Capítulo 2: O Chamado da Lua
A manhã seguinte trouxe a Emily um desconforto que parecia grudado à pele. Enquanto ajudava Alessa a organizar os pães, não conseguia esquecer o som dos uivos da noite anterior. Era como se algo tivesse se acendido dentro dela, uma centelha desconhecida que se recusava a apagar.
— O que você tem hoje? Está ainda mais inútil que o normal! — reclamou Alessa, observando Emily derrubar um saco de farinha no chão.
Emily pediu desculpas apressadamente e começou a limpar. Mas sua mente estava longe dali, presa à floresta. O uivo, a sensação de calor, a voz sussurrada... tudo a perturbava. Ela precisava entender o que estava acontecendo.
Ao fim do dia, quando o trabalho na padaria terminou, Emily não voltou para o pequeno quarto onde dormia. Em vez disso, caminhou em direção à floresta.
Cada passo a levava mais fundo no labirinto de árvores. O ar estava fresco, e a luz do entardecer criava sombras que dançavam ao seu redor. Ela não sabia exatamente o que estava procurando, mas seu coração dizia que era ali que encontraria respostas.
De repente, parou. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som de folhas sob seus pés. Então, como se o universo respondesse ao seu chamado, um uivo ecoou novamente, mais próximo desta vez.
Emily engoliu em seco. Sentiu aquele calor familiar percorrer seu corpo, mais forte do que na noite anterior. Sua respiração acelerou enquanto seus sentidos pareciam aguçar, captando o cheiro da terra úmida, o som de galhos quebrando ao longe.
— Quem está aí? — ela chamou, a voz tremendo.
Nenhuma resposta.
Por um momento, pensou em voltar para a vila. Mas algo dentro dela a empurrou para frente, guiando-a por uma trilha invisível até chegar a uma clareira iluminada pela luz pálida da lua crescente.
No centro da clareira, duas figuras estavam de pé.
Eram mulheres – altas, imponentes, com ares de força e autoridade. Seus cabelos brilhavam à luz da lua, e seus olhos, um par dourado e outro prateado, cravaram-se em Emily. Elas não se pareciam com ninguém que Emily já tivesse visto na vila ou em qualquer lugar.
— Finalmente — disse uma delas, a de olhos dourados, com um leve sorriso. Sua voz era firme, mas carregava um toque de suavidade.
Emily ficou imóvel, sentindo a presença esmagadora daquelas mulheres.
— Quem... quem são vocês? — conseguiu perguntar, a garganta seca.
A mulher de olhos prateados deu um passo à frente. Seus movimentos eram fluidos, como se dançasse.
— Eu sou Sofia. Esta é Layla. — Sua voz era fria, mas cativante. — E você, Emily, é a razão de estarmos aqui.
Emily deu um passo para trás, confusa e assustada.
— Como sabem meu nome? O que querem comigo?
Layla, a de olhos dourados, se aproximou com calma, sem tirar os olhos de Emily.
— Você sente, não sente? Essa conexão... essa força que pulsa em você. Você ouviu nosso chamado.
Emily balançou a cabeça, tentando negar, mas era inútil.
— Não sei do que estão falando. Sou só uma ômega... Não tenho nada de especial.
Sofia arqueou uma sobrancelha, e um sorriso breve tocou seus lábios.
— Ah, querida, você é muito mais do que uma ômega comum.
Antes que Emily pudesse responder, Layla ergueu a mão, apontando para a lua.
— Você é a Suprema Luna. Destinada a liderar ao nosso lado.
O mundo de Emily pareceu girar. Ela deu mais um passo para trás, sentindo o coração bater tão forte que parecia querer sair do peito.
— Isso é um engano. Não posso ser o que vocês acham. Eu... eu nem consigo sentir meu próprio cheiro!
Sofia e Layla trocaram um olhar rápido antes de Sofia suspirar, cruzando os braços.
— É normal que você não entenda agora. Tudo isso foi escondido de você, mas sua verdadeira natureza está despertando. Por isso você sente esse calor. Por isso ouviu nossos uivos.
— Vocês estão erradas! — Emily gritou, sentindo as lágrimas queimarem em seus olhos.
Layla deu mais um passo, diminuindo ainda mais a distância entre elas. Sua presença era quase avassaladora, mas seu tom, quando falou, era gentil.
— Emily, escute-me. Nós duas somos as Supremas Alfas. Juntas, governamos as alcateias de todo este território. Mas sem você, nossa aliança está incompleta. Você é a peça central desse elo.
Emily olhou para as duas, sentindo-se ainda mais perdida. Como aquilo poderia ser verdade? Ela, que era rejeitada por todos, que não tinha valor algum?
— Não posso... Não posso ser quem vocês querem que eu seja.
Sofia inclinou a cabeça, estudando Emily com curiosidade.
— Você não precisa decidir agora. Mas saiba que sua vida nunca mais será a mesma. Negar quem você é só trará mais dor.
Emily quis responder, mas as palavras não vieram. Sentia-se sufocada pela intensidade daquelas mulheres, pela impossibilidade do que diziam.
Quando finalmente conseguiu se mover, virou-se e correu.
Ela correu pela floresta, tropeçando em raízes e galhos, até chegar de volta à vila. Seu peito doía, e sua mente estava um caos.
Enquanto fechava a porta do quarto e se jogava na cama, uma única pergunta ecoava em sua mente:
“E se elas estiverem certas?”
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Atualizado até capítulo 27
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