Alda desligou o telefone, com lágrimas a cair no seu rosto:
"- Era a Linda, certo?" - Perguntou-lhe Alan.
Alan era seu assitente, mas mais que isso, há pelo menos dois anos que se tinha tornado o âmparo das suas fragilidades. Estava com ela sempre que ela precisava ser fraca, para sobreviver ao mundo em que vivia, rodeada de predadores.
Embora não tivessem uma relação assumida, eram amantes, amigos, e para ela, ele era sem duvida a sua força em meio do caos. Era um homem com cabelos bem brancos já a aparecer, o que lhe dava um charme especial, e uns grandes olhos azuis, que lembravam Alda do mar que tanto amava, mas que há anos não apreciava...
" Sim, era... Está preocupada por Sun estar lá. Mas, foi o sitio mais seguro que pude pensar..."
" Eu sei... E é normal ela ter os seus receios... Mas eu sei que não vão descobrir que Sun está lá, e no final disto tudo, voltará tudo ao normal." - Tentou ele acalmá-la.
" Sinceramente, agora já não sei se foi a melhor decisão que tomei... Está muita coisa em jogo... Principalmente acerca do meu passado, que tu sabes bem o que pode trazer..."
" Sim, eu sei, mas não achas que também já está na altura de enfrentares isso?"
" Não Alan! Muito menos agora com estas ameaças a Sun, só pioraria tudo... Não estou pronta ainda... Tenho tanto medo...!" - disse-o e desabou, chorando nos braços de Alan, por tudo o que ainda estaria por vir, e pelos medos que tinha deixado adormecidos tanto tempo e que despertavam agora, numa nova e assustadora força.
Na pousada de Win, Sun estava agora sózinho no quarto. Nem fazia ideia de que horas seriam, mas a noite parecia-lhe longa, em meio aos pensamentos que tomavam a sua mente.
Ele queria saber como estava Win. Queria pedir-lhe desculpa pelas palavras duras que lhe dissera, mas sabia que não podia fazê-lo. Não agora. Ele tinha feito o certo em afastá-lo, mesmo que isso significasse que ambos sairiam magoados.
Numa questão de tão poucos dias, Win tinha-o feito sentir tantas coisas que nunca antes sentira na vida... Ele não entendia como isso era sequer possivel. Ele sempre se resguardara tanto. Assim como Jake lhe dissera, estiveram juntos dois anos, e Sun nunca sentira necessidade de nada mais que a sua companhia. Com Win, tudo era intenso, avassalador, e ao mesmo tempo isso tornava-se assustador, pois Sun não sabia até que ponto iria conseguir controlar as emoções perto dele, para continuar aquele disfarçe, que ele precisava manter, a todo o custo. Era doloroso pensar que não poderia tocá-lo de novo... Que não poderia vê-lo sorrir apenas para ele outra vez... Iria guardar esses momentos com ele, para sempre, assim como aquele amor, que despertou em seu coração...
No quarto de Pete, ele e Bob estavam também ainda sem conseguir dormir, falavam sobre o assunto que preocupava a todos no momento, e que ao mesmo tempo despertava também a curiosidade da equipa:
" - O que achas que aconteceu entre eles?" - Perguntou Bob.
" - Sinceramente, gostava de ter sido mosca ontem, para estar lá, mas desconfio que as coisas entre eles aqueceram um pouco..." - respondeu Pete.
" - Achas mesmo? Sun nessas coisas... Sabes como ele é... Ele não é de se apaixonar, ou de se abrir com alguém facilmente... Ele esteve com Jake tanto tempo, e nunca se passou nada. Achas mesmo que ia acontecer com alguém que é praticamente um estranho?"
" - Eu só acho que, em questões que envolvem coração, ou sentimentos, nada tem a ver com tempo. Sentes e pronto."
" - Uau... Pareces um entendido no assunto..." - Brinca Bob com um meio sorriso...
"- É... Talvez até seja..."
" - O que queres dizer com isso?"- Bob parece confuso.
"- Nada... Vamos dormir, a noite passada e o dia de hoje foram demasiado compridos, estou cansado..."
" - Ok... Como queiras." - Finaliza Bob, num tom meio aborrecido.
Ele odiava meias conversas, coisas deixadas soltas no ar.
Preparou-se para se levantar, para voltar ao seu quarto, mas Pete segurou-o pelo pulso e disse:
" - Podes ficar aqui esta noite? Não quero ficar sózinho..."
Bob olhou-o confuso, mas entendia que as últimas horas tinham sido intensas para todos e sabia que Pete tinha aquele lado sensivel, e que guardava muito do que sentia só para ele mesmo, pelo que acabou por ceder:
" - Ok, eu fico aqui..."
Mike e Jun estavam ainda no bar vazio, sentados numa mesa, visto que Dean ajudava Paty a finalizar a noite na cozinha e Jessi saira até lá fora com James:
" - Acho que ambos sabemos o que se passou não sabemos?" - Pergunta Mike, com uma cara que denotava preocupação e um misto de tristeza.
Jun sentia-se da mesma forma, um tanto impotente por não saber como ajudar, naquela situação.
" - Sim, ambos sabemos babe... Nós melhor que ninguém sabemos o que é viver um amor que por algum motivo precisamos esconder dos outros..."
" - Mas é isso que não percebo! Se eles estão a sentir algo um pelo outro, para quê esconder? Eles são adultos e livres..." - Mike parecia indignado.
"- Tens razão, mas lembra-te da situação que nos trouxe aqui... Não estamos propriamente de férias, e com certeza a cabeça de Sun não estará nas melhores condições agora... Ele tem passado por muito ultimamente, não vai ser fácil gerir..."
" - Mas para mim, isso só seria mais um bom motivo para ele aproveitar o que estão a sentir e agarrar-se a algo bom vindo desta situação toda..."
" - Bem, é fácil para nós pensar assim, mas eu acho que meio que sei e entendo o motivo das coisas não terem corrido bem..."
Paty arruma a última travessa que faltava da louça usada naquela noite, no armário da cozinha. Vira-se e encosta-se na bancada, com ar exausto. Dean olha para ela, com ar preocupado:
" - Cansada?" - Pergunta-lhe.
" - Um pouco... Mas acho que estou mais preocupada com Win... Em tantos anos que estamos juntos nesta pousada, nunca o vi tirar nenhum dia de folga, ou desaparecer assim... Algo está muito mal..."
" - Sim... Estamos todos preocupados com ele. Passei por ele há pouco, ia a caminho da praia rochosa. Perguntei-lhe se queria companhia e uma bebida, mas disse-me que precisava ficar sózinho. Achei que devia dar-lhe espaço, mesmo querendo gritar-lhe que estamos aqui para ele, e a morrer de preocupação."
" - Sim, mas fizeste bem deixá-lo ir... O mar, no caso dele, sempre foi o melhor conselheiro. De certeza que amanhã ele vai estar melhor. Deixei comida com a Linda lá em casa, para quando ele voltar..." - Paty esfrega a nuca, pela dor e cansaço.
Dean começa a aproximar-se dela e diz:
" - Estás com dores? Precisas que te passe uma pomada para aliviar?" - e prepara-se para lhe tocar, mas ela afasta-se no preciso momento em que a mão dele quase toca na sua, que estava ainda agarrada à nuca.
" - Não, está tudo bem, não preciso de nada. Está tarde. Acho que vou indo, tentar descansar, Fechas a porta do bar e do salão certo?" - pergunta ela, enquanto se afasta para a porta da cozinha.
Dean baixa lentamente a mão e aperta os lábios, acenando afirmativamente com a cabeça à pergunta dela e ela finaliza:
" - Certo... Boa noite então..." - e vira costas, saindo da cozinha.
Dean fica mais uma vez sózinho, com a sensação de que nunca terá de volta, nem um pouco do amor da sua vida...
Win estava onde seria de esperar... Sentado na praia, olhando para o seu mar imenso, à procura de respostas para as dúvidas que o assolavam.
Chorava... Tinha chorado mais nas últimas horas, do que nos 27 anos que tinha de vida. Nunca nada o afetara tanto como as palavras de Sun naquela manhã, depois de viverem o que viveram... Não conseguia entender o porquê... O que é que aquela pessoa, que até há poucos dias era apenas um estranho tinha feito com o seu coração? Nunca tinha experimentado aquele sentimento... Ou melhor, todos aqueles sentimentos que viveu com ele... Será que era verdade a história das almas gémeas? Para ele não havia outra explicação para ele ter vivido toda a sua vida sem nada que se parecesse com aquilo que sentia agora, e de repente ele aparecer e mudar tudo, no seu corpo, na sua alma, e no seu coração... Sun tinha feito simplesmente com que ele sentisse tudo... E acabara por tirar-lhe tudo também. Como é que ele lhe podia dizer para esquecer o que se passou naquela gruta? Como é que ele, de forma tão indiferente, esperava que ele agisse normalmente depois do que sentiram? Win sabia, ou pensava acreditar realmente, que não fora só ele que sentira a imensidade que aquela noite tinha sido. Ele recusava-se a sentir-se tão enganado. Não podia ser... Estava lá, nos olhos de Sun, ele também tinha sentido tudo, ele também tinha vivido aquilo, da mesma forma. Win sentia-se tão perdido... Como é que ele ia fazer para ter uma relação tipica de hóspede e dono de pousada com alguém que lhe dera tanto, mas ao mesmo tempo lhe tirara tudo? A única coisa que ele podia fazer agora, era desabafar tudo com o mar, deixar com ele as suas próprias lágrimas de sal, para as juntar com o oceano. Ia chorar tudo agora, com a lua como testmunha, para nunca mais deixar ninguém magoá-lo assim de novo...
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Atualizado até capítulo 65
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