando murros na parede
Eu não podia aceitar ser o proprietário da casa e não usufruir de todas as regalias que ela tinha, sim, eu poderia estar ficando louco, as minhas mãos estavam dormentes assim como as minhas pernas
Vi sangue no corrimão da escada, vi sangue na banheira, mas de quem? Se era sobrenatural eu não estava entendendo, o necromante? Onde estava o necromante?
No sábado à noite um vizinho tocou a campainha, entrou, se apresentou como Arlindo, disse que se preocupou, e eu sem nenhum pudor disse a ele que estava procurando o tal fantasma da casa, disse que a dona Maria Otília era uma mentirosa
Ele olhou-me dos pés à cabeça, fez cara de espanto
— Amigo pelo amor de Deus, olhe para você, a sua roupa está ensanguentada, olha as suas unhas, tem sangue, tem barro no teu corpo todo, estou ouvindo você chorar e gemer a dias, só não chamei a polícia porquê da minha janela vi que estava vivo, mas procurava algo, a senhora Maria Otília era uma boa mulher, boa vizinha
— Calma! Peço desculpas por ter importunado, mas, na verdade não estou entendendo, minha cabeça dói, qual o seu nome mesmo? Como entrou........ Aqui..... Qual ....O seu nome mesmo? O fantasma, cadê o fantasma, porque ele não aparece pra mim, vamos me diga senhor
— Amigo você está a enlouquecer! Não tem fantasmas aqui, de onde tirou essa ideia, isso tá te perturbando, precisa de ajuda, um médico, olha o seu estado, Chega ...... Isso não pode continuar
Ele ficou falando, falando, falando......... Sua voz ficava cada vez mais baixa
— Eu vou agora na delegacia, chega de tanta loucura, olha todo esse sangue pela casa, meu Deus
Lembro que ele saiu furioso, bateu o portão, eu estava zonzo, alguém parecia sussurrar na minha mente, lembro que desci, fui para cozinha e.................
Cheiro de álcool.................
Achei o fósforo...................
(Algum tempo depois)
— Vai rapaz, sou uma policial, eu não tenho o dia todo, começa a falar, foi você que tocou fogo na própria casa?
Fim
Texto de: João Damaceno Filho
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Atualizado até capítulo 41
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