Capítulo 2 – O Encontro Inesperado
Ethan Lancaster finalizava mais uma das incontáveis reuniões do dia. O relógio marcava 14h07. Seu andar pelos corredores de vidro da Lancaster Company era como o de um predador em seu território — seguro, discreto, imponente. Com o paletó de corte italiano levemente aberto, a gravata cinza escura ajustada com precisão cirúrgica e os sapatos Derby impecáveis, ele era o retrato da elegância letal. Mas o que mais chamava atenção não era seu cargo de presidente, nem seu rosto simétrico e frio como mármore, e sim as tatuagens que espreitavam do colarinho e da manga da camisa, como cicatrizes mal escondidas de uma história que poucos ousavam perguntar.
Ao alcançar a porta de seu escritório, prestes a girar a maçaneta, a voz de Lian Davins — seu assistente pessoal — o interceptou.
— Senhor Lancaster… consegui tudo. — Lian entregou uma pasta branca com um selo discreto e confidencial.
Ethan pegou o material sem dizer uma palavra. Seus olhos, mais escuros do que o necessário para serem apenas castanhos, pareciam pesar sobre a pasta um julgamento silencioso.
— Está dispensado, Lian. Vá para casa. — murmurou, antes de entrar e fechar a porta com um estalo contido.
No silêncio do escritório, ele se sentou, abriu a pasta e espalhou sobre a mesa fotos, relatórios e certidões. Sua atenção recaiu sobre uma imagem específica: uma jovem de perfil em um cyber café, cabelos soltos, rindo com uma amiga. O nome destacado na folha de rosto o fez franzir levemente a testa.
Anelise Prescott.
— Então é assim que você ficou... — disse em voz baixa, quase com ternura. Passou o polegar sobre a imagem e completou com amargura: — Pena que pertence a uma linhagem tão podre.
Seu olhar endureceu. O sorriso sumiu, como se nunca tivesse existido.
Durante a leitura dos arquivos, algo começou a incomodá-lo. Anelise parecia... deslocada. As ligações com os Prescott eram frágeis, superficiais demais. Por um momento, Ethan hesitou. Se os Prescott mal se importavam com ela, valia a pena colocá-la no centro da sua vingança?
Mas antes que pudesse aprofundar as dúvidas, o celular vibrou.
— Oi, Amy. — disse ele, com a voz baixa e cansada.
— Ethan? Está tudo bem? Você parece esgotado.
— Só estou... repensando algumas coisas. — Ele recostou na cadeira, olhando para o teto.
— Pense nisso aqui comigo então: Mathew quer passar a tarde com você. Pode buscá-lo mais cedo?
Ao ouvir o nome do sobrinho, Ethan sorriu, pela primeira vez genuinamente.
— Claro que posso. Estou indo agora.
— Você é o melhor. Sabe disso, né?
— Amy... o que você fez por todos nós, ninguém teria feito. Não hesite em me pedir qualquer coisa.
Quando a ligação terminou, Ethan ficou por alguns minutos em silêncio. O passado bateu à porta de sua mente, como sempre fazia quando o nome de Amy surgia. Lembrou-se da irmã mais velha, apenas uma adolescente, oferecendo o próprio destino para salvar a família. Um casamento forçado com um magnata mais velho em troca de um cheque que salvou os negócios dos Lancaster da ruína.
O casamento não foi genuíno, mas o filho dele sim — Mathew. A única coisa pura que restara daquele sacrifício.
Ethan levantou-se, prendeu a pasta com as informações sobre Anelise em uma maleta de couro, e saiu do prédio.
Após um banho rápido e roupas mais casuais, Ethan dirigia sua Range Rover até o condomínio onde Amy morava. Ainda de longe, avistou a irmã e o pequeno Mathew saindo da portaria.
O menino correu em sua direção com a energia explosiva de quem sabe que está seguro.
— Tio Ethan!
Ethan se abaixou e o pegou no colo, sorrindo.
— E aí, garotão?
— Vai me levar pra ver os patinhos no parque? — Mathew perguntava com os olhos brilhando.
— Os patinhos e um sorvete depois. Mas só um. — advertiu, já prevendo o desfecho.
— Obrigada, maninho. — Amy se aproximou, beijando o irmão e o filho com pressa. — Cuida bem dele, como sempre.
— Vai com calma no trânsito. E avisa quando chegar. — respondeu ele, sério como sempre, mas com olhos de irmão protetor.
No parque, Mathew correu até cansar. Depois, foram à sorveteria da esquina. Enquanto o garoto se lambuzava com o terceiro sorvete, Ethan observava a rua pela grande janela, o celular repousando sobre a mesa. Quando o aparelho tocou, ele já sabia quem era.
— Lian? Fala.
— Tem algo que não estava nos arquivos, chefe. Importante.
Ethan se levantou.
— Um minuto. Mathew, o tio já volta, fique aqui e não saia, ok?
— Uhum! — disse o menino, com sorvete no queixo.
Do lado de fora, Ethan atendeu à ligação, mas a conversa mal havia começado quando escutou um barulho de pneus cantando no asfalto. Instintivamente, girou a cabeça — e seu coração parou.
Mathew havia saído da sorveteria, correndo atrás de um cachorro.
Um carro dobrava a esquina em alta velocidade, indo direto na direção do menino.
E então, algo inesperado aconteceu. Uma jovem atravessou a calçada, correu como se não houvesse amanhã e puxou Mathew no último segundo. Os dois rolaram juntos até a calçada. O carro passou sem parar, sumindo logo em seguida.
Ethan correu. A adrenalina o impedia de pensar.
— MATHEW! — sua voz saiu mais alta do que esperava.
Quando chegou perto, seu olhar cruzou com o da mulher que salvara seu sobrinho.
E congelou.
Era ela.
Anelise Prescott.
O rosto da foto. Agora real, viva, com respiração ofegante e olhos assustados. E pela primeira vez, Ethan perdeu o chão.
— Tio... me desculpa... — disse Mathew, assustado.
Ethan se ajoelhou, pegou o garoto nos braços e o examinou.
— Está tudo bem. Vai ficar tudo bem. — disse, mesmo não sabendo se falava para o garoto ou para si mesmo.
— Moça, obrigada por me salvar... — Mathew disse com um sorriso culpado.
— Não faça isso de novo, ouviu? — disse Anelise, com um carinho natural na voz.
— Tchau, moça bonita! — o menino acenou, correndo de volta ao carro.
Ethan ainda estava parado, como se lutasse contra o próprio instinto.
— O senhor está bem? — Anelise perguntou, inclinando levemente o corpo.
Ele piscou, como se despertasse.
— Sim. Sim... obrigado. — respondeu, sem conseguir esconder o abalo.
— Então... bom, vou indo. — disse ela, ajeitando a alça da bolsa e virando-se.
Ethan apenas observou. Sentia o sangue correr diferente nas veias.
Ela era diferente. Real. Inesperada. E agora, por um capricho do destino, ele lhe devia a vida do sobrinho.
Mas ela ainda era uma Prescott.
E a vingança… estava apenas começando.
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Atualizado até capítulo 48
Comments
Cristina Cazatti
nossa foi por pouco
2022-10-24
1
Esdeath
cof cof.... pena q ele já e teu e tu nem sabe mia
2020-07-13
5