O lobisomem
"Oi, me chamo Ismael, e escrevo essas linhas porque tenho necessidade de contar minha história a alguém. Não que eu espere que voce vá acreditar, mas vou acabar enlouquecendo se continuar guardando isso só pra mim.
O que vou narrar aconteceu a muitos anos, em minha juventude, la pelos idos de 1977, quase no finalzinho do ano. Eu tinha recém completado meu vigésimo aniversário e ainda morava na fazenda do meu pai nos arredores de Ponta Grossa, no Paraná. E também meu tio Erminio, que morava na Europa e que a muitos anos não víamos viera nos visitar. Naquela noite lembro de ter saído com a Rural Willis do meu Velho, apesar das suplicas do meu pai para que eu permanecesse em casa. Dizia ele que aquela não era uma boa semana pra fazer aquilo que elê sabia que eu queria. Até mesmo meu tio, que eu mau conhecia, tentou dissuadir-me de meus planos. Que o melhor que eu fazia era acompanhar com meu pai ao jogo do Internacional pela televisão . Mas eu era teimoso como uma mula e acabei indo de qualquer jeito. Peguei a Rural e fui pra Ponta Grossa, pra um puteiro que eu conhecia, pra passar um tempo com uma determinada mulher de que hoje já nem me lembro o nome. Quando finalmente resolvi tomar o rumo de minha casa, já passava da meia noite, e uma grande lua cheia dominava o céu estrelado.
Então, quando estava a alguns quilômetros da fazenda, escutei o uivo. Não um uivo qualquer, mas um som que parecia encerrar toda a maldade existente nesse mundo. E eu compreendi que deveria ter ficado em casa naquela noite.
E de repente a coisa estava lá parada no meio da estradinha de chão que levava até a casa da fazenda. Estava ali, iluminada pelas luzes da Rural Willis, um bicho enorme, todo coberto por pelos negros, o focinho arreganhado em um horrendo sorriso de presas animalescas e eu não precisei ser nenhum gênio pra saber o que era.
Fiquei ali sem saber o que fazer, até que a coisa avançou sobre a Rural e começou a destroça-la, e tudo que me passava pela cabeça é que eu ia morrer.
Foi quando não havia mais nada entre eu e a fera que eu me senti puxado por uma força inumana e fui atirado pelo ar, indo cair no chão a uns quatro metros de distância do carro. Imediatamente senti algo viscoso e fedorento escorrendo pela minha face, e compreendi que era a babá do lobisomem que já estava sobre mim, pronto para dilacerar-me a carne.
Então vieram os tiros. Muitos, tantos que nem sei ao certo. E sob a luz da lua cheia e dos faróis dos jipes da fazenda, o lobisomem tombou. E para minha surpresa, diante de meus olhos começou a transformar-se novamente em sua forma humana. A face que me olhava com seus olhos sem vida era a face de meu tio. Foi quando eu descobri que o pesadelo não terminaria ali. Meu pai abaixou-se e aos prantos começou a chorar pelo irmão. E me culpou pela morte de meu tio. Porque se eu não fosse tão teimoso, nada daquilo teria acontecido. Meu tio teria passado a noite nos ermos, sem causar mau a ninguém da família e teria ido embora no dia seguinte.
Hoje meu pai já é morto. Durante todos os anos que transcorreram desde aquela noite meu velho nunca mais me dirigiu a palavra. E A LEMBRANÇA E A CULPA TEM ME PERSEGUIDO por cada hora de cada dia desde então."
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Atualizado até capítulo 137
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