Capítulo Três

Seis meses depois — Ah. É tudo o que ela diz. Minha mãe se vira e observa o prédio, passando o dedo no peitoril da janela a seu lado. Ela limpa a camada de pó entre os dedos. — É... — Precisa de muito trabalho, eu sei — interrompo. Aponto para as vitrines logo atrás. — Mas olhe só a fachada. Tem potencial. Ela observa as vitrines de cima a baixo, balançando a cabeça. Às vezes faz um barulho no fundo da garganta, quando ela concorda com um “hum”, mas os lábios permanecem fechados. O que significa que, na verdade, ela não concorda. E faz esse barulho. Duas vezes. Abaixo os braços, desistindo. — Acha que foi idiotice minha? Ela balança de leve a cabeça. — Depende do que acontecer, Lily — responde ela. O local costumava ser um restaurante e ainda está cheio de mesas e cadeiras velhas. Minha mãe vai até uma mesa próxima, puxa uma das cadeiras e senta. — Se as coisas derem certo e sua floricultura for um sucesso, as pessoas vão dizer que foi uma decisão de negócios corajosa, ousada e inteligente. Mas, se der errado e você perder toda a herança... — As pessoas vão dizer que foi uma decisão de negócios idiota. Ela dá de ombros. — É assim que as coisas são. Você se formou em administração, então sabe disso. — Ela olha lentamente ao redor, como se estivesse imaginando como vai ficar daqui a um mês. — Mas faça mesmo algo corajoso e ousado, Lily. Sorrio. Isso eu aceito. — Não acredito que comprei sem consultar você — comento, sentando à mesa. — Você é adulta. É seu direito — argumenta ela, mas noto um quê de desapontamento. Acho que está se sentindo ainda mais sozinha agora que preciso cada vez menos dela. Já se passaram seis meses desde a morte de meu pai, e apesar de ele não ter sido uma boa companhia, minha mãe deve achar estranho ficar sozinha. Ela arranjou um emprego em uma escola de ensino fundamental local, então acabou se mudando. Ela escolheu uma cidade pequena nos arredores de Boston. Comprou uma linda casa de dois quartos, com um quintal enorme, em uma rua sem saída. Sonho em construir uma horta ali, mas precisaria de cuidados diários. Meu limite é uma visita semanal. Às vezes duas. — O que vai fazer com todo esse lixo? — pergunta ela. Tem razão. Há muito lixo. Vou demorar uma eternidade para esvaziar o lugar. — Não faço ideia. Acho que tenho trabalho de sobra antes de ao menos pensar em decoração. — Quando é seu último dia na empresa de marketing? Sorrio. — Foi ontem. Ela suspira e, em seguida, balança a cabeça. — Ah, Lily. Espero mesmo que dê certo. Nós duas começamos a nos levantar, e a porta se abre. Tem algumas prateleiras na frente da porta, então inclino a cabeça para ver uma mulher entrar. Seus olhos dão uma rápida examinada no local até me encontrarem. — Oi — cumprimenta ela, acenando. Ela é bonita. Está bem vestida, mas de calça capri branca. No meio de todo esse pó, é um desastre anunciado. — Posso ajudá-la? Ela enfia a bolsa debaixo do braço e se aproxima de mim, estendendo a mão. — Meu nome é Allysa — apresenta-se. Aperto sua mão. — Lily. Ela aponta o polegar por cima do ombro. — Eu vi a placa de “estamos contratando” ali na frente. Olho por cima de seu ombro e ergo a sobrancelha. — É? Não coloquei nenhuma placa. Ela confirma com a cabeça e dá de ombros. — Mas parece velha — comenta ela. — Deve estar há um tempo. Eu estava caminhando por aqui e vi a placa. Fiquei curiosa, só isso. Gosto dela quase que de imediato. A voz é agradável, e o sorriso parece genuíno. A mão de minha mãe toca meu ombro. Ela se inclina e me beija a bochecha. — Preciso ir — diz ela. — O open house é hoje à noite. Eu me despeço e a observo partir, depois volto a atenção para Allysa. — Ainda não estou contratando — aviso. Gesticulo, mostrando o local. — Vou abrir uma floricultura, mas vai demorar uns dois meses, no mínimo. Eu não deveria julgá-la sem conhecer, mas ela não tem jeito de quem vai ficar satisfeita com um salário mínimo. Sua bolsa deve custar mais que minha loja. Seus olhos brilham. — Sério? Eu amo flores! — Ela gira, fazendo um círculo. — Este lugar tem muito potencial. De que cor você vai pintar? Cruzo os braços e agarro meu cotovelo. Balançando nos calcanhares, respondo: — Não sei ainda. Faz só uma hora que peguei as chaves, então ainda não fiz a planta do projeto. — Lily, não é? Assinto. — Não vou fingir que sou formada em design, mas é o que eu mais gosto no mundo. Se precisar de ajuda, eu faria de graça. Inclino a cabeça. — Você trabalharia de graça? Ela confirma com a cabeça. — Eu não estou mesmo precisando de um emprego, só vi a placa e pensei Ah, vou ver no que dá. Fico entediada às vezes. Adoraria ajudar no que você precisar. Limpar, decorar, escolher as cores das tintas. Sou a louca do Pinterest. — Alguma coisa atrás de mim chama sua atenção, e ela aponta. — Posso transformar aquela porta quebrada em algo incrível. Tudo isso, na verdade. Dá para aproveitar quase tudo, sabia? Olho ao redor, sabendo muito bem que não vou conseguir me virar sozinha. Provavelmente nem consigo erguer metade dessas coisas sem ajuda. E vou terminar contratando alguém mesmo. — Não vou te deixar trabalhar de graça. Mas posso pagar 10 dólares a hora se estiver falando sério. Ela começa a bater palmas e, se não estivesse de salto, acho que teria dado um pulinho. — Quando posso começar? Olho para a calça capri branca. — Pode ser amanhã? É melhor vir com uma roupa descartável. Ela gesticula, fazendo pouco caso, e põe a bolsa Hermès sobre a mesa empoeirada a seu lado. — Que nada — diz ela. — Meu marido está assistindo ao jogo do Bruins em um bar na rua. Se não se incomodar, posso ficar aqui e começar agora mesmo. • • • Duas horas depois, tenho certeza de que conheci minha nova melhor amiga. E ela é mesmo a louca do Pinterest. Escrevemos “Guardar” e “Jogar Fora” em post-its e os colamos por toda loja. Ela também acredita em upcycling, então pensamos em ideias para pelo menos 75% das coisas abandonadas ali. Quanto ao resto, ela diz que o marido pode jogar fora quando tiver um tempinho. Depois de decidir o que vamos fazer com tudo, pego um caderno e uma caneta e nos sentamos a uma das mesas para anotar ideias de design. — Tá — começa ela, se recostando na cadeira. Quero rir porque sua calça capri está toda empoeirada, mas ela parece não se importar. — Você tem algum objetivo para este lugar? — pergunta, olhando ao redor. — Eu tenho um objetivo — digo. — Ter sucesso. Ela ri. — Não tenho dúvida de que você vai conseguir. Mas precisa de uma visão. Penso no que minha mãe disse: “Faça mesmo algo corajoso e ousado, Lily”. Sorrio e me empertigo na cadeira. — Corajoso e ousado — elaboro. — Quero que este lugar seja diferente. Quero correr riscos. Ela semicerra os olhos enquanto morde a ponta da caneta. — Mas você só vai vender flores — argumenta. — Como pode ser corajosa e ousada com flores? Olho ao redor e tento visualizar o que estou pensando. Nem eu sei direito o que é, mas estou inquieta, como se estivesse prestes a ter uma grande ideia. — De quais palavras você lembra quando pensa em flores? — pergunto. Ela dá de ombros. — Não sei. Acho que são meigas, talvez? São vivas, então eu penso em vida. E talvez em cor-de-rosa. E na primavera. — Meigas, vida, cor-de-rosa, primavera — repito. E depois acrescento: — Alyssa, você é genial! — Eu me levanto e começo a andar de um lado para o outro. — Vamos pegar tudo que as pessoas amam nas flores e fazer o oposto! Ela faz uma careta, indicando que não está me entendendo. — Tá — digo. — E se, em vez de mostrarmos o lado meigo das flores, a gente mostrasse o lado vilão? Em vez de tons cor-de-rosa, usássemos cores mais escuras, como roxo-escuro ou até mesmo preto? E, em vez de somente primavera e vida, também celebrássemos o inverno e a morte? Alyssa arregala os olhos. — Mas... e se alguém quiser flores cor-de-rosa? — Bem, aí claro que vamos fornecer o que a pessoa quiser. Mas também vamos oferecer algo que ela não sabe que quer. Ela coça a bochecha. — Então está pensando em flores pretas? Alyssa parece preocupada, e não a culpo. Está vendo apenas o lado mais sombrio da ideia. Eu me sento à mesa novamente, e tento fazer com que ela entenda. — Certa vez, alguém me disse que não existem pessoas ruins. Todos nós somos humanos e, às vezes, fazemos coisas ruins. Isso nunca me saiu da cabeça porque é mesmo verdade. Todos nós temos um pouco de bondade e de maldade. Em vez de pintar as paredes com uma cor meiga e péssima, vamos pintar de roxo-escuro com detalhes pretos. E, em vez de expor somente flores nos usuais tons pastel, dentro de tediosos vasos de cristal, para as pessoas pensarem na vida, vamos adotar um jeito mais provocador. Corajoso e ousado. Vamos expor flores mais escuras, envoltas em couro ou correntes prateadas. E, em vez de vasos de cristais, vamos colocar as flores em ônix preto ou... não sei... vasos de veludo roxo com tachas prateadas. São muitas possibilidades. — Eu me levanto de novo. — Tem uma floricultura em toda esquina para quem ama flores. Mas que floricultura foi feita para todas as pessoas que odeiam flores? Allysa balança a cabeça. — Nenhuma — sussurra ela. — Exatamente. Nenhuma. Nós ficamos nos encarando por um instante, e depois não consigo mais me segurar. Estou explodindo de entusiasmo e começo a rir feito uma criança empolgada. Allysa ri também, depois levanta da cadeira e me abraça. — Lily, é tão perturbador, é brilhante! — Eu sei! — Me sinto renovada. — Preciso de uma mesa de trabalho para me sentar e elaborar um projeto! Mas meu futuro escritório está cheio de engradados velhos para vegetais! Ela vai até os fundos da loja. — Bem, vamos tirá-los daqui e te comprar uma mesa! Entramos no escritório e começamos a separar os engradados, um a um, colocando-os no cômodo dos fundos. Subo na cadeira para deixar as pilhas mais altas, assim vamos ter mais espaço para nos movimentar. — Isto é perfeito para as vitrines que estou imaginando. Ela me entrega mais dois engradados e se afasta, e, quando estou na ponta dos pés, colocando-os bem no topo, a pilha começa a desmoronar. Tento encontrar algo em que me segurar para me equilibrar, mas os engradados me derrubam da cadeira. Assim que caio no chão, sinto meu pé virar para o lado errado. Logo depois, sinto a dor subindo rapidamente pela perna e descendo até os dedos do pé. Allysa entra depressa e precisa tirar dois engradados de cima de mim. — Lily! — chama ela. — Meu Deus, você está bem? Eu me ergo, sentando, mas nem tento me apoiar no tornozelo. Balanço a cabeça. — Meu tornozelo. Ela tira imediatamente meu sapato e puxa o celular do bolso. Começa a discar um número e depois olha para mim. — Sei que é uma pergunta idiota, mas por acaso você tem uma geladeira e gelo? Balanço a cabeça. — Foi o que imaginei — diz ela. Ela põe o celular no viva voz e o deixa no chão enquanto começa a enrolar minha calça. Eu me contraio, não tanto pela dor. É que não acredito ter feito uma idiotice tão grande. Se eu quebrei o tornozelo, estou ferrada. Acabei de gastar toda a herança em uma loja que só vou poder renovar daqui a meses. — Ooooi, Issa — cantarola uma voz no celular de Allysa. — Onde você está? O jogo acabou. Allysa pega o celular e o aproxima da boca. — Estou no trabalho. Olhe, preciso... O cara a interrompe e pergunta: — No trabalho? Querida, você nem tem emprego. Ela balança a cabeça e responde: — Marshall, escute. É uma emergência. Acho que minha chefe quebrou o tornozelo. Preciso que traga um pouco de gelo para... Ele a interrompe, rindo: — Sua chefe? Querida, você nem tem emprego — repete ele. Allysa revira os olhos. — Marshall, você está bêbado? — É dia do kigurumi — responde ele, embolando as palavras. — Você sabia disso quando nos deixou aqui, Issa. Cerveja grátis até... Ela resmunga. — Passe o celular para meu irmão. — Tá, tá — murmura Marshall. Escuto um barulho abafado vindo do aparelho, e depois: — Oi? Allysa fala rapidamente nosso endereço. — Venha para cá agora, por favor. E traga um saco de gelo. — Sim, senhora — diz ele. O irmão também parece um pouco bêbado. Escuto risadas, e, depois, um deles diz: “Ela está de mau humor”. E a ligação é encerrada. Allysa guarda o telefone no bolso. — Vou esperar lá fora, eles estão aqui na rua. Você vai ficar bem? Faço que sim e estendo o braço para a cadeira. — Talvez eu devesse tentar andar. Allysa empurra meus ombros até eu encostar de novo na parede. — Não se mexa. Espere eles chegarem, tá? Não faço ideia do que dois bêbados vão fazer por mim, mas concordo com a cabeça. Minha nova funcionária parece mais minha chefe... e está meio que me assustando. Fico esperando nos fundos por cerca de dez minutos quando finalmente escuto a porta da loja se abrir. — Que diabo é isso aqui? — pergunta uma voz masculina. — Por que está sozinha neste lugar esquisito? Escuto Allysa responder: — Ela está lá trás. Depois entra, seguido de um homem usando um kigurumi. Ele é alto, mais para magro, e tem uma beleza infantil, com olhos arregalados e sinceros, e cabelo escuro, bagunçado, do tipo que já passou da hora de cortar há muito tempo. Está segurando um saco de gelo. Já falei que está de kigurumi? Aqueles macacões de pelúcia? Estou falando de um homem de verdade, adulto, usando um macacão pijama do Bob Esponja. — Este é seu marido? — pergunto, erguendo a sobrancelha. Allysa revira os olhos. — Infelizmente — responde ela, olhando para ele. Outro homem (também de macacão) entra, mas estou prestando atenção em Allysa, que me explica por que ambos usam pijamas em uma tarde de quarta-feira. — Há um bar aqui na rua que dá cerveja grátis para todo mundo vestido em um kigurumi durante os jogos do Bruins. — Ela se aproxima de mim e gesticula para que os dois a acompanhem. — Lily caiu da cadeira e machucou o tornozelo — avisa ao outro homem. Ele passa por Marshall, e a primeira coisa que percebo são seus braços. Caramba. Conheço esses braços. São os braços de um neurocirurgião. Allysa é sua irmã? A irmã dona do último andar, com o marido que trabalha de pijama e ganha mais de sete dígitos por ano? Assim que meus olhos encontram os de Ryle, seu rosto é tomado por um sorriso. Não o vejo desde... Meu Deus, há quanto tempo foi aquilo? Seis meses? Não posso dizer que não pensei no cara nos últimos seis meses, porque pensei várias vezes. Mas jamais achei que o veria novamente. — Ryle, esta é Lily. Lily, este é meu irmão, Ryle — apresenta ela, gesticulando. — E este é meu marido, Marshall. Ryle se aproxima de mim e se ajoelha. — Lily — diz ele, olhando para mim e sorrindo. — É um prazer conhecê- la. Está na cara que se lembra de mim, dá para perceber pelo sorriso metido. Mas, assim como eu, está fingindo não me conhecer. Não sei se estou a fim de explicar como já nos conhecemos. Ryle toca meu tornozelo e o analisa. — Consegue mexer? Tento, mas uma dor aguda sobe rapidamente pela perna. Inspiro, entre dentes, e balanço a cabeça. — Ainda não. Está doendo. Ryle gesticula para Marshall. — Encontre alguma coisa para colocar o gelo. Allysa sai com Marshall. Depois que os dois vão embora, Ryle olha para mim e sorri. — Não vou cobrar nada por isso, mas só porque estou um pouco bêbado — avisa ele, dando uma piscadela. Inclino a cabeça. — Quando te conheci, você estava chapado. Agora está bêbado. Não sei se será um neurocirurgião muito competente. Ele ri. — É o que parece — comenta. — Mas garanto que raramente fico chapado, e hoje é meu primeiro dia de folga em mais de um mês, então precisava mesmo de uma cerveja. Ou cinco. Marshall volta com gelo enrolado em um pano velho. Ele o entrega para Ryle, que o encosta em meu tornozelo. — Vou precisar daquele kit de primeiros socorros de seu porta-malas — diz Ryle para Allysa. Ela assente e agarra a mão de Marshall, levando-o de novo para fora do cômodo. Ryle coloca a palma na sola de meu pé. — Pressione minha mão — pede ele. Faço força para baixo com o tornozelo. Dói, mas consigo mover sua mão. — Está quebrado? Ele mexe meu pé de um lado para outro e depois diz: — Acho que não. Temos de esperar alguns minutos para saber se conseguirá se apoiar nele. Assinto e o observo se acomodar a minha frente. Ele se senta com as pernas cruzadas e puxa meu pé para o colo. Dá uma olhada no cômodo e depois volta a atenção para mim. — Então, que lugar é esse aqui? Abro um sorriso exagerado. — Lily Bloom. Vai ser uma floricultura daqui a uns dois meses. Juro que seu rosto inteiro se iluminou com orgulho. — Não acredito! — exclama. — Você fez mesmo isso? Vai realmente abrir o próprio negócio? Confirmo com a cabeça. — Vou. Achei que seria melhor tentar enquanto ainda sou jovem o bastante para me recuperar do fracasso. Uma de suas mãos está segurando o gelo em meu tornozelo, mas a outra envolve meu pé descalço. Ele está roçando o dedão para a frente e para trás, como se tocar em mim não fosse nada de mais. Mas percebo bem mais sua mão em meu pé que a dor no tornozelo. — Estou ridículo, não é? — pergunta ele, olhando para o kigurumi vermelho. Dou de ombros. — Pelo menos o seu não é de nenhum personagem. Parece uma opção mais madura que Bob Esponja. Ele ri, e seu sorriso desaparece quando apoia a cabeça na porta ao lado. Ele me encara, feliz. — Você é ainda mais bonita de dia. É nesses momentos que odeio ter cabelo ruivo e pele clara. A vergonha aparece não só nas bochechas, mas em meu rosto inteiro, meus braços e meu pescoço ficam corados. Encosto a cabeça na parede e fico o encarando da mesma maneira como ele me encara. — Quer ouvir uma verdade nua e crua? Ele assente. — Desde aquela noite, sinto vontade de voltar a seu telhado. Mas fiquei com muito medo de te encontrar lá. Você meio que me deixa nervosa. Seus dedos param de acariciar meu pé. — Minha vez? Confirmo com a cabeça. Ele semicerra os olhos enquanto sua mão toca a sola de meu pé. Ele desce lentamente dos dedos do pé até meu calcanhar. — Ainda sinto muita vontade de te comer. Alguém bufa, e não sou eu. Ryle e eu olhamos para a porta, e Allysa está parada, de olhos arregalados. Ela está boquiaberta, apontando para Ryle. — Você acabou mesmo de... — Ela olha para mim. — Peço mil desculpas por ele, Lily. — Depois ela olha para Ryle com uma expressão hostil. — Você realmente acabou de dizer que quer comer minha chefe? Ai, meu Deus! Ryle morde o lábio inferior por um instante. Marshall surge atrás de Allysa e pergunta: — O que está acontecendo? Allysa olha para Marshall e aponta para Ryle de novo. — Ele acabou de dizer que quer comer Lily! Marshall olha de Ryle para mim. Não sei se quero rir ou me esconder embaixo da mesa. — Disse isso mesmo? — questiona ele, olhando para Ryle, que dá de ombros. — Parece que sim — diz ele. Allysa apoia a cabeça nas mãos. — Meu Deus! — diz ela, olhando para mim. — Ele está bêbado. Os dois estão bêbados. Por favor, não me julgue só porque meu irmão é um babaca. Sorrio e gesticulo para indicar que não tem problema. — Tudo bem, Allysa. Muitas pessoas querem me comer. — Olho de novo para Ryle, que continua acariciando meu pé, distraído. — Pelo menos seu irmãofala o que pensa. Poucas pessoas têm coragem de revelar o que estão pensando. Ryle dá uma piscadela para mim e depois tira meu tornozelo do colo com cuidado. — Vamos ver se consegue pisar — encoraja ele. Ele e Marshall me ajudam a levantar. Ryle aponta para uma mesa encostada na parede, a alguns metros de distância. — Vamos tentar ir até a mesa para que eu possa enfaixar esse tornozelo. Seu braço envolve minha cintura, e ele está segurando meu braço com força para me impedir de cair. Marshall está mais ou menos parado a meu lado, só para me dar apoio. Eu pouso um pouco o tornozelo e sinto dor, mas não é forte. Consigo pular até a mesa com o auxílio precioso de Ryle. Ele me ajuda a subir e me sentar no tampo, até eu me encostar na parede com a perna estendida à frente. — Bem, a boa notícia é que não está quebrado. — E qual é a notícia ruim? — pergunto. — Vai precisar imobilizá-lo por alguns dias — responde ele, abrindo o kit de primeiros socorros. — Talvez uma semana ou mais, dependendo da recuperação. Fecho os olhos e encosto a cabeça na parede atrás de mim. — Mas eu tenho tanta coisa para fazer... — me queixo, choramingando. Ele começa a enfaixar com cuidado meu tornozelo. Allysa está parada logo atrás, observando o irmão. — Estou com sede — diz Marshall. — Alguém quer beber alguma coisa? Tem uma farmácia do outro lado da rua. — Estou bem — responde Ryle. — Eu aceito uma água — digo. — Um Sprite — pede Allysa. Marshall agarra a mão da mulher. — Você vem comigo. Allysa afasta a mão e cruza os braços. — Não vou a lugar algum — afirma. — Não dá para confiar em meu irmão. — Allysa, está tudo bem — asseguro. — Era só brincadeira. Ela me encara em silêncio por um instante, depois diz: — Ok. Mas você não pode me demitir se ele fizer mais alguma besteira. — Prometo que não vou te mandar embora. Depois disso, ela segura novamente a mão de Marshall e sai. Ryle ainda está enfaixando meu pé. — Minha irmã trabalha para você? — pergunta. — Ahã. Eu a contratei algumas horas atrás. Ele vai até o kit de primeiros socorros e pega fita. — Você sabe que ela nunca trabalhou na vida, né? — Ela já me avisou — respondo. Ele está com o maxilar cerrado e não parece tão relaxado quanto antes. Deve pensar que eu a contratei só para me aproximar. — Eu não fazia ideia de que era sua irmã até você entrar aqui. Juro. Ele me olha e depois observa meu pé. — Eu não estava sugerindo nada. Ele começa a passar a fita pela atadura elástica. — Sei que não. Mas prefiro deixar claro que eu não tentei te encurralar de alguma maneira. Nós queremos coisas diferentes da vida, lembra? Ele assente e, com cuidado, põe meu pé de volta na mesa. — Certo — diz ele. — Sou especialista em sexo casual, e você está buscando seu Santo Graal. Eu rio. — Você tem boa memória. — Tenho mesmo — concorda ele, exibindo um sorriso lânguido. — Mas você também é difícil de esquecer. Nossa. Ele precisa parar de dizer essas coisas. Apoio as palmas da mão na mesa e ponho a perna para baixo. — Uma verdade nua e crua a caminho. — Sou todo ouvidos — rebate ele, encostando na mesa a meu lado. Não escondo nada. — Sinto uma forte atração por você — confesso. — Gosto de quase tudo em você. E como queremos coisas diferentes, se nos encontrarmos de novo, eu gostaria que não fizesse mais esses comentários que me deixam tonta. Não é justo. Ele balança uma vez a cabeça e depois diz: — Minha vez. — Ele põe a mão na mesa ao lado da minha e se inclina um pouco. — Também sinto uma forte atração por você. Não tem muita coisa em você que eu não goste. Mas espero que a gente nunca mais se encontre, porque não gosto do tanto que penso em você. Não é grande coisa, mas é mais do que eu gostaria. Então, se você continua não querendo passar uma noite comigo, vamos fazer o possível para evitar um ao outro. Porque não seria bom para nenhum de nós. Não sei como ele veio parar tão perto de mim, mas está a apenas uns 30 centímetros. Com ele tão perto, fica difícil prestar atenção nas palavras que saem de sua boca. Seu olhar baixa brevemente até a minha boca, mas, assim que escutamos a porta da frente se abrir, ele vai para o outro lado do cômodo. Quando Allysa e Marshall se aproximam, Ryle está empilhando de novo todos os engradados caídos. Allysa olha para meu tornozelo. — Qual é o veredito? — pergunta ela. Faço um biquinho. — Seu irmão médico disse que devo ficar imobilizada por alguns dias. Ela me entrega a água. — Que bom que você tem a mim. Posso trabalhar e adiantar o possível enquanto você descansa. Tomo um gole d’água e depois seco a boca. — Allysa, você foi eleita a funcionária do mês. Ela sorri e se vira para Marshall. — Ouviu isso? Sou a melhor funcionária do estabelecimento! Ele põe o braço ao redor da irmã e beija o topo de sua cabeça. — Estou orgulhoso de você, Issa. Acho fofo ele a chamar de Issa, um apelido para Allysa. Penso em meu próprio nome e me pergunto se algum dia vou encontrar um cara que me chame de algum apelido ridiculamente fofo. Illy. Não. Não é a mesma coisa. — Precisa de ajuda para chegar em casa? — pergunta ela. Salto da mesa e testo o pé. — Talvez só até meu carro. É meu pé esquerdo, então provavelmente vou conseguir dirigir. Ela se aproxima e põe o braço a meu redor. — Se quiser deixar as chaves comigo, eu tranco tudo, volto amanhã e começo a limpar. Os três me acompanham até o carro, mas Ryle deixa Allysa fazer a maior parte das coisas. Por algum motivo, ele parece ter medo de encostar em mim. Quando já estou acomodada no banco do motorista, Allysa põe minha bolsa e outras coisas no chão e se senta no banco do carona. Ela pega meu celular de novo e salva seu número nos contatos. Ryle se enfia pela janela. — Coloque o máximo de gelo possível nos próximos dias. Ficar na banheira também ajuda. Assinto. — Obrigada pela ajuda. — Ryle? — chama Allysa, inclinando-se. — Será que você pode acompanhá-la no carro e voltar para casa de táxi por garantia? Ele olha para mim e balança a cabeça. — Acho que não é uma boa ideia — argumenta ele. — Ela vai ficar bem. Tomei algumas cervejas, é melhor não dirigir. — Pode pelo menos ajudar ela em casa — sugere Allysa. Ryle balança a cabeça e dá um tapinha no teto do carro enquanto se vira e sai andando. Ainda estou o observando quando Allysa me devolve o celular e diz: — Sério, me desculpe por ele. Primeiro dá em cima de você, depois se comporta como um babaca egoísta. — Ela sai do carro, fecha a porta e depois se apoia na janela. — Por isso ele vai passar o resto da vida solteiro. — Ela aponta para meu celular. — Me avise quando chegar em casa. E ligue se precisar de alguma coisa. Não conto favores como horas de trabalho. — Obrigada, Allysa. Ela sorri. — Não, eu é que agradeço. Não fico tão animada com minha vida desde o show de Paolo Nutini que vi ano passado. Ela se despede e se aproxima de Marshall e de Ryle. Eles começam a andar pela rua, e eu os observo pelo retrovisor. Ao virarem a esquina, percebo Ryle olhar em minha direção. Fecho os olhos e solto o ar. Meus dois encontros com Ryle foram em dias que provavelmente prefiro esquecer. No dia do funeral de meu pai e no dia que torci o tornozelo. Porém, por algum motivo, sua presença fez esses desastres parecerem menores. Odeio o fato de que ele é irmão de Allysa. Tenho a sensação de que essa não é a última vez que o verei.
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Comments

Ecleilda Justino

Ecleilda Justino

e aí que mora o perigo ele já tá obcecado

2025-01-02

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