Capítulo 2 - O Primeiro Encontro
Scarlett não conseguia tirar a imagem de July da mente. Aqueles olhos escuros, brilhando com uma confiança audaciosa, desafiavam tudo o que Scarlett conhecia. Ela era uma intrusa, uma ameaça à segurança da família Mancini, mas havia algo na presença de July que Scarlett simplesmente não podia ignorar. E aquilo era perigoso, pois uma atração tão intensa só poderia trazer problemas – e, na vida dela, problemas geralmente vinham em formato letal.
A manhã seguinte ao baile amanheceu fria e silenciosa. Scarlett acordou com uma sensação de vazio, sentindo que algo estava faltando. Raika, sua guarda-costas, a esperava do lado de fora de seu quarto. Era estranho, mas Scarlett sentia que o olhar de Raika estava mais atento do que o normal, como se conseguisse enxergar por dentro dela, ver os pensamentos tumultuados e talvez até a curiosidade que latejava em seu peito.
Raika caminhou ao lado de Scarlett, mantendo o silêncio. Elas tinham uma comunicação discreta, onde as palavras raramente eram necessárias. Raika era o tipo de pessoa que não demonstrava emoções, mas Scarlett notava como seus olhos sempre acompanhavam cada movimento dela, analisando e protegendo.
“Você tem algo a dizer, Raika?” Scarlett quebrou o silêncio.
Raika a olhou de soslaio, com um toque de algo que quase parecia desaprovação. “Quem era aquela mulher ontem à noite?”
Scarlett suspirou. Ela sabia que Raika não deixaria passar aquele encontro. “Ninguém importante,” mentiu, mas sabia que Raika não acreditaria.
Raika apenas assentiu, mas o leve arquear de uma sobrancelha indicava que ela sabia que havia mais naquela história. “Só tome cuidado, Scarlett. O mundo em que vivemos não é gentil com aqueles que brincam com fogo.”
Scarlett sorriu, um pouco desafiadora. “Você está aqui para garantir que eu não me queime, certo?”
Raika não respondeu, mas o olhar dela foi mais afiado, uma mistura de alerta e… algo mais. Scarlett não tinha certeza de como decifrar. Sentindo uma inquietação incomum, Scarlett se despediu de Raika e saiu para resolver assuntos da família, mas o nome de July pulsava em sua mente como uma melodia proibida.
Mais tarde, Scarlett decidiu sair da mansão para se distrair. Ela foi até um café discreto no centro da cidade, um lugar que ela costumava frequentar sozinha. Precisava de um momento de paz, longe dos olhos vigilantes de Raika e da expectativa sufocante de seu pai.
Enquanto tomava um café, envolvida em pensamentos, sentiu uma presença próxima. Quando ergueu os olhos, quase derrubou a xícara ao ver July parada à sua frente, com o mesmo sorriso provocador da noite anterior.
“Você sempre escolhe lugares assim para se esconder?” July perguntou, enquanto puxava uma cadeira e sentava-se sem esperar permissão.
Scarlett piscou, surpresa, mas se recompôs rapidamente. “O que você está fazendo aqui? Está me seguindo?”
July deu de ombros, despreocupada. “Vamos dizer que temos interesses em comum. Eu precisava ver você de novo.”
O coração de Scarlett batia mais forte. Havia algo intrigante e perigoso em July, e mesmo sabendo que deveria afastá-la, sentia uma urgência em manter a conversa. “Você tem uma confiança que beira a imprudência, July. Sabe com quem está falando, certo?”
“Com a filha do chefão da máfia. A herdeira do império Mancini.” July inclinou-se um pouco mais perto, os olhos fixos nos de Scarlett. “Mas, honestamente? Acho que você é muito mais do que isso.”
Scarlett se surpreendeu. Estava acostumada a ser vista como uma extensão do poder de seu pai, mas ninguém nunca havia sugerido que enxergava algo além disso. Ela tentou manter o controle, mas se pegou respondendo com um tom desafiador: “E o que você acha que sabe sobre mim?”
July a observou com um olhar intenso, examinando cada detalhe de seu rosto, como se tentasse decifrá-la. “Eu sei que você é curiosa. E que talvez esteja cansada de seguir as regras impostas por seu pai.”
A resposta deixou Scarlett sem fala. Era exatamente o tipo de leitura que ela escondia até de si mesma, aquele desejo de se libertar, de explorar algo além do que sempre lhe foi dito que era certo.
Por um breve instante, elas ficaram em silêncio, presas em uma espécie de guerra silenciosa de vontades. Scarlett se perguntou até onde July estava disposta a ir. Seria ela apenas uma ladra, uma infiltrada, ou algo mais complexo?
“E você?” Scarlett perguntou finalmente. “Por que arrisca sua vida para entrar no território dos Mancini? Isso é, digamos, uma jogada suicida.”
July deu uma risada suave. “Talvez eu goste de viver perigosamente.”
Scarlett percebeu uma sombra de algo mais no olhar de July. Ela não era apenas uma intrusa em busca de algo para roubar. Havia uma intensidade, uma determinação que Scarlett não conseguia ignorar. Antes que pudesse perguntar mais, July colocou a mão sobre a dela, um gesto ousado e inesperado. Scarlett sentiu o toque quente e firme, e seu coração acelerou.
“Vamos fugir daqui,” July sussurrou, os olhos brilhando de excitação.
“Fugir?” Scarlett riu, mas sentia-se tentada. “E para onde você acha que podemos ir?”
“Qualquer lugar longe das paredes da máfia. Apenas por um dia. Deixe que eu te mostre o que é liberdade.”
Scarlett sabia que era insensato, que deveria mandá-la embora naquele momento, mas, sem saber por que, ela se levantou e aceitou o convite. Elas saíram do café juntas, andando lado a lado pelas ruas agitadas da cidade, como se fossem duas pessoas comuns, sem os fardos que carregavam.
Elas passaram o dia explorando, andando por ruas que Scarlett nunca teria visto sozinha. July mostrou lugares escondidos e contava histórias engraçadas, arrancando risadas genuínas de Scarlett. Cada minuto ao lado de July a fazia esquecer de tudo, do peso de sua família, da expectativa de seu pai, até mesmo de Raika. Era como se, pela primeira vez, ela estivesse vivendo para si mesma.
No fim do dia, elas pararam em um parque, sentando-se em um banco de frente para um lago. A noite caía lentamente, e Scarlett percebeu que nunca havia sentido algo assim. A liberdade que tanto buscava parecia estar, de algum modo, ali, ao lado de July.
“Eu queria poder fazer isso todos os dias,” Scarlett confessou, mais para si mesma do que para July.
July a observou em silêncio, e então se aproximou lentamente. Scarlett sentiu o coração bater mais rápido, o olhar de July sobre ela como um ímã, e, sem pensar, aproximou-se mais também. Então, suas bocas se encontraram em um beijo suave e intenso, carregado de toda a tensão e desejo que haviam escondido até então.
Aquele beijo era a confirmação do que Scarlett temia e desejava. E, enquanto se separavam, Scarlett sabia que tinha cruzado um limite perigoso. Ela estava agora envolvida com uma mulher que era, possivelmente, sua inimiga. Mas, no fundo, algo dentro dela sabia que não havia retorno.
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Atualizado até capítulo 50
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