Continuação do capítulo dois

Querida Ellen, Antes de contar o que aconteceu hoje, tenho uma ideia maravilhosa para um novo quadro do programa. Ele se chama Ellen em casa. Acho que muitas pessoas gostariam de te ver fora do trabalho. Sempre fico imaginando como você é em casa, quando está sozinha com Portia, sem nenhuma câmera por perto. Talvez os produtores possam dar uma câmera a ela, e de vez em quando ela flagraria você de surpresa e te filmaria fazendo coisas normais, tipo vendo TV, cozinhando, cuidando do jardim. Ela poderia filmar você por alguns segundos sem que percebesse e depois gritar “Ellen em casa!” e te assustar. Acho justo, porque você adora pegadinhas. Tá, agora que contei isso (queria contar há um tempo e sempre esquecia), vou falar sobre meu dia de ontem. Foi interessante. Provavelmente o dia mais interessante que já tive para contar, tirando o dia em que Abigail Ivory deu um tapa no Sr. Carson por ter olhado para seu decote. Lembra que um tempo atrás eu falei para você sobre a Sra. Burleson, que morava atrás da gente e morreu na noite daquela grande nevasca? Meu pai disse que ela devia tantos impostos que a filha não conseguiu ficar com a casa. Tenho certeza de que não se incomodou, porque a casa estava começando a cair aos pedaços. Provavelmente teria sido mais um fardo que outra coisa. A casa está vazia desde a morte da Sra. Burleson, e isso já tem uns dois anos. Sei que está vazia porque a janela de meu quarto tem vista para o quintal, e não me lembro de ver ninguém entrar ou sair dali. Até ontem à noite. Eu estava na cama, embaralhando cartas. Sei que parece estranho, mas é algo que costumo fazer. Nem sei jogar baralho. Mas, quando meus pais brigam, embaralhar cartas é algo que simplesmente me acalma às vezes, prende minha atenção. Enfim, estava escuro lá fora, então logo notei a luz. Não era muito forte, mas vinha da casa antiga. Parecia mais luz de velas que outra coisa, então fui até a varanda dos fundos pegar os binóculos de papai. Tentei ver o que estava acontecendo, mas não consegui identificar nada. Estava escuro demais. Então, depois de um tempo, a luz se apagou. Hoje de manhã, enquanto me arrumava para o colégio, vi alguma coisa se movendo atrás da casa. Eu me agachei na janela do quarto e notei uma pessoa saindo escondida pela porta dos fundos. Era um rapaz e tinha uma mochila. Olhou ao redor, como se quisesse ter certeza de que ninguém estava espiando, e depois passou entre nossa casa e a do vizinho, então seguiu e parou no ponto de ônibus. Nunca vi esse homem. Foi a primeira vez que andou em meu ônibus. Ele se sentou nos fundos, e eu, no meio, então não falei com ele. Mas, quando desceu do ônibus no ponto do colégio, vi ele entrar ali, então deve ser onde estuda. Não faço ideia de por que ele estava dormindo naquela casa. É provável que lá não tenha eletricidade nem água. Achei que talvez ele tivesse perdido uma aposta com alguém, mas hoje ele desceu do ônibus no mesmo ponto que eu. Seguiu pela rua como se fosse para outro lugar, mas fui correndo para meu quarto e fiquei olhando da janela. E, alguns minutos depois, eu o vi entrar escondido pelos fundos na casa vazia. Não sei se eu devia dizer alguma coisa para minha mãe. Odeio ser enxerida, porque isso não é de minha conta. Mas, se aquele menino não tem para onde ir, acho que minha mãe saberia como ajudar porque ela trabalha no colégio. Não sei. Talvez eu espere alguns dias antes de dizer alguma coisa, para ver se ele volta para casa. Talvez só precise de um tempinho longe dos pais. Algo que eu mesma gostaria, às vezes. Ok. Depois eu conto o que acontecer amanhã. Lily Querida Ellen, Quando vejo seu programa, avanço todo trecho em que você dança. Eu costumava ver o começo quando você dançava no meio da plateia, mas agora acho um pouco chato e prefiro só escutar você falar. Espero que não fique brava. Tá, descobri quem é o rapaz, e, sim, ele continua morando lá. Já se passaram dois dias, e eu ainda não contei pra ninguém. O nome dele é Atlas Corrigan, e está no último ano, mas é tudo o que sei. Perguntei a Katie quem era ele quando ela se sentou a meu lado no ônibus. Ela revirou os olhos e me contou o nome. Mas depois disse: “Eu não sei mais nada sobre ele, mas ele fede”. Ela enrugou o nariz como se estivesse enojada. Eu queria gritar com ela e dizer que não é culpa dele, que o menino não tem água em casa. Mas, em vez disso, só olhei para ele. Talvez eu tenha olhado demais, porque ele percebeu que eu o estava encarando. Quando cheguei em casa, fui cuidar da horta no quintal. Meus rabanetes estavam prontos para serem colhidos, então fiquei lá fora fazendo isso. Só sobrou isso na horta. Está começando a esfriar, então não tem muita coisa que eu possa plantar. Eu provavelmente poderia ter esperado mais alguns dias antes de tirá-los, mas também fui lá para fora porque estava sendo enxerida. Enquanto os puxava, percebi que alguns estavam faltando. Parecia que tinham acabado de desenterrá-los. Sei que não fui eu que os tirei, e meus pais nunca mexem na horta. Então pensei em Atlas, e muito provavelmente tinha sido ele. Eu não tinha me dado conta de que, se ele não tem acesso à água, também não devia ter comida. Entrei em casa e fiz dois sanduíches. Peguei dois refrigerantes na geladeira e um pacote de batatas fritas. Coloquei tudo numa bolsa térmica, fui até a casa abandonada e deixei a bolsa na varanda dos fundos, perto da porta. Eu não sabia se ele tinha me visto, então bati bem forte e depois voltei correndo para minha casa, seguindo direto para meu quarto. Quando cheguei na janela para ver se ele ia sair, a bolsa já tinha sumido. Então descobri que ele andava me observando. Agora estou um pouco nervosa por ele saber que eu sei de sua presença. Não sei o que dizer se ele tentar falar comigo amanhã. Lily Querida Ellen, Hoje vi sua entrevista com o candidato à presidência Barack Obama. Isso não te deixa nervosa? Entrevistar pessoas que podem governar o país algum dia? Não entendo muito de política, mas acho que eu não conseguiria ser engraçada sob tanta pressão. Cara. Muita coisa aconteceu com nós duas. Você acabou de entrevistar alguém que pode vir a se tornar nosso próximo presidente, e eu estou levando comida para um mendigo. De manhã, quando cheguei ao ponto de ônibus, Atlas já estava lá. No início éramos só nós dois, e, não vou mentir, foi constrangedor. Vi que o ônibus virava a esquina, e torci para que ele viesse mais rápido. Assim que o ônibus parou, Atlas se aproximou de mim e, sem erguer o olhar, disse: “Obrigado”. As portas do ônibus se abriram e ele me deixou entrar primeiro. Eu não disse “de nada” porque fiquei meio que chocada com minha reação. A voz me arrepiou, Ellen. A voz de algum garoto já causou isso em você? Ah, espere. Desculpe. A voz de alguma garota já causou isso em você? Ele não se sentou perto de mim nem nada do tipo no caminho até o colégio, mas na volta ele foi o último a subir no ônibus. Não tinha nenhum lugar vazio, mas, pela maneira como ele olhou para todo mundo no ônibus, eu percebi que não estava procurando um lugar para se sentar. Estava me procurando. Quando seus olhos encontraram os meus, olhei depressa para meu colo. Odeio não ser muito confiante com garotos. Talvez seja algo que eu supere quando finalmente completar 16 anos. Ele se sentou a meu lado e colocou a mochila entre as pernas. Então entendi o que Katie estava falando. Ele fedia um pouco, mas não o julguei por causa disso. Ele não disse nada a princípio, mas ficou remexendo em um buraco na calça jeans. Não era um buraco que deixava a calça mais estilosa. Dava para perceber que era um buraco de verdade, porque a calça era velha. Até parecia um pouco pequena para ele, porque seus tornozelos estavam aparecendo. Mas ele era magro o suficiente para que ficasse bem nas outras partes. — Você contou para alguém? — perguntou. Olhei para ele quando falou, e ele estava me encarando, parecendo preocupado. Foi a primeira vez que consegui olhar direito para ele. Seu cabelo era castanho-escuro, mas achei que, se ele o lavasse, talvez não ficasse tão escuro quanto estava naquele momento. Seus olhos eram claros, diferentemente do restante de seu corpo. Olhos azuis de verdade, parecido com os de um husky siberiano. Eu não devia comparar seus olhos aos de um cachorro, mas foi a primeira coisa que me passou pela cabeça quando os vi. Balancei a cabeça e olhei pela janela. Achei que ele ia se levantar e encontrar outro lugar para se sentar, afinal eu disse que não tinha contado a ninguém, mas ele não fez isso. O ônibus parou algumas vezes, e o fato de que ele ainda estava eli me deu um pouco de coragem, então falei, em um sussurro: — Por que não mora em casa com seus pais? Ele me encarou por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir se podia confiar em mim ou não. Depois respondeu: — Porque eles não querem. Foi então que ele se levantou. Achei que eu tivesse deixado ele irritado, mas então percebi que tinha se levantado porque chegamos ao ponto. Peguei minhas coisas e desci do ônibus logo atrás. Ele nem tentou disfarçar para onde estava indo, como costuma fazer. Normalmente, ele segue pela rua e dá a volta no quarteirão para que eu não o veja passando pelo quintal. Mas hoje ele foi andando até meu quintal comigo. Quando chegamos aonde eu normalmente me viraria para entrar em casa e ele continuaria andando, nós dois paramos. Ele chutou a terra com o pé e olhou para minha casa atrás de mim. — Que horas seus pais chegam? — Umas 17h — respondi. Eram 15h45. Ele assentiu e parecia que ia dizer mais alguma coisa, mas não fez isso. Simplesmente balançou a cabeça mais uma vez e começou a seguir na direção daquela casa sem comida, eletricidade e água. Agora, Ellen, eu sei que o que fiz em seguida foi uma burrice, então nem precisa me dizer isso. Chamei ele e, depois que parou e se virou, falei: — Se você se apressar, pode tomar um banho antes que eles cheguem. Meu coração estava muito acelerado, porque eu sabia que estaria muito encrencada se meus pais chegassem em casa e encontrassem um mendigo no chuveiro. Provavelmente me matariam. Mas não consegui vê-lo ir embora para casa sem oferecer nada. Ele olhou novamente para o chão, e senti seu constrangimento como uma pontada na barriga. Ele nem balançou a cabeça. Simplesmente me acompanhou até em casa e não disse nada. Enquanto ele tomava uma ducha, eu estava em pânico. Fiquei olhando pela janela em busca do carro de meu pai ou de minha mãe, apesar de saber que demoraria uma hora para eles chegarem. Fiquei nervosa achando que um dos vizinhos poderia ter visto ele entrar aqui em casa, mas não me conheciam o suficiente para achar que era anormal receber uma visita. Eu tinha dado roupas limpas para Atlas, e sabia que não só ele precisava estar fora de nossa casa quando meus pais chegassem, mas precisava estar bem longe. Tenho certeza de que meu pai reconheceria as próprias roupas em um adolescente qualquer de nosso bairro. Enquanto olhava pela janela e conferia o relógio, comecei a encher uma mochila velha com várias coisas. Comida que não precisava de refrigeração, algumas camisetas de meu pai, uma calça jeans que provavelmente era dois tamanhos maior que o dele e um par de meias. Estava fechando a mochila quando ele apareceu do corredor. Eu tinha razão. Mesmo molhado, dava para perceber que seu cabelo era mais claro do que parecia antes. Isso deixou seus olhos ainda mais azuis. Ele deve ter feito a barba enquanto estava lá dentro, porque parecia mais novo que quando entrou no banheiro. Engoli em seco e olhei para a mochila, chocada ao ver como ele estava diferente. Fiquei com medo de que meus pensamentos estivessem estampados no rosto. Olhei pela janela mais uma vez e lhe entreguei a mochila. — Talvez seja melhor você sair pela porta dos fundos para ninguém te ver. Ele pegou a mochila e me encarou por um minuto. — Qual seu nome? — perguntou, colocando a mochila no ombro. — Lily. Ele sorriu. Foi a primeira vez que sorriu para mim, e tive um pensamento péssimo e superficial. Eu me perguntei como alguém com um sorriso tão lindo poderia ter pais tão ruins. Fiquei com raiva de mim por ter pensado aquilo, porque é claro que os pais deveriam amar os filhos fossem eles bonitos ou feios, magros ou gordos, inteligentes ou burros. Mas às vezes não dá para controlar a própria mente. É preciso treiná-la para nunca mais pensar a mesma coisa. Ele estendeu a mão e disse: — Meu nome é Atlas. — Eu sei — respondi, sem apertar sua mão. Não sei por que não fiz isso. Não foi porque eu estava com medo de encostar nele. Quer dizer, eu estava com medo de encostar nele. Mas não porque eu me achava melhor que ele. Ele me deixava muito nervosa, só isso. Ele abaixou a mão, balançou a cabeça e depois disse: — Acho melhor eu ir, então. Dei um passo para o lado para que ele pudesse passar. Atlas apontou para a cozinha, perguntando silenciosamente se a porta dos fundos ficava naquela direção. Assenti e o acompanhei pelo corredor. Quando ele chegou à porta dos fundos, eu o vi parar por um segundo ao ver meu quarto. De repente, fiquei com vergonha por ele estar vendo meu quarto. Ninguém nunca vê meu quarto, então nunca achei que precisava deixá-lo com uma aparência mais madura. A coberta e a cortina, ambas cor-de-rosa, são as mesmas desde que eu tinha 12 anos. Pela primeira vez na vida, tive vontade de arrancar meu pôster de Adam Brody. Atlas não pareceu se importar com a decoração do quarto. Ele olhou fixo para minha janela — a que dá para o quintal — e depois me olhou de novo. Antes de sair de minha casa, disse: — Obrigado por não ser detrativa, Lily. E depois foi embora. Claro que eu já ouvi essa palavra, mas foi estranho ouvir um adolescente dizer isso. O mais estranho é como tudo em Atlas me parece muito contraditório. Como um rapaz que é nitidamente modesto, educado e usa palavras como detrativa não tem onde morar? Como um adolescente vira um mendigo? Preciso descobrir, Ellen. Vou descobrir o que aconteceu com ele. Espere só pra ver. Lily • • • Estou prestes a ler outra carta quando meu celular toca. Engatinho no sofá para pegá-lo, e não fico nem um pouco surpresa ao ver o número de minha mãe. Sozinha depois da morte de meu pai, provavelmente ela vai me ligar o dobro de vezes que ligava antes. — Alô? — O que acha de eu me mudar para Boston? — pergunta ela, bruscamente. Agarro a almofada ao lado e enfio o rosto ali, abafando meu grito. — Hum. Nossa! — exclamo. — Sério? Ela fica em silêncio, depois acrescenta: — Acabei de pensar nisso. Amanhã a gente conversa. Estou quase atrasada para a reunião. — Tá. Tchau. E, como num passe de mágica, sinto vontade de sair de Massachusetts. Ela não pode se mudar para cá. Não conhece ninguém aqui. Iria pedir atenção todos os dias. Amo minha mãe, não me entendam mal, mas eu me mudei para Boston em busca de independência, e eu me sentiria menos livre com ela na cidade. Meu pai foi diagnosticado com câncer há três anos, quando eu ainda cursava a faculdade. Se Ryle Kincaid estivesse ali, eu lhe contaria a verdade nua e crua de que me senti um pouco aliviada quando Andrew Bloom ficou doente demais para machucar alguém fisicamente. Isso mudou de vez a dinâmica do relacionamento de meus pais, e não senti mais a obrigação de ficar em Plethora para garantir o bem-estar de mamãe. Agora que papai faleceu e que não preciso mais me preocupar com minha mãe, eu ansiava por abrir as asas e voar, por assim dizer. E agora ela vai se mudar para Boston? Sinto como se tivessem cortado minhas asas. Cadê minha cadeira de polímero resistente à maresia quando preciso de uma?! Estou realmente estressada e não faço ideia do que vou fazer caso ela se mude. Não tenho jardim nem quintal, nem terraço, nem ervas daninhas. Preciso achar outra válvula de escape. Decido arrumar as coisas em casa. Guardo no armário do quarto todas as velhas caixas cheias de diários e bilhetes. Depois, organizo meu armário inteiro. Minhas joias, meus sapatos, minhas roupas... Ela não pode se mudar para Boston.
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Ecleilda Justino

Ecleilda Justino

vixe aí pra bde mora o perigo

2025-01-02

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Ana Schneider

Ana Schneider

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2022-09-20

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