O céu ainda estava se espreguiçando, mas Dona Cida já estava em pé desde antes do galo pensar em cacarejar.
Ela dá três batidas firmes na porta do quarto de Oliver.
Cida
Ô, menino! Já clareou o dia, tá mais que na hora de largar essa cama de princesa e botar o pé no chão!
Cida
Acorda que o mundo rural não espera tua frescura, não!
lá dentro, Oliver fala, com a voz de alma penada:
Oliver
Ai, sombras da noite, por que me perseguem? Eu clamo aos céus que me deixem morrer em paz...
Dona Cida Abre a porta sem nenhuma cerimônia:
Cida
Morrer, é? Pois levanta que eu trouxe o café e a chance de tu ressuscitar com dignidade! Bora, Romeu da roça!
Ela entra com a bandeja de café fumegante, pão de queijo e uma expressão maternal que mistura pena com vontade de jogar água fria.
Oliver
Ai, cruel mundo! Já não basta o frio da madrugada que gela meus ossos,
Oliver
Ainda sou forçado a acordar por uma mulher de olhar severo e voz de trovão?
A mulher cruza os braços, com olhar de quem já criou três filhos e cinco sobrinhos:
Cida
Ô, menino, tu tá parecendo bezerro desmamado! Só falta mugir pedindo leite!
Cida
Levanta logo que o sol já tá alto e a vida não vai te esperar com buquê na mão, não.
Ele ergue a cabeça, dramático e recita:
Oliver
Por que me tiraste do seio acolhedor da minha cama? Esta cama que me acolheu nas agruras do porquinho indiferente...
A mulher puxa a sua coberta com uma risadinha:
Cida
Cama nada! Isso aí é ninho de preguiça. E deixa de frescura com esse negócio de porco! você ficou foi mexido, né?
Oliver
Minha alma foi tocada, Dona Cida... Aquele ser, aquele pequeno animal — oh, criatura frágil e pálida! — ele me olhou com olhos de quem conhecia a dor do abandono!
Ela se senta na beira da cama, rindo:
Cida
Olhou nada, Oliver. O bichim só queria uma sombra pra descansar a pancinha. Tu que tá colocando drama onde só tem barro.
Ela empurra a bandeja no colo dele.
Cida
Toma esse café, come esse pão de queijo e escuta o que eu vou te dizer:
Cida
Aqui na fazenda, a gente não tem tempo pra ficar desmaiando de sentimento. Se o porquinho te tocou, ótimo.
Cida
Quer dizer que tem coração. Mas coração não enche cocho. Ação, meu filho. É isso que vale.
Oliver pegando a caneca, como quem segura cálice de veneno:
Oliver
Eis aqui o elixir que cura o corpo, mas não a alma! Será que um pão de queijo pode remendar o espírito partido?
A mulher responde:
Cida
Pode, sim. Principalmente o meu, que fiz com requeijão e benção de vó. Come logo.
Ethan aparece na porta, já vestido para o dia. Ele Encosta no batente com aquele jeito “estou rindo por dentro, mas vou fingir ser sério”.
Ethan
Aconteceu alguma coisa? Ou o drama matinal do herdeiro é parte do cronograma da fazenda agora?
Oliver diz com a mão no peito, teatral:
Oliver
Ah, Ethan, meu carcereiro de botas rústicas, você não compreende o abismo que habita este peito frágil!
Ethan pergunta arqueando a sobrancelha:
Ethan
O que é que ele tomou?
Cida
Café. Com uma pitada de realidade. Mas acho que ele ainda tá sob efeito da poesia do porquinho.
Ethan
Do jeito que vai, daqui a pouco ele estará escrevendo soneto pro galinheiro.
Oliver
Não duvide, homem de coração empedrado! Já vi mais alma naquele curral do que nos teus olhos cinzentos!
A cozinheira levanta rindo:
Cida
Pronto. Agora que o menino tá inspirado, bora botar ele pra cuidar das galinhas. Quero ver fazer verso rimando com “cacarejo”.
No próximo episódio de De Terno ao Trator...
Oliver vai lidar com as galinhas mais temperamentais da fazenda.
Ethan vai tentar ensinar sem perder a paciência (spoiler: ele vai perder).
E Dona Cida?
Ah, essa vai estar lá, com café na mão, pão na bandeja e sabedoria na língua!
Fique ligado na novela onde o drama é shakespeareano, mas a vida é bem da roça, sô!
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