Entre Olhares e Pressões

Os últimos dias foram um verdadeiro turbilhão. A pressão no trabalho tinha me consumido tanto que não conseguia pensar em mais nada. A cada telefonema, a cada e-mail, eu sentia como se o peso das expectativas estivesse esmagando minha capacidade de criar. Estava frustrado e exausto. E o pior de tudo é que isso estava me afastando de Lis. Fazia dias que não a via, e a saudade começava a incomodar como uma pedra no sapato. Mas hoje era quinta-feira, e eu havia prometido levá-la para conhecer meu local de trabalho na BioPharma. Finalmente, um momento juntos, longe da pressão e do caos que se tornaram minha rotina.

Cheguei à casa de Lis depois do almoco, pontual como sempre. O sol já começava a se inclinar para o oeste, tingindo o céu com um tom dourado. Ao vê-la saindo pela porta, meu coração deu um salto. Ela estava deslumbrante, usando um vestido creme que destacava suas pernas longas e elegantes. Sua presença era como uma brisa fresca em meio a um dia sufocante. Cumprimentei seus pais com um sorriso, trocamos algumas palavras cordiais, e então, finalmente, partimos.

No caminho, enquanto dirigia, tentei aliviar o peso que carregava em meus ombros, compartilhando minhas preocupações com Lis.

“Esses últimos dias têm sido complicados,” comecei, sentindo o tom de frustração na minha própria voz. “As empresas para as quais fornecemos produtos estão exigindo novidades, mas minha mente está em branco. Não consigo pensar em nada novo, e meus funcionários… bom, eles não estão ajudando muito.”

Lis me olhou com aqueles olhos compreensivos que sempre faziam com que o mundo parecesse um pouco mais simples. “Otto, talvez você esteja colocando muita pressão sobre si mesmo. Todos nós passamos por momentos em que a criatividade simplesmente não flui. Isso não significa que você tenha falhado.”

Aquelas palavras me acalmaram, mas ainda havia um nó no meu peito. “Talvez,” concordei, hesitante. “Mas eu sinto que estou sendo pressionado de todos os lados. E não sei o que fazer com alguns dos funcionários. Eles estão ficando desleixados, e eu… estou começando a pensar que talvez tenha que trocar alguns deles.”

Lis assentiu em silêncio, absorvendo minhas palavras. O resto do caminho foi preenchido por uma conversa leve, onde ela tentou, sem sucesso, me distrair com histórias engraçadas sobre o trabalho dela. E, de certa forma, funcionou. Senti meu corpo relaxar um pouco enquanto nos aproximávamos da BioPharma.

Ao chegar à empresa, estacionei o carro e respirei fundo antes de sair. Queria que tudo saísse perfeito. Lis me seguiu, encantada com a arquitetura moderna do edifício, e entrelaçou seus dedos aos meus enquanto caminhávamos em direção à entrada.

Assim que passamos pela recepção, percebi os olhares dos meus funcionários. Muitos deles eram homens, e ao notarem Lis ao meu lado, senti a mudança no ar. Olhares demorados, cheios de malícia, percorriam o corpo dela. Aquilo me irritou profundamente, mas me esforcei para manter a compostura. Eu sabia que Lis não gostava de conflitos e preferia evitar cenas. E eu, bem, não queria estragar o nosso dia juntos. Mesmo assim, a tensão crescia dentro de mim a cada olhar que se arrastava sobre ela.

“Essa é a Lis,” disse, apresentando-a ao grupo de funcionários que estavam na sala de pesquisa. “Minha namorada.”

Os cumprimentos foram cordiais, mas eu via através deles. Lis, por sua vez, mantinha-se elegante e educada, sem perceber, ou talvez escolhendo ignorar, a forma como alguns deles a observavam. Ela sempre foi mais sábia em relação a essas coisas do que eu.

Conduzi Lis por toda a empresa, mostrando-lhe os laboratórios, as salas de pesquisa, e o setor de desenvolvimento. Tentei explicar alguns dos projetos em que estávamos trabalhando, mas a verdade era que minha mente estava dividida entre o orgulho que sentia por meu trabalho e o desconforto que crescia dentro de mim por causa dos olhares maliciosos dos outros.

Finalmente, após a longa visita, saímos da BioPharma e voltamos para o carro. A viagem de volta foi tranquila, quase silenciosa. Lis parecia estar processando tudo o que tinha visto, enquanto eu ainda lutava para controlar a raiva que borbulhava em meu interior.

Ao chegarmos ao meu apartamento, a noite já havia caído. A cidade estava iluminada por uma miríade de luzes, mas dentro de mim, a escuridão parecia prevalecer. Abri a porta para Lis e entramos. O espaço familiar trouxe uma sensação de alívio, como se ao menos aqui, em meu próprio território, eu pudesse deixar cair a máscara que tinha mantido durante o dia.

Lis se acomodou no sofá, cruzando as pernas graciosamente, enquanto eu fui até a cozinha preparar algo para nós bebermos. O silêncio entre nós não era desconfortável, mas carregava um peso. Sabia que Lis notara algo diferente em mim.

“Otto,” ela finalmente quebrou o silêncio, sua voz suave preenchendo a sala. “Você estava diferente hoje. Está tudo bem?”

Eu me virei para ela, segurando dois copos de vinho. “Eu… não sei, Lis. Ver aqueles caras olhando para você daquele jeito me deixou fora de mim.”

Ela me olhou com uma expressão mista de surpresa e ternura. “Otto, você sabe que eu sou sua, não sabe?”

“Sei, mas não é isso. Eu confio em você, mas é o desrespeito. Me incomoda profundamente ver que meus próprios funcionários não têm consideração suficiente para manter a profissionalidade.”

Ela se levantou e veio até mim, pegando um dos copos da minha mão. Seus dedos tocaram os meus, e aquele simples gesto trouxe um pouco de paz ao meu coração agitado. “Otto, você não pode controlar como as pessoas agem, mas pode escolher como reagir a isso. Não deixe que esse tipo de coisa te corroa por dentro.”

Assenti, absorvendo suas palavras. Sabia que ela estava certa, mas ainda assim, a ideia de ver aqueles homens diariamente, sabendo como eles a haviam olhado, fazia minha pele arder. “Talvez eu precise fazer algumas mudanças no time,” murmurei, meio para mim mesmo, meio para ela.

“Se for para o bem da empresa e do seu próprio bem-estar, então talvez seja o melhor a fazer,” Lis concordou, colocando o copo sobre a mesa e me puxando para o sofá.

Nos sentamos juntos, o silêncio confortável entre nós retornando, mas dessa vez com uma leveza diferente. Fiquei ali, segurando a mão dela, enquanto tentava deixar as preocupações do dia se dissiparem.

“Você sempre sabe o que dizer,” murmurei, olhando para ela. “Eu sou realmente um homem de sorte.”

Lis sorriu, aquele sorriso que sempre acendia algo dentro de mim, e se inclinou para um beijo suave. “Eu também sou,” ela disse contra os meus lábios.

E por aquele momento, enquanto nos reconectávamos, percebi que, independentemente das pressões externas, era a nossa ligação que realmente importava. As questões do trabalho, os funcionários problemáticos, tudo parecia pequeno em comparação com o que eu tinha ao meu lado. Naquele momento, me decidi a não deixar que as frustrações do trabalho se intrometessem entre nós. Precisava encontrar um equilíbrio. E, com Lis ao meu lado, sabia que era possível.

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