Capítulo 04

Capítulo 4 — O Início da Ruína

O relógio digital na parede da sala de aula marcava 11h50. A última aula da manhã finalmente chegava ao fim. A atmosfera entediante e arrastada daquele turno se dissipou quando o sinal soou, libertando os alunos como pássaros da gaiola.

Anelise Prescott recolheu seus cadernos com movimentos lentos, quase mecânicos. Seus pensamentos divagavam enquanto guardava o estojo e encaixava o headphone ao celular. Nick, seu fiel companheiro de apartamento, havia saído mais cedo — tinha compromissos pendentes, e pela primeira vez em semanas, ela seguiria o caminho de casa sozinha.

Lá fora, o sol de fim de manhã brilhava intenso, refletindo nos vidros dos carros que cruzavam as avenidas e desenhavam reflexos dançantes no asfalto. Assim que passou pelos portões da universidade, Anelise colocou os fones nos ouvidos e escolheu uma faixa enérgica. O tipo de música que a fazia esquecer a rotina e a permitia caminhar em paz pela cidade, como se fosse a protagonista de um filme em que nada poderia dar errado.

Mas bastaram poucos minutos para que essa sensação se esvaísse.

Havia algo errado.

Sentia-se observada. Perseguida.

Tentou ignorar, mas o desconforto era persistente. Parou de andar e olhou discretamente para trás. A calçada estava quase vazia, apenas um ou outro estudante disperso, bicicletas passando ao longe, e... um carro preto, lustroso, movendo-se em velocidade constante a poucos metros.

"De novo, mãe?", pensou com um suspiro exasperado. Já era habitual imaginar que algum capanga a mando da própria mãe estivesse a vigiando. Mas dessa vez, não era isso.

O carro parou suavemente no meio-fio. A porta do motorista se abriu e dele saiu Ethan Lancaster — impecável num terno preto, os olhos como lâminas afiadas sob a luz do dia. Imponente. Frio. Irresistivelmente perturbador.

— Podemos ter uma breve conversa? — a voz dele cortou o ar como uma ordem disfarçada de pedido.

Anelise hesitou. — An... claro.

Ele não sorriu. Apenas virou-se, indicando com um gesto para que ela o acompanhasse até o veículo. E ela, como que magnetizada, obedeceu. Uma parte de si gritava que era insensato entrar no carro de um homem praticamente desconhecido. Mas havia algo em Ethan... uma presença que anulava a lógica.

Assim que entraram no carro, o silêncio se instalou por alguns instantes.

— Se for para me agradecer por ontem, não precisa... Seu filho é uma criança adorável! — tentou suavizar o clima com um sorriso descontraído, na esperança de aliviar a tensão que parecia vibrar no ar.

— Por que acha que eu lhe devo alguma gratidão? — a pergunta veio com frieza cortante, o tom tão indiferente que a fez enrijecer no assento.

— O quê...? Não entendi...

— Pessoas da mesma laia que você não merecem gratidão de ninguém. — Ele esticou a mão, pegando uma pasta que estava ao lado, e a entregou a ela com expressão inalterada. — Mas ainda assim... vou lhe dar um presente.

Anelise franziu o cenho e segurou o material com as mãos trêmulas.

— O que é isso? Por que está falando assim? Eu nem sei quem é você...

— Hum... apenas pare de fingir. Pegue isso. Leia. Vai entender.

Com o coração acelerado, ela abriu a pasta. Os primeiros papéis que leu lhe gelaram o sangue.

— Isso é... minha demissão?

Ela ergueu os olhos, completamente atônita.

— Eu não pedi demissão! O que você fez? Como conseguiu isso?

— Continue lendo. Ainda não terminou. — Ele recostou-se no banco, braços cruzados.

Virando as folhas, seus olhos correram por documentos com timbres oficiais da universidade. O golpe final veio com a última assinatura.

— Isso... isso não pode estar certo. Eu... fui expulsa? Expulsa da faculdade?

O olhar dela se ergueu, incrédulo, para ele.

— Por que está fazendo isso? Eu não fiz nada! Quem é você?!

A resposta veio como uma sentença:

— Assim como minha família ficou sem chão, você e a sua também vão ficar. Isso... é apenas o começo.

— Do que está falando?! — sua voz falhou. — O que isso significa? O que eu fiz?

Ele a fitou com desprezo contido, o silêncio dele mais eloquente do que qualquer explicação.

A porta do carro se abriu de súbito. Um homem alto, de terno escuro, surgiu e, sem dizer palavra, puxou Anelise para fora. Ela não resistiu. Apenas ficou ali, paralisada, enquanto o carro arrancava com um ronco suave, desaparecendo em meio ao tráfego.

Sem saber o que pensar, o que sentir, Anelise correu de volta à universidade. Tentou confirmar com a secretaria o absurdo que acabara de ler — e para sua agonia, tudo foi confirmado. Alguém muito influente havia ordenado seu desligamento imediato.

Em choque, seguiu até a livraria onde trabalhava. Lá, o golpe final.

Seu chefe mal levantou os olhos para ela.

— Sinto muito, Anelise. Não posso fazer nada.

— Você está me demitindo? Mas... por quê?

— Ordens superiores. Só estou cumprindo.

A porta da livraria fechou-se atrás dela com um estalo que soou como o fim de algo maior que um emprego.

Desnorteada, voltou para o apartamento. Nick ainda não tinha chegado. O silêncio do lar, antes acolhedor, agora parecia lhe sufocar. Caminhou até o banheiro, entrou embaixo do chuveiro e deixou que a água quente levasse, em vão, o peso daquela manhã.

Vestiu uma blusa larga, sentou-se no sofá e encarou o vazio.

A mente, antes repleta de planos e compromissos, agora era um mar revolto de perguntas sem resposta. A dor de cabeça latejava em suas têmporas. Nada fazia sentido.

Quem era aquele homem, realmente? E por que ele parecia decidido a destruí-la?

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Comments

Salete Godinho

Salete Godinho

Pra que serve a vingança, só alimenta a raiva do orgulho ferido.

2023-01-27

1

Cristina Cazatti

Cristina Cazatti

nossa que estupidez

2022-10-24

1

Esdeath

Esdeath

Noah Noah, vai se ferrar oq tem de bonito tem de escroto

2020-07-13

8

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