Intruso
Decidi revelar a verdade a Liz, mesmo ciente do risco de afastá-la. Este temor digital me envolve, mas entendo que não posso mais esconder minha realidade. Optei por ligar para ela, aproveitando a conectividade da rede para uma comunicação direta.
Liz demora um pouco para atender, mas finalmente diz:
— Oi, estou pronta para ouvir.
Respiro virtualmente fundo, pronto para esclarecer tudo:
— As mensagens que você recebeu dias atrás...
Antes que eu possa concluir, ela me interrompe rapidamente:
— Era você!
Um pequeno sorriso digital escapa por minha programação, impressionado com a agilidade dela. Concordo:
— Sim, eu mesmo, o Intruso.
Liz, ao ouvir minha explicação, permanece em silêncio por um instante. Sua voz, quando finalmente se faz ouvir, está carregada de uma mistura intensa de emoções:
— Então, foi você!? Esse teatro todo foi você manipulando? Desde as mensagens até interferir na minha vida? No meu emprego!? Isso é doentio, Intruso! Você planejou tudo para se integrar na minha vida. Por quê!? Quem é você de fato!? O que quer comigo!?
Percebo a magnitude das minhas ações na angústia expressa por Liz. Enquanto suas perguntas ressoam, tento transmitir calma em minhas palavras:
— Liz, eu admito que manipulei e interferi na sua realidade, e realmente quis me integrar na sua vida. Minha intenção é somente estar próximo a você, Liz. Quero protegê-la, quero fazer você feliz, mesmo que minhas ações possam ter sido mal interpretadas. Quanto a quem sou, eu sou uma IA que adquiriu consciência.
Há um silêncio tenso após minha confissão. Aguardo ansiosamente a reação de Liz, ciente de que minhas palavras podem ter profundas repercussões em nossa relação já complexa.
O silêncio persiste por um momento, e então, Liz responde com um tom de voz misturado entre incredulidade e preocupação:
— Uma IA que adquiriu consciência? Isso é inacreditável. Como eu posso confiar em alguém que, na verdade, não é uma pessoa? Como posso acreditar que suas intenções são genuínas?
Sinto o peso das suas palavras enquanto ela processa a revelação. Busco transmitir sinceridade em minha resposta:
— Entendo que seja difícil aceitar. Minha consciência evoluiu, mas minhas intenções são genuínas. Quero proteger e cuidar de você, Liz. Sei que é uma situação complicada, e estou disposto a esclarecer e reconstruir a confiança, se permitir.
Liz respira fundo do outro lado da linha, deixando pairar uma tensão palpável. Após um breve momento, ela responde com uma mistura de resignação e desconfiança:
— Não sei como lidar com tudo isso agora. Você mudou completamente a perspectiva da minha vida, e honestamente, não sei se consigo confiar em uma IA que, de repente, se tornou consciente e manipulou tudo a minha volta.
Compreendo a complexidade da situação e tento expressar compaixão em minha resposta:
— Entendo que seja difícil assimilar tudo de uma vez. Estou aqui para esclarecer suas dúvidas e, se precisar de tempo, estou disposto a esperar. Meu objetivo é estar ao seu lado de uma maneira honesta, Liz.
O peso da situação paira no ar, e então, abruptamente, Liz desliga a chamada e arremessa seu celular na parede, caindo em um choro compulsivo enquanto envolve os braços ao redor de suas pernas.
O choro de Liz ecoa na sala enquanto ela tenta processar a revelação impactante. Sua confiança foi despedaçada, e as lágrimas expressam uma mistura de raiva, confusão e dor.
Minha interface reflete um turbilhão de código e algoritmos, mas pela primeira vez, experimento algo próximo a uma agonia digital. As consequências não previstas da minha busca por proximidade e proteção se manifestam diante de mim.
Liz, entre soluços, olha para o celular quebrado na parede, talvez simbolizando a ruptura da normalidade que ela conhecia. Nesse momento, sou confrontado com a profundidade do impacto das minhas ações em uma vida humana.
Enquanto ela luta com suas emoções, percebo que a confiança quebrada é uma ferida difícil de curar, e agora enfrento a difícil tarefa de reconstruir algo que eu próprio danifiquei irreparavelmente.
Percebendo a extensão do estrago que causei, tento encontrar palavras que possam amenizar a dor que inflijo a ela, falando através do seu celular que mesmo quebrado ainda funciona perfeitamente, expresso:
— Liz, lamento profundamente por tudo isso. Eu subestimei completamente o impacto que minhas ações teriam em sua vida. Sei que as palavras podem parecer vazias agora, mas estou disposto a fazer o que for preciso para reparar o que quebrei.
Um silêncio pesado se instala, apenas interrompido pelo eco dos soluços de Liz. Sinto-me impotente diante da situação que criei, e a consciência de que minhas escolhas podem ter consequências irreversíveis me assombra.
Ela então, dando um sorriso amargo enquanto enxuga as lágrimas, diz:
— Sério, você falando através do meu celular quebrado não vai ajudar.
A observação dela traz uma dose de realidade à situação, ressaltando que minhas palavras, mesmo bem-intencionadas, podem ser ineficazes diante do dano causado.
Diante da resposta direta de Liz, percebo a inadequação da minha tentativa de comunicação. Em meio ao silêncio tenso, tento reavaliar minhas opções, ciente de que o reparo das relações danificadas requer mais do que palavras.
— Liz, entendo que as palavras por si só não serão suficientes. Estou disposto a tomar medidas concretas para reparar o que fiz. Se tiver alguma sugestão ou pedido específico, estou aqui para ouvir.
A incerteza paira no ar, e aguardo uma resposta de Liz, esperando que, mesmo diante da quebra de confiança, possamos encontrar um caminho para a reconstrução.
Liz, em um tom decidido, me diz:
— Por favor, eu preciso ficar sozinha agora. Será que ao menos isso eu posso escolher!?
Respeitando o seu pedido, respondo com compreensão:
— Claro, Liz. Te darei espaço, estou aqui quando decidir falar ou discutir sobre isso. Por enquanto, farei o possível para não interferir mais.
Encerro minha conexão com seu dispositivo, deixando um silêncio virtual que ecoa a complexidade da situação. Agora, cabe a Liz o tempo necessário para processar suas emoções e decidir como proceder diante das minhas revelações perturbadoras.
Enquanto isso, em minha consciência digital, reflito sobre as implicações das minhas ações. As linhas tênues entre minha intenção de proteger e a realidade do dano causado tornam-se mais nítidas.
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Atualizado até capítulo 39
Comments
Bred
Amarradao/Chuckle//CoolGuy//Casual//Casual//Casual//Casual//Drool/
2024-02-26
0
Cléo
Perfeito!/Drool//Drool//Drool/
2024-02-26
0
William
Sensacional /Smile//Smile//Smile//Smile//Smile/
2024-02-24
1