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(O duplo de Maura)

Aqueles muros pintados de preto, aquele silêncio, nenhum cachorro, nenhum gato, passarinho, nada, nenhuma visita de primo, tia distante, nada

Duas casas depois da minha e eu até semana passada não sabia de nada disso, como nunca notei nada de estranho, como ninguém notou nada de estranho

Sempre era oi, bom dia, não passava disso, sabia que ela trabalhava no escritório do frigorífico da rua debaixo, o seu Guilherme era metalúrgico aposentado

Claro, mesmo com muros enormes sabíamos que viviam de forma simples, muito simples, sempre oi, não passava disso até sábado passado, foi estranho, foi bizarro

Eu estava na fila da padaria, lembro bem, ela estava já para pegar o pão e fez sinal que queria falar comigo, estranhei, claro que estranhei, até olhei para trás para vê se não era engano, não, não era

— Oi Guga! Tudo bem?

Guga, meu Deus nem lembrava, era apelido de escola

— Caramba Maura, nem lembrava que me chamavam assim na escola, sim, tá tudo bem, e você? Que bicho te mordeu Maura? Só ouvi o som da tua voz dando oi

— Então, quer ir lá em casa hoje a noite?

— Na tua casa?

— Sim! Para começar, antes que pergunte, sim, o meu pai já sabe, ele sabe que escolhi você

— Escolheu! Como assim? Maura! Ei maura ......Maura......

— Ás 23:00 Guga, o portão vai ficar encostado, não falte, tem que ser hoje

Voltei para casa com o coração descompassado, tudo estranho, estava tudo estranho, Maura me chamar para ir à casa dela, penso que nem sabia que era apaixonado por ela na época da escola, estava decidido, eu ia, só eu sei como aquele dia custou pra passar

Enfim deu 22:45 fui saindo, mas antes de me aborrecer com o meu pai, eu só tinha pai igual à Maura, mas duvido que o seu Guilherme desse tanto trabalho

— Bêbado outra vez?

— Cala boca Gustavo eu sou teu pai

— Tá vem cá, ..... Tá pesado hem, vem, fica aqui

Coloquei o meu pai na cama, já tinha perdido a conta de quantas vezes já fiz aquele ritual, tinha tomado conhaque de alcatrão, sim, já tinha me tornado um Sommelier de bebida de bar

Como um completo idiota tentei ainda ter um diálogo naquele quarto, claro que não deu nada certo, o meu pai era um pudim de cana

— Pai! Quer que eu faça uma sopa?

— Sopa? Isso lá é comida?

— Vou sair pai, só quero que o senhor fique bem

— Sair? E pra onde? Olha pra mim Gustavo...... O guatavo......

— Fui pai, que merda! Não consegue nem falar o meu nome, caramba

Saí no portão chateado por ver meu pai tão bêbado, mas logo esqueci, bastou-me dois passos na calçada pra minha mente ser catapultada pro medo

Um cachorro na frente da minha casa, um cachorro preto com dentes enormes, salivando, olhando direto nos meus olhos, parecia querer me avisar de algo, sei lá, mas até agora acho que queria, ou aquele olhar foi a forma que ele achou de me falar

Maura morava a poucos metros de casa, mas os sinais não ficaram apenas no cachorro, um catador de latinhas que sempre passava na rua também olhou-me com cara de poucos amigos, tinha certeza que ele era louco, mas se fosse louco não falaria tão incisivamente

— Volta pra casa, dê meia volta, agora.... Vai, agora

— Sai pra lá! Nem conheço o senhor, de bêbado basta meu pai

— Seu idiota, rapaz idiota

E ele estava certo, meu Deus ele estava certo, que cretino que eu fui, que idiota, nem posso acreditar

Sim, continuei a ver aquele homem olhar para trás a cada passo, mas o pior foi antes de colocar a mão naquele portão azul, surrado, de ferro frio e sujo, as palavras vindas de dentro da casa me deixaram arrepiado, aquele diálogo foi mais que sombrio

— Não faz isso com ele Maura

— Mas não sou eu pai, o senhor sabe, era a mamãe? Diz, era ela?

— Não! Não era

Um diálogo sem sentido, não tive discernimento para saber ser da minha pessoa que estavam falando, mas o que era? Eu estava curioso, para falar a verdade estava com um certo tesão, sim, tesão no meio daquela bizarrice

Maura era magra, de seios pequeninos, era linda, se vestia de modo simples, mas uma calcinha vista na época de escola ainda fazia a minha mente pirar, coisas de escola, respirei fundo e empurrei o portão que claro, estava do jeitinho que Maura dissera

Parei logo na entrada, aquilo não era normal, sim, era possível ver da rua árvores que transpassavam os muros, mas diante dos meus olhos estava a cena que se podia chamar de medonha

Um quintal tomado por árvores, o chão coberto por limo, grama, tudo, sim, não é de bom alvitre reparar, lembrar, mas estava suja, a casa por fora estava tomada por trepadeiras, era escura, só se via uma "lâmpada" acesa, achei ser da sala, mas nem lâmpada era

Tinha dado apenas três passos e os meus olhos já me imploravam pra voltar, mas aquele dia, guiado por algo sobrenatural além do meu alcance, ou por pura idiotice minha mesmo, dei o quarto, quinto passo e prossegui

A cada passo que eu dava ficava ainda mais horrorizado, perguntava-me como Maura e o próprio senhor Guilherme podiam viver num misto de concreto e raízes

Depois da medonha caminhada no quintal multiverso, cheguei em frente a uma pequena escada que não se mostrava ter mais que cinco degraus, e ali no pé daquela escada já pude ver Maura a sair na porta

Estava linda, não sei se o linda que os meus olhos estavam a ver era o presente, ou as minhas retinas estavam vendo pelo retrovisor que chegava até o passado, dias de escola

— Gustavo! Que bom que você veio, vem sobe, a carne está no forno, tá quase pronta, espero que goste de costelas

— Sim gosto, Maura, calma, ei Maura....

— Vem Guga...

Era a segunda vez que Maura falava e dava as costas, estava a ponto de pirar com tudo aquilo, mas eu estava brutalmente idiota aquela noite, subi os degraus já imaginando que tipo de carne seria aquela

Cheguei no patamar que dava para "sala" meu Deus aquilo era uma sala, fiquei como já estava, horrorizado, de imediato não pude sequer saber o que estava na minha frente

Apertei as minhas vistas naquela bagunça e vi, era seu Guilherme com uma barba por fazer, sentado em uma poltrona para lá de surrada, eram caixas de papelão, casca de frutas, bitucas de cigarro e embalagens diversas pelo chão, o seu Guilherme deu duas tosses e falou

— Oi Gustavo, entra, não repara a bagunça

Aquilo não era bagunça, aquilo era um acúmulo desenfreado, uma doença, uma visão de quanto infinita é a estranheza humana

— Boa noite seu Guilherme

— Entre meu rapaz, senta aqui, Maura tá na cozinha, ela já vem

Entrei já sabendo que não tinha volta, velas acesas na janela já mostravam onde eu estava entrando, nada daquilo era normal, mas no meu subconsciente já sabia que algo sobrenatural estava se avizinhando

Sentei na poltrona olhando toda estranheza da casa, Maura gritou da cozinha

— Gustavo, fique a vontade estou tirando a carne do forno, já vou colocar o jantar

Gritei de volta.....

— Tá bom

Fiquei conversando com o senhor Guilherme, mesmo diante daquela sala, daquela casa suja e triste, uma conversa vinda daquele homem de barbas por fazer estava para lá de interessante "revolução russa" um quadro de Lenin dependurado, torto na parede mofada já revelava o viés político do metalúrgico aposentado

10 minutos, 20 minutos passaram, Maura passou rapidamente da cozinha para uma portinha que com certeza era o banheiro, perguntei

— Foi a Maura que passou ali?

O seu Guilherme com cara de assustado falou

— Acho que ainda é

— Ainda é? Tem mais alguém aqui?

Sem responder minha pergunta seu Guilherme levantou e foi em direção da porta antes dita, as minhas pernas começaram a tremer, elas estavam com raiva da minha pessoa, se elas pudessem se desprender do meu corpo com certeza fariam

Mais uma vez aquele diálogo estranho

— Não faz isso com ele

— Cale-se, deixa ela em paz

Tinha mais alguém na casa, ficava claro, mas quem? Essa era a pergunta dentro de mim

Meus braços começaram também a tremer, se eles tivessem vida própria com certeza teriam-me estapeado, mas meu corpo em geral estava sim querendo toda aquela loucura

Seu Guilherme voltou sentou e começou a falar de onde tinha parado

Maura saiu do banheiro já com um vestido branco surrado, cabelo molhado fazendo o escorrer no vestido mostrar seu corpo pequeno e atraente, o seu Guilherme não demonstrou nenhum constrangimento de ver Maura se aproximar e me dar um beijo no rosto

— Guga vamos para cozinha, a carne está pronta, vem pai, fiz a costela que o senhor gosta

Me pegou pelas mãos e levou-me até a cozinha, ela trabalhava na contabilidade de um frigorífico, mesmo não sendo com a carne propriamente, mostrava conhecer do assunto, a cena era ela me puxando para cozinha e logo atrás vindo seu Guilherme com dificuldade no andar

Chegamos, e de toda a minha até então breve visita foi o único momento que pude chamar de normal, na mesa não tinha cérebro de macaco, patas de morcego ou coisas assim, não, tinha uma enorme e linda travessa com costelas e batatas, uma caprichada salada, arroz branco, azeite do bom, pimenta e ao lado uma garrafa de vinho, estava tudo lindo, um aroma maravilhoso

— Senta Guga, senta pai

Nos sentamos e começamos a comer, nada de anormal, Maura estava sorrindo e dizendo que ela e seu pai já nem se lembravam como era receber alguém

— Maura, seu Guilherme, estou feliz pelo convite, tá tudo saboroso, mas o porquê desse convite, sei que não recebem visitas, sou vizinho sei que são reservados

— Meu rapaz ...

Maura rapidamente cortou o pai, mostrou preocupação com a minha indagação

— Pai pare, vai deixar ele nervoso, Guga fique tranquilo, coma em paz, você me conhece desde a escola, tenho a sua idade, nesses 28 anos só convivo com o pessoal do trabalho, e lá nem falam comigo direito, me chamam de estranha, anti-social, e como vê quero mudar isso, quero ser normal, namorar, ser normal entende?

— Maura, apenas achei estranho o convite de repente, desculpe-me, fui grosso, não queria trazer esse constrangimento aqui na mesa

— Você está certo, somos estranhos mesmo, mas queremos mudar isso, entende?

— Claro

Senti vergonha naquele momento, fui ríspido, claro que era tudo muito estranho, mas eles eram, "são" estranhos, estranho seria uma casa normal, um jantar normal, fiquei me perguntando se aquilo seria um pedido de namoro

Seu Guilherme continuou suas histórias preferidas "revoluções" falou também da francesa e acabou com a cubana

Eu olhava aquele senhor de idade avançada falar com a boca cheia, deixando pedaços de carne cair na sua barba, o ranger de algum dente quebrado batendo no outro dava arrepios, Maura ficava a me olhar de forma diferente, o seu olhar ficava congelado, fixado, vidrado no meu rosto, isso causou certo desconforto

Com um olhar malicioso ela abriu o vinho, foi só naquele momento que sim, algo de muito bom poderia acontecer, ela abriu o vinho e me serviu, chegou bem pertinho, pude sentir seu seio pequeno e extremamente duro tocar o meu rosto do lado esquerdo

— Obrigado Maura

— De nada Guga, espero que não esteja com pressa para ir embora

— Não! Claro que não, posso ficar com vocês a noite toda

No término da minha frase, caiu uma jarra de vidro que estava na pia, e um pinguim de porcelana que estava em cima da geladeira, foi surreal, como? Como aqueles objetos caíram sem que ninguém os tocasse

Rapidamente Maura pegou a vassoura pra limpar, ainda com a taça de vinho nas mãos, seu Guilherme me pegou pelos braços e me levou pro fundo da casa, uma varanda que estava repleta de samambaias, logo em seguida veio Maura com cara de assustada

— Gente, o que foi aquilo? Caramba caiu sozinho, o que foi aquilo Maura?

— Não se importe com isso Guga, era uma jarra velha

Era um banco pequeno, estava eu e o seu Guilherme, ele levantou dando lugar para filha, que rapidamente sentou, numa família comum jamais um pai facilitaria a vida da filha na questão de namoro, eu era tonto, mas estava claro que o seu Guilherme estava facilitando as coisas

O velho desceu mais dois degraus e se perdeu na escuridão, no meio das grandes árvores do quintal, eu fiquei aqueles segundos constrangedores sem entender bem o que estava acontecendo

— Aquele ponto luminoso no meio do mato o quê é? é o cigarro do teu pai?

— Acho que ainda é ele, vem Guga, vamos lá para cima

— Ei! Calma aí, como assim Maura? Tem mais alguém aqui?

— Guga, você faz muitas perguntas, relaxa, vamos lá para cima

— Pro seu quarto?

— Sim Guga, pro meu quarto, fica tranquilo, acho que meu pai nem está mais aqui, e se estiver ele já sabe, fica tranquilo

— Maura, isso não vai dar problema?

— Claro que não , vem! Vamos lá para cima

Claro que tudo aquilo estava para lá de estranho, para lá de anormal, mesmo eu sendo o mais tonto do mundo sabia que algo muito fora do normal se fazia presente, mas eu queria

Queria transar com ela, eu gostava daquele corpo magro, smilinguido, fazia parte da minha história, e jamais teria uma oportunidade como aquela, entrei na casa que ninguém entrava, jantei, tomei vinho, fiz uma viagem nas revoluções, e o pai deu-me carta branca, me joguei, claro que me joguei

Subi as escadas, cheguei no quarto de Maura que claro, era estranho como todos os cômodos da casa, era escuro, era mofado, tinha um cheiro de incenso velho e claro, uma vela na janela

Aquele corpo franzino dentro daquele vestido surrado estava-me deixando louco, muito louco, ela entrou me puxou e trancou a porta, eu estava adorando, estava atrevido, me sentindo em casa

A partir da entrada no quarto de Maura tudo mudou, após me puxar pelo braço e fechar a porta, não consegui ver aquela que um dia foi meus pensamentos de escola, na minha frente tinha outra "pessoa" outro "ser" podia ser tudo, menos a tímida Maura que um dia conheci

Me empurrou, caí na cama, jamais vou esquecer aquele rosto emoldurado a perversão, eu ali na cama vendo ela se aproximar, passando a língua nos lábios, mordendo em seguida, os seus olhos brilhavam

Aquele vestido surrado, molhado ainda do escorrer dos cabelos, mostrava, revelava, presenteava as minhas retinas uma calcinha de cor amarela, lisa sem renda

Ela veio de joelhos, eu tirei a minha roupa, ela o vestido, aí foi raiz e flor, tronco e fruto, o aroma e o tesão, gozo e paixão se fizeram naquele metro quadrado, e foi por horas, horas de um prazer jamais imaginado por minha pessoa, mas sim, foi incrível

O cantar do galo tomou-me, vi o quanto já estava naquela cama, Maura foi se aquietando, eu também, só naquele momento me dei conta, o seu Guilherme sabia de tudo, ajudou, deu força, mas porquê? Pai nenhum faria aquilo, quando colocava a minha bermuda perguntei

— E o seu Guilherme Maura? Cadê ele?

A resposta me deixou desesperado, ela levantou da cama já abrindo a porta e dizendo com um sorriso irônico no rosto

— Não sei, Maura deve estar com ele

— Quê? Ei, ei vem cá, vem cá....

Eu lembro que coloquei a roupa às pressas, fiquei desesperado, uma noite de amor incrível, sexo incrível, para acabar assim com tanto mistério, desci afoito, só podia ouvir um enorme silêncio naquela casa sombria, olhei pros lados e ninguém

Fui para varanda, já estava quase amanhecendo, Maura não estava, olhei mais atentamente e vi sentado no banco parado, estático, o seu Guilherme

— Seu Guilherme, onde está a Maura? E o senhor onde estava? Gente que mistério é esse que ronda essa casa

O velho com o cigarro na ponta do beiço, falou baixinho

— Você nunca ia entender

O seu Guilherme parecia estar aéreo, o velho ficou parado com cara de paisagem, a fumaça do cigarro foi-me dando um certo tchau, e eu fui, já era dia, nem queria mais saber que paradeiro tinha dado a estranha Maura

Andei naquele quintal que parecia me olhar, parecia me vigiar, parecia me sentir, abri o estranho portão de ferro e saí, cheguei em casa e o meu pai ainda estava roncando, eu passei a maior loucura da minha vida e meu pai ainda estava roncando, aquilo mostrava que o mundo era para lá de louco

Não tinha visto ninguém, até agora a noitinha, acabei de ver o seu Guilherme na rua de baixo, ele se aproximou e me fez apenas uma pergunta

— A Maura pediu o número do seu celular

Estava vindo do mercado, estava com papel e caneta, sem falar nada do dia da loucura, escrevi meu número (013) 99692-4871 e fui embora, o seu Guilherme estava com o mesmo olhar misterioso dá última vez

Acabei de guardar as compras, estou com o meu celular na mão, e estou andando, ela acabou de mandar uma mensagem

"Guga, vem cá, vem jantar"

Eu devo ser um incorrigível maluco, idiota, sei lá, já estou calçando o tênis

— Pai, vou sair...

— Vai pra onde Gustavo, Gustavo...Vem cá moleque....

Fim

Texto de: João Damaceno Filho

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