Capítulo 03

Capítulo 3 — Vozes e Silêncios

A mansão Lancaster sempre pareceu um cenário intocável, onde o tempo se curvava à rotina meticulosamente programada dos seus moradores. Naquela tarde, porém, havia algo fora do lugar. Ethan Lancaster retornou com Mathew e, ao entrar no suntuoso hall, deixou o sobrinho aos cuidados dos avós que conversavam na varanda. Com passos lentos e pesados, ele pegou a pasta no banco traseiro do carro e subiu direto para o quarto.

O cômodo refletia perfeitamente sua personalidade: sofisticação fria. Móveis escuros, linhas retas, ausência de excessos. Assim que se jogou na poltrona de couro diante da lareira apagada, passou a mão pelos cabelos e soltou um longo suspiro, inclinando a cabeça para trás como se buscasse respostas no teto.

— O que houve comigo? — murmurou, franzindo o cenho. — Meu coração... disparou? Não. Deve ter sido o susto.

Fechou os olhos por um momento, mas a imagem de Anelise retornou com força total. A mulher que arriscou a vida para salvar Mathew. A mesma que, segundo os arquivos em sua pasta, era parte de uma família que ele desprezava profundamente.

— Aquela mulher... — sussurrou, mais para si. — Tentando me enganar com essa pose de boa samaritana. Filha dos Prescott... manipuladora, como os pais. Ela não pode ser tão ingênua quanto parece.

Apesar da firmeza em suas palavras, sua mão tremeu ao abrir a pasta mais uma vez. Dentre os vários documentos, fotos e relatórios, ele retirou uma imagem onde Anelise estava de pé sob uma árvore na universidade, sorrindo para alguém fora do enquadramento.

O sorriso dela era aberto, gentil, quase inocente. Era o tipo de sorriso que desconcertava. Ethan encarou a imagem por longos segundos, como se estivesse diante de um quebra-cabeça.

— Tenho que admitir... pessoalmente, ela é ainda mais bonita do que nas fotos.

Havia algo ali que o incomodava profundamente. Não o rosto dela, mas a forma como ele reagia a ele. Estava preso naquela imagem como um viciado em uma droga que se recusa a admitir. Num gesto brusco, jogou as fotos sobre a mesa de centro e se levantou.

Caminhou até o closet e abriu a cristaleira embutida. Retirou a primeira garrafa de vinho tinto que viu e serviu-se sem medir. Observou o líquido escarlate girar na taça antes de levá-lo aos lábios.

— Não posso perder o foco. — disse entre dentes. — Isso ainda é sobre vingança.

Enquanto isso, a outra ponta da cidade vivia um ritmo mais humano e caótico.

Anelise chegou em casa e, ao abrir a porta, viu Nick jogado no sofá assistindo a um programa de culinária.

— Chegou cedo hoje — comentou ela, fechando a porta atrás de si.

— Onde você foi? — perguntou ele, sem desviar os olhos da TV.

— Fui visitar o Sr. Hector — respondeu, tirando os sapatos.

— O escritor que tá te ajudando?

Ela assentiu. Nick virou o rosto para olhá-la, e notou os joelhos sujos de poeira no short jeans claro.

— O que aconteceu com a sua roupa?

— Eu caí tentando salvar um garotinho que ia ser atropelado — disse casualmente, já subindo a escada.

— Anelise! Você tem que parar com essa impulsividade. E se tivesse acontecido algo com você? — Nick levantou do sofá e foi atrás dela.

— Eu sei... Mas você faria o mesmo! — rebateu ela com um meio sorriso.

— Não tenta inverter a situação — resmungou ele, já no quarto.

— Tá, tá bom... Você se preocupa demais. — virou-se e o viu parado na porta, braços cruzados.

— Você precisa se cuidar. De verdade.

— Já entendi! Deixa de ser chato! Se continuar assim, vai acabar ficando feio — provocou ela, apertando as bochechas dele com os dedos.

— Ai! Para com isso! Se chegar tão perto assim, eu te beijo — ameaçou ele em tom brincalhão.

— Hahaha! Pervertido!

Nick não deixou barato. Puxou os braços dela para trás e a prendeu de leve.

— Eu nem dei motivo pra você me chamar assim. Se eu der... só espero que não fique brava depois.

— Solta! Preciso tomar banho e ir trabalhar. O jantar é por sua conta hoje!

Anelise se desvencilhou e virou o rosto. Estava corada, embora tentasse disfarçar. Nick, distraído, cruzou os braços e a observou.

— O que foi? — perguntou ela, pegando a toalha. — Por que tá me olhando assim?

— Tínhamos marcado de ver um filme hoje... lembra?

Ela parou por um instante.

— Ai, Nick... desculpa. Meu chefe pediu que eu cobrisse o turno da Mary, ela ficou doente.

— Tá bom... a gente marca outro dia. Só espero que o Thomas não me dê spoiler.

— A Layla não vai deixar. — Ela sorriu e entrou no banheiro.

Após o banho, Anelise vestiu um conjunto de moletom cinza, amarrou o cabelo em um rabo de cavalo, pegou a bolsa e o celular e se despediu de Nick. O relógio marcava seis horas. O turno começava às seis e meia e ela teria que correr, já que a livraria ficava do outro lado da cidade. Saiu apressada, sem pedir carona.

Na manhã seguinte, o sol brilhou com intensidade sobre os prédios envidraçados da Lancaster Corp. Ethan chegou cedo, como sempre, e mergulhou no trabalho. Documentos, contratos, reuniões. O som dos saltos e dos telefones misturava-se à rotina de poder.

Sentado à sua mesa, concentrado em um contrato, ouviu três batidas na porta.

— Entre.

O assistente entrou e deixou um envelope sobre a mesa.

— Aqui está o relatório das obras que estavam pendentes, senhor.

— Obrigado. Pode sair.

Antes que a porta se fechasse por completo, dois rostos familiares surgiram. Um homem alto, de pele bronzeada e sorriso fácil, e uma mulher elegante, de postura impecável.

— Chefão! — disse o homem, abrindo os braços.

— Simon? O que está fazendo aqui?

— Vim visitar meu amigo de longa data. Mas pelo visto, ele esqueceu como se recebe visitas.

— Você sabe que não sou muito dado a recepções calorosas.

A mulher, por sua vez, ergueu uma sobrancelha com charme e ironia.

— Olívia! Que surpresa.

Ethan finalmente sorriu — um raro sinal de afeto — e Simon, notando a diferença no tom, revirou os olhos.

Simon, Olívia e Lian eram os únicos em quem Ethan cogitava depositar ao menos um pouco de confiança, e ainda sim não os contava tudo, pois a traição do passado o fez ser alguém que não confia facilmente em ninguém. Lian era seu secretário, discreto e leal; Simon, um velho amigo do tempo de colégio; e Olívia, alguém que sempre esteve entre o afeto e a provocação desde sua juventude difícil.

Os três conversaram por um tempo, até que Ethan checou discretamente o relógio. Sabia que Anelise estaria saindo da faculdade por volta daquela hora. A pasta com seus dados tinha mais do que ele precisava para encontrá-la — e usá-la. A vingança, como vinho, precisava do tempo certo para fermentar.

— Eu adoraria continuar a conversa... — disse, se levantando.

Olívia arqueou uma sobrancelha. — Mas?

— Mas eu tenho um compromisso que não pode ser adiado.

Ethan recolheu a pasta com as informações de Anelise e saiu do escritório. Estava pronto para dar o próximo passo.

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Comments

Cristina Cazatti

Cristina Cazatti

nossa como ele vai se aproximar dela

2022-10-24

1

Esdeath

Esdeath

Como será que ele vai pegar ela de surpresa?

2020-07-13

3

Ver todos

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