Capítulo 3 - O Jogo da Verdade
Ao voltar para a mansão Mancini, Scarlett sentia um peso em cada passo. As memórias do dia com July estavam vívidas em sua mente, especialmente o beijo. Era a primeira vez que ela se sentia tão vulnerável, mas também, tão viva. Mesmo sabendo do perigo, não conseguia ignorar a atração por aquela mulher misteriosa.
Assim que entrou no hall principal, deu de cara com Raika, que estava à espera, como sempre. O rosto dela estava neutro, mas Scarlett sentiu uma ponta de tensão. Era como se Raika estivesse percebendo algo diferente, lendo seu rosto e vendo as emoções ocultas.
"Está tarde, senhorita Mancini," comentou Raika, com o tom firme e habitual.
Scarlett forçou um sorriso, tentando esconder o nervosismo. "Preciso sair de vez em quando. Não aguento ficar presa aqui."
Raika a observou em silêncio, mas havia algo no olhar dela que deixou Scarlett desconfortável. Era como se Raika soubesse mais do que dizia.
"Scarlett," Raika começou, hesitante pela primeira vez desde que a conhecera. "Seu pai confia em mim para protegê-la, mas para isso, preciso saber com o que estou lidando. O que está acontecendo?"
Scarlett hesitou, lutando contra o impulso de contar a verdade. Uma parte dela queria confiar em Raika, mas a outra sabia que, se revelasse algo, a vida de July poderia estar em risco. E talvez, a sua própria também. Assim, ela optou pelo caminho mais seguro: o silêncio.
"Não é da sua conta, Raika," disse ela, com frieza, tentando fechar o assunto. "Eu sou uma Mancini. Sei me cuidar."
Raika parecia querer insistir, mas respirou fundo, mantendo-se profissional. "Muito bem, senhorita. Só saiba que estou aqui para o que precisar."
Ela se afastou, mas Scarlett sentiu o peso do olhar de Raika em suas costas. Era como se houvesse algo além da mera obrigação ali, como se Raika se importasse mais do que permitia transparecer.
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Durante os dias seguintes, Scarlett tentou manter a rotina, mas a presença de July a seguia como uma sombra. Elas haviam combinado de se encontrar novamente, mas Scarlett sabia que isso só traria mais complicações. Ainda assim, não resistiu. No fundo, algo nela ansiava por mais momentos ao lado de July, mais chances de se sentir livre.
Quando chegaram ao lugar combinado, July estava esperando por ela, encostada em uma moto preta, com um sorriso despreocupado. Scarlett sentiu o coração acelerar. Não era o tipo de pessoa que se apaixonava fácil, mas July tinha uma intensidade que parecia hipnotizá-la.
“Achei que não fosse vir,” disse July, enquanto Scarlett se aproximava.
“Também achei,” respondeu Scarlett, sem saber se estava falando a verdade. “Mas parece que não consigo ficar longe de você.”
July sorriu, e os dois compartilharam um olhar cúmplice. Em seguida, ela estendeu um capacete para Scarlett, que o colocou sem pensar duas vezes. Subiram na moto, e July acelerou pelas ruas da cidade, afastando-se da mansão e da pressão que Scarlett sentia ali.
Elas foram parar em um bairro distante, em uma área mais simples da cidade. July a levou para um bar discreto, onde poderiam conversar sem se preocupar com o sigilo. O lugar estava meio vazio, com algumas mesas ocupadas, mas ninguém parecia prestar atenção nelas. Sentaram-se em um canto reservado, e Scarlett finalmente relaxou.
“Por que está fazendo isso?” Scarlett perguntou, encarando July. “Por que arrisca tanto para me ver?”
July suspirou, sem perder o sorriso provocador. “Eu poderia perguntar o mesmo. Você sabe quem eu sou, mas mesmo assim está aqui.”
Scarlett olhou para baixo, sem saber como responder. Ela sabia que era loucura, sabia dos riscos, mas estar com July era a única coisa que fazia sentido em meio ao caos da vida que levava. Além disso, havia algo mais que ela ainda não compreendia, uma conexão que ia além do físico, uma espécie de desafio mudo.
“E então?” Scarlett insistiu, levantando os olhos para encarar July. “Por que eu?”
July a observou por um longo momento, como se considerasse a resposta cuidadosamente. Então, aproximou-se dela, as vozes se abaixando em uma confissão quase sussurrada.
“Eu não deveria te contar isso,” disse July, hesitante pela primeira vez. “Mas... eu fui enviada para espionar sua família.”
Scarlett ficou imóvel, o coração disparando, mas de alguma forma, não se sentiu traída. No fundo, ela já desconfiava que July estava ali por algum motivo perigoso, mas ouvi-la confessar aquilo tornava tudo mais real.
“Então você é uma inimiga?” Scarlett perguntou, sem se afastar.
“Se eu fosse mesmo sua inimiga, não teria contado isso,” respondeu July, séria. “Eu poderia ter mantido o disfarce, enganado você. Mas não foi o que fiz, foi?”
A verdade nas palavras dela atingiu Scarlett como um choque. Ela sabia que a vida na máfia era cheia de traições e segredos, mas naquele momento, escolheu confiar. Havia algo em July que a fazia querer acreditar.
“Então por que está me contando agora?” Scarlett perguntou.
July sorriu, aproximando-se mais. “Porque quero que saiba que estou com você, Scarlett. Não estou aqui apenas para espiar, estou aqui porque quero te conhecer. Porque, de algum modo estranho, acho que somos iguais.”
Scarlett fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso daquelas palavras. Se July estava sendo sincera, isso significava que ela também estava arriscando tudo. Abrir-se daquela forma era um sinal de confiança, mas também de perigo. No entanto, Scarlett decidiu arriscar, sentindo que havia encontrado alguém que a entendia de verdade.
“Então estamos nesse jogo juntas?” perguntou ela, pegando a mão de July.
July assentiu, com um sorriso conspiratório. “Juntas.”
Elas passaram a noite planejando o próximo encontro, tentando entender até onde poderiam ir sem levantar suspeitas. Scarlett sabia que o segredo entre elas estava crescendo e que, eventualmente, Raika ou alguém da família descobriria. Mas, naquele momento, não queria pensar nas consequências. Queria apenas viver o agora.
Quando se despediram, Scarlett voltou para casa com o coração leve, mas, ao chegar à mansão, encontrou Raika à sua espera, como se soubesse exatamente onde ela tinha estado.
"Scarlett," Raika começou, em um tom mais grave do que o usual. "Precisamos conversar. Agora."
Scarlett hesitou, mas sabia que não podia evitar aquela conversa para sempre. A sensação de segurança que sentia com July começava a vacilar. Agora, estava de volta ao mundo real, onde cada decisão poderia colocar sua vida – e a de July – em perigo.
Raika conduziu-a até um dos salões mais afastados, garantindo que ninguém ouviria. Ao fechar a porta, virou-se para Scarlett, com um olhar firme.
“Eu sei que está escondendo algo,” disse Raika. “E se for algo que possa colocar sua vida em risco, preciso saber. Quem é essa pessoa que tem tirado sua atenção?”
Scarlett sentiu o coração parar por um momento. Raika era uma pessoa que ela respeitava e admirava, mas, ao mesmo tempo, estava presa ao dever de proteger a família. Uma parte dela queria contar a verdade, mas sabia que isso poderia destruir o que tinha com July. Tomando uma respiração profunda, decidiu manter o silêncio, protegendo seu segredo mais uma vez.
A relação entre elas agora estava em uma linha tênue, e Scarlett sabia que Raika desconfiava de cada movimento seu. Era só uma questão de tempo até que ela tivesse que escolher entre sua vida na máfia e o amor proibido que começava a crescer.
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Atualizado até capítulo 50
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